Cortar gastos, reduzir prazos, “enxugar a máquina”: a palavra eficiência costuma ser usada em sentido estreito, o de gastar menos. Um ensaio de setembro de 2026, de pesquisadores ligados à Harvard Kennedy School (HKS), propõe um conceito mais amplo e defende que a deliberação pública é parte dele, não um luxo.
A ideia em resumo
O texto Reframing Efficiency: How Public Deliberation Strengthens Public Health Policy, de Michelle Bosché, Roger Bernier, Preetam Cholli, Jonathan Alexander, Archon Fung e Aditya Pawar, saiu no American Journal of Public Health (v. 116, n. 9, setembro de 2026). Fung dirige o Ash Center for Democratic Governance and Innovation, da HKS. O ensaio responde a esforços federais americanos de cortar ineficiência que atingiram a infraestrutura de saúde pública, e pergunta como usar bem os recursos sem enfraquecer o sistema.
O que a pesquisa mostrou
Não é um estudo empírico, e sim um ensaio, apoiado em referenciais éticos e em três casos: o planejamento da pandemia de influenza nos Estados Unidos, a pesquisa com biobanco na Austrália e a política sobre aborto na Irlanda. Os autores definem eficiência como maximizar o impacto benéfico de uma política sobre a população em relação aos recursos gastos e distinguem cinco dimensões:
- Fiscal: atingir os resultados ao menor custo monetário;
- Epistêmica: como gestores reúnem, processam e usam evidências para formar as hipóteses de uma política;
- Política: os recursos políticos necessários para aprovar a medida (tempo de negociação, capital político);
- De implementação: a rapidez e a facilidade com que os públicos-alvo adotam a política;
- Cívica: quanto a governança fortalece a capacidade das pessoas de agir, a confiança, a participação e a cooperação duradoura.
O argumento é que uma deliberação pública bem desenhada pode melhorar a qualidade e o ajuste da política ao contexto, reconstruir bases factuais comuns em ambientes polarizados e aumentar a confiança e a adesão aos resultados. Os autores discutem dificuldades de escala e de fazer as instituições acolherem os resultados, e mencionam abordagens novas que podem viabilizar participação representativa em larga escala. Concluem que a deliberação deve ser parte estrutural da formulação de políticas, e não um complemento ocasional.
Uma peça complementar da HKS, Many Show Up, Few Return (Liz McKenna, agosto de 2026), analisou 91.648 comparecimentos a atividades de 20 organizações cívicas americanas e mostrou que 71% dos participantes agiram uma única vez e não voltaram. A retenção aumentava quando os eventos de entrada contavam com muitos membros já estabelecidos, e o fator organizacional mais associado ao retorno era a proporção de membros inseridos em equipes. O estudo não é sobre governo, mas lembra que participação precisa de estrutura para durar.
Como aplicar no Brasil
Conselhos, conferências, audiências públicas, orçamento participativo e consultas sobre o plano diretor fazem parte da tradição brasileira. A pergunta é como torná-los mais úteis. Um roteiro adaptado pela Evoluta:
- Diga qual decisão está em jogo. Participação sem objeto vira desabafo. Explique o que pode e o que não pode mudar.
- Informe antes de ouvir. Distribua um resumo de uma página, com os dados e as alternativas, antes da reunião.
- Convide com intenção. Além de quem sempre vem, procure moradores de bairros distantes, jovens, pessoas com deficiência e quem usa o serviço em discussão. Considere horário, transporte e cuidado com crianças.
- Estruture a conversa. Grupos pequenos, facilitação neutra e registro das razões, não só dos votos, ajudam a construir uma base comum.
- Devolva a resposta. Publique o que foi decidido, o que foi acolhido e o que não foi, com o motivo.
- Dê continuidade. Forme grupos de acompanhamento para que quem participou volte a se envolver na execução e na avaliação.
Cuidados e limites
O ensaio é teórico e ilustrado com três casos de áreas distintas, e nenhum deles é brasileiro. Deliberação não substitui a decisão de quem tem mandato nem as regras legais do processo orçamentário e legislativo; também não resolve conflitos de interesse. Se mal conduzida, pode ser capturada por grupos organizados. Defina com a procuradoria e a câmara o valor jurídico de cada instância participativa. Este texto é uma leitura própria da Evoluta, sem vínculo da empresa com a HKS.
Para ampliar canais de escuta, veja o sistema de ouvidoria, e-SIC e atendimento ao cidadão, o curso ouvidoria e Lei de Acesso à Informação e o serviço de planejamento governamental.



