Abrir uma praça, um parque ou uma biblioteca não garante que todos os moradores a usem do mesmo jeito. Quem tem tempo livre, ruas seguras e atividades que lhe interessam vai mais; quem não tem, fica de fora. Mas como a prefeitura sabe quem está ficando para trás? A Bloomberg Harvard City Leadership Initiative, iniciativa que reúne a Harvard Kennedy School (HKS), a Harvard Business School e a Bloomberg Philanthropies, publicou em abril de 2024 um resumo de pesquisa, o Hidden Barriers to Open Venues, que mostra como dados de mobilidade podem ajudar a responder.
A ideia em resumo
O texto, assinado por Yamile Nesrala, Jonathan Jay e Jorrit de Jong, resume uma pesquisa acadêmica revisada por pares sobre o uso de parques urbanos durante a pandemia de covid-19. A premissa é que muitas cidades supõem que morar perto de um espaço público significa usá-lo, e que essa suposição leva a conclusões pouco confiáveis. Pesquisas de opinião e observadores pagos em campo, os métodos tradicionais, raramente mostram o quadro completo ou custam caro demais.
O que a pesquisa mostrou
A equipe fez duas perguntas: a frequência de visitas a parques mudou durante a pandemia? E essa mudança foi diferente conforme a composição racial e econômica do bairro? Para responder, usou dados de localização de celulares, agregados e vendidos por uma empresa, e os cruzou com dados demográficos (raça e etnia, renda domiciliar) da população que mora a até dez minutos a pé, ou meia milha, de cada parque. O estudo cobriu quase 12 mil parques nas 50 cidades mais populosas dos Estados Unidos, que somam cerca de 10% da população do país, e superou, segundo os autores, a abrangência geográfica dos estudos de uso de parques que eles conheciam.
Os resultados principais:
- durante o fechamento (março e abril de 2020), as visitas caíram 43,3% em relação ao período anterior à pandemia;
- na reabertura inicial (maio a novembro de 2020), seguiam 26,1% abaixo;
- nas áreas com mais moradores brancos e de renda mais alta, a reabertura gerou uma recuperação 8,6% maior.
Os autores concluem que a pesquisa reforça evidências de que privilégios econômicos ligados à raça influenciam o acesso a parques. Também sugerem que a proximidade nem sempre é a principal barreira: falta de tempo livre, de programação adequada, de caminhos seguros e de apoio social podem pesar mais. Esses obstáculos provavelmente cresceram na pandemia, porque trabalhadores de menor renda foram mais cobrados a comparecer ao trabalho e a violência comunitária aumentou em bairros segregados. O resumo indica que o método poderia ser usado também para estudar visitas a unidades de saúde e bibliotecas, uso de transporte público e escolha de locais para habitação popular e escolas.
Como aplicar no Brasil
- Comece com a pergunta, não com a tecnologia. Quem usa a praça, a biblioteca ou a quadra? Quem não usa e por quê? Defina o que se decidirá com a resposta.
- Use dados que a prefeitura já tem. Registros de agendamento de quadras, empréstimos de biblioteca, frequência em oficinas e atendimentos, comparados com dados territoriais do IBGE e do cadastro municipal, já mostram padrões por bairro sem comprar dados de celular.
- Cruze com o território. Mapeie os equipamentos e as áreas de abrangência (por exemplo, dez minutos a pé) e compare a renda e o perfil dos moradores.
- Complemente com escuta. Pergunte a moradores de bairros com menor uso sobre horário, segurança, transporte e programação.
- Se considerar dados de localização de terceiros, proteja os cidadãos. A LGPD (Lei 13.709/2018) exige finalidade legítima, adequação e necessidade (art. 6º). O art. 12 diz que dados anonimizados não são pessoais, salvo se a anonimização puder ser revertida com esforços razoáveis, e o art. 23 exige que o poder público trate dados pessoais para sua finalidade pública e informe de forma clara essa atividade.
- Transforme o achado em ação: transporte para eventos, mudança de horário, iluminação, programação para quem trabalha, e reavalie em seis meses.
Cuidados e limites
O resumo da iniciativa descreve um estudo observacional nos Estados Unidos, com dados de uma empresa privada que, segundo o texto, deixou de fornecê-los (outros fornecedores cobram). Ele mostra associações, e não prova as causas das diferenças. Dados de localização identificam hábitos e deslocamentos, e seu uso por governos exige base legal, minimização, anonimização e avaliação de riscos com o encarregado de dados e a procuradoria. Categorias de raça e etnia seguem outros critérios no Brasil, e é preciso cuidado com estereótipos e com a divulgação de mapas que estigmatizem bairros. Municípios pequenos podem obter resultados úteis com métodos simples. Este texto é uma leitura própria da Evoluta, feita por profissionais com formação pela Harvard Kennedy School, sem vínculo da empresa com a HKS.



