Melhorar a educação de uma cidade raramente depende só da secretaria de educação. Passa por saúde, assistência social, cultura, empresas, universidades e famílias. O caso “Change at the Speed of Trust”, do Programa de Casos da Harvard Kennedy School (HKS), publicado em março de 2021 por Gaylen Moore, Jorrit de Jong, Paul Reville, Lynne Sacks e Anna Burgess, olha a colaboração entre setores em Louisville, no Kentucky (EUA), pela perspectiva do prefeito. A página da Bloomberg Harvard City Leadership Initiative, que financiou o caso, traz uma descrição semelhante. Esta leitura se baseia nesses resumos, e não no texto completo.
A ideia em resumo
No início do século XXI, Louisville ficava entre o meio e o fim da lista de cidades comparáveis em prosperidade e qualidade de vida, e tinha uma grande defasagem de aprendizado entre grupos de alunos. Desde então, dois prefeitos seguidos promoveram colaboração entre setores para melhorar o preparo dos estudantes para a universidade e o trabalho. O caso conta como, sob a liderança do segundo deles, o esforço se tornou um plano de mudança de sistema, do berço à carreira (cradle to career), com serviços integrados de apoio às famílias e garantia de bolsa de estudos para quem conclui o ensino médio.
O que o caso apresenta
O prefeito reuniu um gabinete formado por líderes de organizações sem fins lucrativos, governo, instituições de ensino e empresas locais. Esses grupos tinham prioridades diferentes e, às vezes, histórico de desconfiança, e precisaram definir como governar e decidir em conjunto. O caso examina a reorganização do gabinete: como as responsabilidades foram delegadas, como se construiu confiança e como se conquistou apoio à mudança sistêmica. A pergunta que o estrutura é se o processo estava andando rápido demais ou devagar demais.
Segundo os resumos, o material também discute o desenho e a gestão de colaborações intersetoriais, os desafios comuns e os fatores de sucesso, e vem com um guia para praticantes. Os resumos não apresentam resultados medidos, como melhora de notas ou de matrícula, e por isso esta matéria não os afirma. Os objetivos de aprendizagem são reconhecer condições e escolhas que favorecem ou dificultam a colaboração e avaliar os efeitos prováveis de abordagens alternativas.
Como aplicar no Brasil
Municípios brasileiros já têm instâncias que se aproximam disso: conselhos de educação, comitês de primeira infância, redes de proteção, planos municipais. A questão é fazê-las funcionar como governança de verdade.
- Escolha um objetivo comum e mensurável. Por exemplo, alfabetização na idade certa, redução da evasão no ensino fundamental ou ingresso de jovens na educação profissional. Evite agendas amplas demais.
- Monte um comitê com poder de decisão, com prefeitura (educação, saúde, assistência social), escolas, conselhos, universidades, entidades sociais e empresas. Defina quem convoca, quem preside e como se decide.
- Combine regras de trabalho. Papéis, delegação, pauta, calendário, registro de decisões e metas do ano. O caso mostra que reorganizar o grupo foi necessário para ganhar confiança.
- Construa confiança antes de pedir mudança. Comece por ações pequenas e visíveis, que os parceiros possam realizar juntos, e mostre resultados parciais.
- Use dados comuns. Um painel de poucos indicadores, atualizado e compartilhado, evita que cada setor trabalhe com um número diferente. Observe as regras de proteção de dados de crianças.
- Ajuste o ritmo. Reserve um momento periódico para perguntar: estamos indo rápido demais para o grupo acompanhar ou devagar demais para entregar? A pergunta do caso é útil como ritual de avaliação.
- Dê continuidade além do mandato. O caso mostra um esforço que atravessou duas gestões; planos municipais e metas em lei ajudam a sobreviver à troca de gestão.
Cuidados e limites
É um caso de ensino, descrito apenas pelo resumo, sem dados de resultado. Louisville tem uma estrutura de governo local e de financiamento da educação diferente da brasileira, e a garantia de bolsa de estudos depende de um arranjo que não existe nos municípios daqui. Colaboração intersetorial exige tempo, e o comitê não substitui a responsabilidade de cada órgão nem o controle social. Parcerias com empresas e entidades precisam seguir as regras de transparência, de contratação e de prestação de contas, sem criar benefício indevido. Este texto é uma leitura própria da Evoluta, feita por profissionais com formação pela Harvard Kennedy School, sem vínculo da empresa com a HKS.



