Contato

Como destravar consenso entre órgãos: o caso de Washington, D.C.

Em resumo

Para ampliar os tipos de chamada de emergência desviados da polícia para equipes de saúde mental, Washington, D.C. precisou alinhar três órgãos. O Government Performance Lab, da Harvard Kennedy School, descreve o processo de nove meses: dados de chamadas, escuta da linha de frente e um facilitador neutro. A lição de método vale para qualquer prefeitura que precise pôr áreas para trabalhar juntas.

Nem toda dificuldade de uma política está na falta de recursos. Muitas vezes, os órgãos envolvidos simplesmente não chegam a um acordo sobre quem faz o quê. Em maio de 2023, o Government Performance Lab (GPL), da Harvard Kennedy School (HKS), publicou o resumo de um debate sobre como Washington, D.C., construiu consenso para ampliar uma resposta de saúde em crises de saúde mental. O texto não tem autor individual e recapitula um painel com dirigentes da cidade e do GPL.

A ideia em resumo

Na capital americana, crises de saúde mental eram muitas vezes tratadas por uma resposta com a polícia na frente. O diretor de serviços de crise do departamento de saúde mental defendeu uma abordagem em que a saúde vem primeiro. A cidade já tinha equipes de duas pessoas com formação em saúde mental, que desescalam situações e conectam as pessoas a cuidado. Faltava ampliar os tipos de chamada que podiam ser desviados para elas, e isso dependia de acordo entre o departamento de saúde mental, a polícia metropolitana e o escritório de comunicações de emergência.

O que o material mostrou

O GPL deu apoio técnico por cerca de nove meses, no programa de implementação de resposta alternativa ao 911. Os passos descritos foram:

  1. analisar dados de chamadas anteriores;
  2. compartilhar práticas de outras jurisdições;
  3. sintetizar pesquisas sobre disparidades raciais em prisões;
  4. ouvir a linha de frente, incluindo atendentes, despachantes e equipes de resposta;
  5. facilitar a conversa entre dirigentes dos órgãos;
  6. chegar a acordo sobre quais tipos de chamada incluir.

Segundo o texto, a equipe de saúde disse que já atendia muitos dos tipos de chamada em debate, mas por uma linha separada, e não pelo 911. Trazer isso à tona ajudou os órgãos a chegar ao consenso. A facilitação conduzida por um integrante do GPL ajudou o grupo a sair das discussões hipotéticas do tipo e se. Outro ponto foi desviar chamadas elegíveis para a mesma central que atende a linha nacional de prevenção ao suicídio e de crise (988), de modo que a pessoa receba a mesma resposta ligando para qualquer número.

Os resultados descritos são qualitativos: os órgãos concordaram com um plano que amplia de forma significativa os tipos de chamada elegíveis. O texto não diz se o plano foi implantado nem com que efeitos, e não traz dados de tempo de resposta, prisões evitadas ou lesões.

Como aplicar no Brasil

O desenho institucional brasileiro é outro, e a Lei 10.216/2001 diz que cabe ao Estado desenvolver a política de saúde mental, com participação da sociedade e da família (art. 3º). A parte mais transferível do caso é o método de construir acordo:

  • Comece pelos dados. Reúna, por três a seis meses, as ocorrências em que a guarda, o atendimento de urgência e a saúde mental foram acionados, e mostre aos órgãos o que cada um já faz.
  • Ouça a linha de frente antes da reunião dos dirigentes. Muitas vezes quem atende já resolve os casos por canais informais; trazer isso ao debate tira o assunto da hipótese.
  • Use um facilitador neutro, de fora das áreas envolvidas ou de uma área sem interesse direto, para conduzir as reuniões e registrar os acordos.
  • Escolha poucos tipos de ocorrência para começar e escreva, com cada órgão, quem aciona quem e em qual prazo.
  • Formalize o acordo em um protocolo assinado ou em ato administrativo, com a revisão da procuradoria, e marque uma data para revisar.
  • Defina indicadores desde o início, como tempo até o atendimento e casos devolvidos, porque o texto de Washington não traz resultados e essa lacuna pode se repetir.

Cuidados e limites

O texto é um relato promocional do próprio GPL, que participou do trabalho. A evidência principal é um exemplo ilustrativo e as falas de participantes; não há dados de resultado. Não se sabe quais tipos de chamada entraram, nem a equipe, o orçamento ou o prazo. E o próprio texto diz que a resposta alternativa está em fase inicial em muitas jurisdições, de modo que o modelo de D.C. pode não ser transferível. Este texto é uma leitura própria da Evoluta, feita por profissionais com formação pela Harvard Kennedy School, sem vínculo da empresa com a HKS.

Conteúdo independente da Evoluta, inspirado em publicações da Harvard Kennedy School of Government, a escola de governo da Universidade Harvard que inspira a Escola de Governo da Evoluta. Publicação original indicada nas fontes; a Evoluta não tem vínculo institucional com a Universidade Harvard.

Fontes

  1. A "Health-First" Approach to Behavioral Health Crises in Washington, D.C. — Harvard Kennedy School, Government Performance Lab, 18/05/2023
  2. Lei nº 10.216/2001, art. 3º — Planalto, 06/04/2001
Fale no WhatsApp