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Modelo da lata de lixo: decisões em organizações confusas

Em resumo

O modelo da lata de lixo, de Michael Cohen, James March e Johan Olsen (1972), explica decisões em organizações com metas pouco claras e participação variável. Problemas, soluções e pessoas se encontram por acaso. Para o gestor, serve para organizar reuniões e pautas.

O modelo da lata de lixo (garbage can model) explica por que em muitas organizações as decisões não seguem a ordem lógica de definir o problema, comparar soluções e escolher. Em vez disso, problemas, soluções e participantes se misturam e se encontram em reuniões. Foi proposto por Michael Cohen, James March e Johan Olsen em 1972. Para o gestor municipal, é útil para entender por que certas decisões saem de forma estranha e para organizar a pauta e as reuniões.

O que é e de onde vem

O artigo "A Garbage Can Model of Organizational Choice" saiu na revista Administrative Science Quarterly em 1972. Os autores partem do conceito de anarquias organizadas: organizações ou situações de decisão com preferências problemáticas, tecnologia pouco compreendida e participação fluida. Eles observam que essas características podem aparecer em qualquer organização, em parte do tempo, e não apenas nas obviamente caóticas. O estudo nasceu da observação de universidades.

A imagem central é a de uma lata na qual os participantes jogam problemas e soluções à medida que surgem. Em uma anarquia organizada, há escolhas procurando problemas, questões procurando situações em que possam ser discutidas, soluções procurando questões a que respondam e pessoas procurando trabalho. Problemas e soluções ficam fracamente ligados. Uma decisão acontece quando, por acaso, um conjunto de problemas, soluções, pessoas e ocasião de escolha se encontra.

Os autores traduziram a ideia em uma simulação de computador, usada para examinar como a adversidade afeta a tomada de decisão em universidades. Na época, o campo era dominado por modelos racionais, e tratar a desordem como objeto sério de estudo foi uma novidade.

Por que funciona no setor público

Prefeituras e câmaras têm traços de anarquia organizada em muitos momentos: objetivos múltiplos e às vezes contraditórios, equipes que mudam, regras pouco claras, e reuniões em que o tema do dia não é o mais importante. É comum que uma solução pronta, como um sistema ou um evento, procure um problema para justificá-la, e que decisões saiam porque a pessoa certa estava na sala na hora certa.

Reconhecer isso permite agir. Em vez de culpar a desorganização, o gestor pode cuidar da lata: separar problemas de soluções, dar tempo e espaço para cada tema, escolher quem participa e criar momentos formais de decisão. É uma lente para melhorar a governança das reuniões, não uma defesa do caos.

Como aplicar na prefeitura, passo a passo

  1. Observe como as decisões saem. Em uma reunião ou comitê, anote quais problemas surgem, quais soluções são propostas e quem está presente.
  2. Separe problemas e soluções. Mantenha duas listas: o que precisa ser resolvido e o que já foi sugerido. Verifique se as soluções realmente respondem aos problemas.
  3. Defina a pauta e o tempo. Limite a quantidade de temas por reunião e reserve tempo para decidir, não só para debater.
  4. Garanta presença de quem decide. Convide quem tem competência e informação, e registre quando alguém essencial faltou.
  5. Crie portas de decisão. Estabeleça momentos regulares, como comitês quinzenais, em que cada tema pendente tem de ser decidido, adiado com motivo ou arquivado.
  6. Retire do caminho o que não é problema. Dê a soluções "perdidas" um destino, como o banco de ideias, para que não ocupem a pauta.
  7. Registre e acompanhe. Escreva a decisão, o responsável e o prazo, e revise na reunião seguinte.

Modelo para preencher

Use a ficha abaixo como ponto de partida. Adapte à legislação e à realidade do seu órgão.

Problema em pauta Solução proposta Quem decide Decisão Prazo e responsável
Problema 1 Há solução ligada a ele?      
Problema 2 Há solução ligada a ele?      
Solução sem problema Qual problema ela resolve?      

Exemplo prático

Exemplo hipotético. Em um comitê de gestão que se reúne mensalmente, aparecem temas variados: atraso em um serviço, a ideia de um novo aplicativo, a reforma de um prédio, a queixa de um setor. Em geral, quem fala mais alto define o rumo, e muitas decisões não têm responsável. Ao observar três reuniões, a secretaria percebe que o aplicativo é uma solução que vem de uma pessoa e procura problema, enquanto o atraso do serviço não recebe solução.

A secretaria passa a distribuir antes uma pauta com os problemas, deixa as ideias em lista separada e reserva o final da reunião para decidir. Cada item sai com responsável e prazo. Sem mudar as pessoas, a reunião passou a produzir decisões.

Erros comuns

  • Culpar pessoas pela desorganização. O padrão é da organização e se corrige com processo.
  • Aceitar solução sem problema. Pergunte sempre qual problema ela resolve e como saberemos.
  • Encher a pauta. Quanto mais temas, maior a chance de nenhum ser decidido.
  • Não registrar as decisões. Sem ata ou responsável, a decisão se perde na lata.
  • Tentar eliminar toda a desordem. Alguma flexibilidade ajuda a aproveitar oportunidades. Busque equilíbrio.

Perguntas frequentes

O modelo diz que as decisões são irracionais?

Não. Ele descreve como as decisões ocorrem em contextos com metas pouco claras, participação variável e pouca compreensão do processo.

Todas as organizações são anarquias organizadas?

Segundo os autores, essas características podem aparecer em qualquer organização, em parte do tempo.

Como o modelo ajuda na prática?

Para estruturar pautas, separar problemas de soluções, garantir quem decide na sala e registrar decisões.

O modelo vale para o Legislativo?

Pode ser útil também em comissões e na Mesa, onde participação varia e as pautas se acumulam.

Fontes

  1. Garbage can model — Wikipedia, 11/10/2026
  2. A Garbage Can Model of Organizational Choice (cópia do artigo, Administrative Science Quarterly) — Université libre de Bruxelles (wikicap), 11/10/2026
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