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Dados de celular para saber quem usa os parques: estudo em 50 cidades

Em resumo

Parque aberto a todos não significa parque usado por todos. Um estudo apoiado pela Bloomberg Harvard City Leadership Initiative analisou dados de localização de celulares em quase 12 mil parques de 50 cidades americanas e mostrou que a retomada de visitas foi desigual entre bairros. O método ajuda a achar barreiras que pesquisas de opinião não revelam.

Abrir uma praça, um parque ou uma biblioteca não garante que todos os moradores a usem do mesmo jeito. Quem tem tempo livre, ruas seguras e atividades que lhe interessam vai mais; quem não tem, fica de fora. Mas como a prefeitura sabe quem está ficando para trás? A Bloomberg Harvard City Leadership Initiative, iniciativa que reúne a Harvard Kennedy School (HKS), a Harvard Business School e a Bloomberg Philanthropies, publicou em abril de 2024 um resumo de pesquisa, o Hidden Barriers to Open Venues, que mostra como dados de mobilidade podem ajudar a responder.

A ideia em resumo

O texto, assinado por Yamile Nesrala, Jonathan Jay e Jorrit de Jong, resume uma pesquisa acadêmica revisada por pares sobre o uso de parques urbanos durante a pandemia de covid-19. A premissa é que muitas cidades supõem que morar perto de um espaço público significa usá-lo, e que essa suposição leva a conclusões pouco confiáveis. Pesquisas de opinião e observadores pagos em campo, os métodos tradicionais, raramente mostram o quadro completo ou custam caro demais.

O que a pesquisa mostrou

A equipe fez duas perguntas: a frequência de visitas a parques mudou durante a pandemia? E essa mudança foi diferente conforme a composição racial e econômica do bairro? Para responder, usou dados de localização de celulares, agregados e vendidos por uma empresa, e os cruzou com dados demográficos (raça e etnia, renda domiciliar) da população que mora a até dez minutos a pé, ou meia milha, de cada parque. O estudo cobriu quase 12 mil parques nas 50 cidades mais populosas dos Estados Unidos, que somam cerca de 10% da população do país, e superou, segundo os autores, a abrangência geográfica dos estudos de uso de parques que eles conheciam.

Os resultados principais:

  • durante o fechamento (março e abril de 2020), as visitas caíram 43,3% em relação ao período anterior à pandemia;
  • na reabertura inicial (maio a novembro de 2020), seguiam 26,1% abaixo;
  • nas áreas com mais moradores brancos e de renda mais alta, a reabertura gerou uma recuperação 8,6% maior.

Os autores concluem que a pesquisa reforça evidências de que privilégios econômicos ligados à raça influenciam o acesso a parques. Também sugerem que a proximidade nem sempre é a principal barreira: falta de tempo livre, de programação adequada, de caminhos seguros e de apoio social podem pesar mais. Esses obstáculos provavelmente cresceram na pandemia, porque trabalhadores de menor renda foram mais cobrados a comparecer ao trabalho e a violência comunitária aumentou em bairros segregados. O resumo indica que o método poderia ser usado também para estudar visitas a unidades de saúde e bibliotecas, uso de transporte público e escolha de locais para habitação popular e escolas.

Como aplicar no Brasil

  • Comece com a pergunta, não com a tecnologia. Quem usa a praça, a biblioteca ou a quadra? Quem não usa e por quê? Defina o que se decidirá com a resposta.
  • Use dados que a prefeitura já tem. Registros de agendamento de quadras, empréstimos de biblioteca, frequência em oficinas e atendimentos, comparados com dados territoriais do IBGE e do cadastro municipal, já mostram padrões por bairro sem comprar dados de celular.
  • Cruze com o território. Mapeie os equipamentos e as áreas de abrangência (por exemplo, dez minutos a pé) e compare a renda e o perfil dos moradores.
  • Complemente com escuta. Pergunte a moradores de bairros com menor uso sobre horário, segurança, transporte e programação.
  • Se considerar dados de localização de terceiros, proteja os cidadãos. A LGPD (Lei 13.709/2018) exige finalidade legítima, adequação e necessidade (art. 6º). O art. 12 diz que dados anonimizados não são pessoais, salvo se a anonimização puder ser revertida com esforços razoáveis, e o art. 23 exige que o poder público trate dados pessoais para sua finalidade pública e informe de forma clara essa atividade.
  • Transforme o achado em ação: transporte para eventos, mudança de horário, iluminação, programação para quem trabalha, e reavalie em seis meses.

Cuidados e limites

O resumo da iniciativa descreve um estudo observacional nos Estados Unidos, com dados de uma empresa privada que, segundo o texto, deixou de fornecê-los (outros fornecedores cobram). Ele mostra associações, e não prova as causas das diferenças. Dados de localização identificam hábitos e deslocamentos, e seu uso por governos exige base legal, minimização, anonimização e avaliação de riscos com o encarregado de dados e a procuradoria. Categorias de raça e etnia seguem outros critérios no Brasil, e é preciso cuidado com estereótipos e com a divulgação de mapas que estigmatizem bairros. Municípios pequenos podem obter resultados úteis com métodos simples. Este texto é uma leitura própria da Evoluta, feita por profissionais com formação pela Harvard Kennedy School, sem vínculo da empresa com a HKS.

Conteúdo independente da Evoluta, inspirado em publicações da Harvard Kennedy School of Government, a escola de governo da Universidade Harvard que inspira a Escola de Governo da Evoluta. Publicação original indicada nas fontes; a Evoluta não tem vínculo institucional com a Universidade Harvard.

Fontes

  1. Hidden Barriers to Open Venues: What Big Data Can Tell You about Access to Public Spaces — Bloomberg Harvard City Leadership Initiative (Action Insights), 03/04/2024
  2. Hidden Barriers to Open Venues (PDF) — Bloomberg Harvard City Leadership Initiative, 03/04/2024
  3. Hidden Barriers to Open Venues (página de publicação) — Harvard Kennedy School, 03/04/2024
  4. Lei nº 13.709/2018 (LGPD, arts. 6º, 12 e 23) — Planalto, 14/08/2018
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