A coprodução de serviços públicos parte de uma constatação simples: muitos serviços só dão resultado quando o cidadão também participa da produção. A escola depende de famílias que acompanham os filhos; a saúde, de pacientes que seguem o tratamento; a segurança, de vizinhos que passam informação. Segundo as fontes consultadas, o termo foi cunhado no fim dos anos 1970 pela economista Elinor Ostrom e por colegas da Universidade de Indiana, e ganhou desenvolvimento em trabalhos posteriores, como o artigo de Ostrom publicado na revista World Development, em 1996. Para o gestor municipal, a coprodução é um jeito de desenhar o serviço contando com os recursos que a comunidade já tem.
O que é a coprodução
A origem costuma ser contada a partir das pesquisas da equipe de Ostrom, nos anos 1970, sobre serviços urbanos como o policiamento, que mostraram que o resultado dependia também da relação com os moradores. A lição é que o serviço público depende não só da competência técnica, mas também do saber e da colaboração de quem o recebe.
Na prática, a coprodução aparece em várias formas, descritas nas fontes consultadas.
- Codesenho: usuários ajudam a desenhar o serviço, antes de decisões definitivas.
- Coentrega: cidadãos e organizações participam da execução, em geral com entidades da sociedade civil.
- Cogestão e cogovernança: terceiros participam da gestão ou dividem decisões e planejamento com o órgão público.
- Coavaliação: usuários e outras partes monitoram a qualidade e os resultados.
Há limites apontados: metas de curto prazo e resultados rígidos entram em conflito com o método; os benefícios preventivos são difíceis de medir; experiências bem-sucedidas costumam ser locais e perdem força ao ser ampliadas; profissionais podem resistir a ceder controle; e grandes burocracias são pouco adequadas. Este texto é uma explicação própria, sem vínculo com a autora ou com a universidade.
Por que funciona no setor público
As prefeituras têm recursos limitados e demandas crescentes. A coprodução reconhece que a comunidade também tem recursos: conhecimento do território, tempo, redes de ajuda e capacidade de organização. Ao reconhecê-los, o serviço pode ser mais adequado à realidade local e mais sustentável.
Mas a coprodução não é uma forma de transferir obrigação ao cidadão. O dever de prestar o serviço continua com o poder público. A pergunta correta é: que parte do resultado depende da participação de quem usa, e como a prefeitura facilita essa participação com informação, formação e respeito? Também é preciso respeitar a legislação: quando entidades da sociedade civil participam da execução, aplicam-se as regras de parcerias, e o controle continua sendo exigido.
Como aplicar na prefeitura, passo a passo
- Escolha um serviço em que o resultado dependa também do usuário. Por exemplo, coleta seletiva, vacinação, frequência escolar.
- Mapeie o que o cidadão já faz. Que conhecimentos e ajudas a comunidade oferece sem ser chamada?
- Defina os papéis. O que o poder público garante e o que a comunidade pode assumir, voluntariamente.
- Ofereça meios. Informação clara, capacitação e canal de contato.
- Combine o formato. Se houver parceria com entidade, use o instrumento previsto em lei (termo de colaboração, termo de fomento ou acordo de cooperação, da Lei 13.019/2014), com plano de trabalho e prestação de contas.
- Acompanhe juntos. Defina indicadores simples e revise com a comunidade.
- Reconheça e ajuste. Dê retorno sobre os resultados e corrija o que não funcionou.
Ficha para preencher
Use a ficha abaixo para cada serviço. Adapte à legislação e à realidade do seu órgão.
| Serviço | O que o poder público garante | O que a comunidade pode contribuir | Apoio oferecido | Instrumento formal (se houver) | Indicador |
|---|---|---|---|---|---|
Exemplo prático
Exemplo hipotético. Uma prefeitura quer melhorar a coleta seletiva em alguns bairros. Em vez de apenas ampliar os caminhões, a equipe conversa com moradores e com uma associação de catadores. Descobre que as pessoas não sabem o dia da coleta e que há pontos de entrega pouco usados. O poder público garante a coleta e a manutenção dos pontos; os moradores se comprometem a separar o material; a associação, por meio de instrumento próprio, passa a receber e triar o que for coletado. A prefeitura publica o volume recolhido a cada mês, e os moradores ajudam a ajustar os dias e os pontos.
Antes de começar, vale testar em escala pequena: escolha um bairro ou uma unidade, combine metas simples com a comunidade e acompanhe por alguns meses. O aprendizado desse teste mostra que apoios são realmente necessários e quais expectativas precisam ser ajustadas, e evita que uma boa ideia se perca por falta de preparo da equipe ou por promessas que a administração não consegue cumprir.
Erros comuns
- Transferir a obrigação. A coprodução não substitui o dever do poder público.
- Chamar só para executar. Participar do desenho e da avaliação é parte do modelo.
- Esquecer o apoio. Sem informação e treinamento, a participação não se sustenta.
- Ignorar a formalização. Parcerias com entidades exigem instrumento, plano e prestação de contas.
- Medir só entregas. Inclua resultados e a percepção dos usuários.
Perguntas frequentes
Coprodução é voluntariado?
Pode incluir, mas não se reduz a isso. Trata-se de um modo de desenhar o serviço com a participação de quem o usa.
É a mesma coisa que participação social?
Semelhante, mas distinta. A participação social foca em influenciar decisões; a coprodução, em contribuir na produção do serviço, e as duas podem coexistir.
Serve para cidade pequena?
Sim. Em cidades pequenas, a rede de vizinhança costuma ser um grande recurso.
Que riscos jurídicos há?
Dependem do formato. Parcerias e repasses seguem normas específicas, e o uso de voluntários exige cuidados. Consulte a procuradoria.



