Toda organização precisa de alguma regra para lidar com faltas. O que acontece quando a regra pune até quem falta por doença? Um estudo publicado em junho de 2026 na revista Health Affairs, por Meredith Slopen, Kristen Harknett e Daniel Schneider, este último professor da Harvard Kennedy School (HKS), investigou a relação entre sistemas de pontos por falta e presenteísmo, ou seja, ir trabalhar doente. O resumo está na página da HKS, e a HKS publicou uma matéria explicativa. O artigo completo, da revista, não pôde ser aberto; esta leitura usa o resumo e a matéria.
A ideia em resumo
Em sistemas de pontos, cada falta, atraso ou saída antecipada gera pontos, e acumular pontos leva a advertências ou demissão. A pesquisa anterior já associava licença médica remunerada a menos presenteísmo, mas ninguém tinha testado se os sistemas de pontos anulam esse efeito. Os autores concluem que eles enfraquecem os benefícios de saúde pública da licença remunerada.
O que o estudo mostrou
A análise usou dados de 2024 do Shift Project, com trabalhadores de serviços de 63 grandes empresas, em áreas como varejo, supermercados, farmácias, entregas e restaurantes. Segundo o resumo:
- estar exposto a um sistema de pontos se associou a um aumento de 18,9 pontos percentuais no presenteísmo;
- a associação apareceu até entre quem ainda não tinha recebido pontos, ou seja, a mera existência da regra já pesa;
- a presença de leis de licença médica remunerada não alterou nem a exposição aos sistemas de pontos nem a relação entre pontos e presenteísmo.
A matéria da HKS acrescenta que quem já tinha recebido pontos e sofrido consequências estava cerca de 39% mais propenso a trabalhar doente, na comparação com trabalhadores sem esse sistema, e cita que, em 2024, 15 estados americanos e quatro cidades ou condados tinham leis próprias de licença médica. Os autores sugerem divulgação para empresas e trabalhadores e maior fiscalização. O resumo não informa como o presenteísmo foi medido nem o modelo estatístico, e o resultado é de associação, não prova de causa.
Como aplicar no Brasil
O estudo é do setor privado americano. Mesmo assim, a pergunta cabe à gestão pública: nossas regras de frequência incentivam a pessoa doente a ir trabalhar?
- Reveja as regras internas de frequência do órgão e o que acontece com faltas justificadas por atestado. Distinga falta injustificada de afastamento por saúde, que tem tratamento próprio no estatuto e na legislação.
- Olhe os contratos terceirizados (limpeza, vigilância, portaria, apoio administrativo). Verifique se há cláusulas de desconto ou de penalidade ligadas a faltas que, na prática, levam o empregado terceirizado a trabalhar doente, e se o contrato respeita a legislação trabalhista. A fiscalização deve acompanhar isso.
- Meça presenteísmo e afastamentos. Inclua na pesquisa de clima uma pergunta simples: nos últimos meses, você trabalhou mesmo estando doente? Por quê?
- Considere o risco de contágio em serviços de contato direto, como unidades de saúde, escolas, creches e atendimento ao público.
- Combine regras com apoio. Adote cobertura de ausências, banco de horas dentro da lei, orientação ao chefe imediato e canais para dúvidas, em vez de pressão sobre quem adoece.
- Revise a avaliação de desempenho e o estágio probatório para evitar que ausências por saúde reduzam a nota de forma indevida.
Cuidados e limites
Os dados são de trabalhadores de serviços de grandes empresas americanas, em um sistema de licença médica diferente do brasileiro, e a matéria não compara com o serviço público. A relação medida é uma associação. O estudo não mostra que controlar faltas seja ruim em si: órgãos precisam de regras e de assiduidade. O ponto é que regras mal desenhadas podem produzir efeito oposto ao pretendido. No Brasil, a disciplina das faltas, atestados e descontos depende do estatuto do servidor, da legislação trabalhista e de decisões judiciais, e qualquer mudança deve ser avaliada pela procuradoria e pela área de pessoal. Este texto é uma leitura própria da Evoluta, feita por profissionais com formação pela Harvard Kennedy School, sem vínculo da empresa com a HKS.



