Contato

Custeio baseado em atividades (ABC): como aplicar no município

Em resumo

O custeio baseado em atividades (ABC) distribui os custos indiretos conforme o uso real das atividades de cada serviço, e não por rateio uniforme. Na prefeitura, ajuda a descobrir quanto custa de fato emitir um alvará, atender um paciente ou manter uma escola.

O custeio baseado em atividades, conhecido pela sigla ABC (do inglês activity-based costing), é um método para saber quanto custa cada produto ou serviço, atribuindo os custos indiretos conforme o consumo real das atividades. Para o gestor municipal, a pergunta é concreta: quanto custa, de verdade, emitir um alvará, atender um cidadão no guichê ou manter uma unidade de saúde? Aqui você vê a origem, o funcionamento, um passo a passo para a prefeitura, uma ficha e os erros mais comuns.

O que é o custeio ABC

Nos métodos tradicionais, os custos indiretos, como aluguel, energia, administração e supervisão, são divididos por um critério único e geral, por exemplo o número de funcionários. O resultado pode esconder distorções: um serviço simples acaba pagando parte do custo de um serviço complexo. O ABC corrige isso em duas etapas: primeiro, reúne os custos em grupos por atividade; depois, distribui cada grupo para os serviços conforme um direcionador de custo, isto é, o fator que de fato faz a atividade custar mais ou menos, como o número de análises feitas ou de horas de atendimento.

A autoria é atribuída a Robin Cooper e Robert Kaplan, que difundiram o método em artigos da década de 1980. O artigo de setembro de 1988 na Harvard Business Review, "Measure Costs Right: Make the Right Decisions", argumenta que gestores de empresas com muitos produtos decidem preço, mix e processo com base em informação de custo distorcida, e que o problema muitas vezes só é notado depois de a competitividade já ter caído. A versão para o setor público é uma adaptação: a Evoluta não tem relação com os autores nem com a publicação citada, e o texto apenas apresenta o conceito.

Por que funciona no setor público

Prefeituras raramente sabem o custo unitário de seus serviços. Sem essa informação, é difícil comparar alternativas, definir taxas, avaliar terceirização, negociar convênios ou saber onde o processo está caro. O ABC torna visível o custo de cada etapa, e isso ajuda a localizar gargalos. Um alvará que custa muito mais do que outro pode sinalizar retrabalho, fluxo mal desenhado ou falta de padronização.

Há limites claros. O método exige dados e tempo da equipe, e em processos administrativos o custo de levantar tudo pode superar o benefício. Alguns custos, como o de gabinete, não se ligam a atividades específicas e não devem ser distribuídos de forma arbitrária. Estudos sobre o uso no setor público não mostram sucesso uniforme: muitas vezes o resultado serve mais para justificar orçamento e orientar escolhas de serviço do que para gerar economia direta.

Como aplicar no município, passo a passo

  1. Escolha um serviço para começar. Um serviço de alto volume e processo bem conhecido, como protocolo, alvarás ou atendimento ao público.
  2. Liste as atividades. Receber o pedido, conferir documentos, analisar, despachar, notificar, arquivar.
  3. Levante os custos. Salários e encargos, materiais, sistemas, espaço físico e outros itens, com base na contabilidade e na folha.
  4. Distribua os custos às atividades. Estime o tempo de cada equipe em cada atividade, por amostra ou por entrevista com os servidores.
  5. Escolha o direcionador. O que faz a atividade custar mais: número de pedidos, de visitas, de documentos analisados?
  6. Calcule o custo unitário. Custo da atividade dividido pelo volume do direcionador, somado para o serviço.
  7. Analise e compare. Onde está o maior custo? Há etapas sem valor para o cidadão? Que serviços custam mais do que a taxa cobrada?
  8. Use o resultado. Redesenhe o fluxo, ajuste a estrutura ou atualize taxas, sempre respeitando a legislação.

Modelo para preencher

Use a ficha abaixo para cada serviço analisado. Adapte à legislação e à realidade do seu órgão.

Campo Orientação de preenchimento
Serviço analisado Nome e volume anual de pedidos
Atividades Etapas do processo, na ordem em que ocorrem
Custo por atividade Pessoal, material e sistemas, por mês ou por ano
Direcionador Fator que explica o custo da atividade
Custo unitário Custo da atividade dividido pelo volume do direcionador
Custo total do serviço Soma dos custos unitários das atividades
Etapas sem valor Retrabalho, espera e conferências repetidas
Ação decidida Mudança no fluxo, com responsável e prazo

Exemplo prático

Exemplo hipotético. Uma prefeitura quer saber quanto custa um alvará de funcionamento. A equipe lista cinco atividades: protocolo, análise documental, vistoria, emissão e arquivo. Estima o tempo médio dos servidores em cada etapa e soma o custo de pessoal, veículo e sistema. O resultado mostra que a análise documental é a etapa mais cara, porque muitos pedidos voltam por falta de documento. A decisão é publicar uma lista de verificação simples para o requerente e padronizar a conferência. Depois de alguns meses, a equipe recalcula e compara. Os números e a situação do exemplo são fictícios.

Erros comuns

  • Querer medir tudo. Comece por um serviço e amplie depois.
  • Estimar tempo sem ouvir quem executa. O servidor da ponta conhece a rotina real.
  • Ratear custos de gabinete. Custos que não se ligam à atividade podem ficar fora ou ser apresentados à parte.
  • Usar o custo para cobrar taxa sem base legal. Taxas dependem de lei e de critérios próprios.
  • Fazer uma vez e esquecer. Sem atualização, o dado envelhece e perde utilidade.

Perguntas frequentes

O ABC é o mesmo que contabilidade de custos do setor público?

Não. A contabilidade de custos é o conjunto de normas e sistemas. O ABC é um método para distribuir custos indiretos.

Precisa de software?

Para um serviço, uma planilha basta. Para a prefeitura inteira, sistemas ajudam.

Serve para câmara municipal?

Serve para atividades repetitivas, como protocolo e atendimento ao público.

É caro implantar?

Depende do escopo. Por isso a recomendação é começar pequeno e usar os resultados para decidir se vale ampliar.

Fontes

  1. Measure Costs Right: Make the Right Decisions (Robin Cooper e Robert S. Kaplan) — Harvard Business Review, set. 1988 (página do artigo; a Evoluta não tem vínculo com a publicação), 01/09/1988
Fale no WhatsApp