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Design thinking no governo: como redesenhar serviços públicos

Em resumo

Design thinking e design centrado no ser humano propõem começar o serviço público pela experiência de quem o usa: observar, testar protótipos baratos e corrigir antes de investir. A abordagem ajuda a reduzir o chamado 'imposto de tempo' que formulários, portais e filas impõem ao cidadão.

O design thinking no governo parte de uma ideia simples: antes de redesenhar um serviço público, é preciso entender, com observação direta, como ele é vivido por quem precisa dele. Em vez de começar pela norma ou pelo sistema, começa-se pela pessoa que enfrenta o balcão, o formulário ou o portal, e isso muda o tipo de pergunta que a equipe faz: em lugar de “o que a lei exige?”, “o que essa pessoa precisa conseguir fazer?”. A abordagem, difundida por escolas como a d.school da Universidade de Stanford e adotada por organizações como a Nesta e o Observatório de Inovação no Setor Público da OCDE (OPSI), tem ganhado espaço na administração pública por um motivo prático: ela reduz o risco de gastar meses construindo algo que o cidadão não consegue usar.

O que a abordagem propõe

O programa executivo de design thinking da d.school descreve um trabalho em torno de empatia com o usuário, solução de problemas complexos, prototipagem e desenho de soluções além do convencional. Os participantes aplicam ferramentas de design centrado no ser humano a projetos reais da própria organização, entre eles melhoria de processos e da experiência do cliente, com acompanhamento individual de instrutores. A prototipagem é parte central: transformar uma ideia em algo que se possa testar em pouco tempo, para aprender cedo e a baixo custo.

Fora das universidades, o OPSI mantém um compêndio de toolkits para inovação e transformação do setor público e uma biblioteca com centenas de estudos de caso de vários países e níveis de governo. A Nesta, por sua vez, informa já ter trabalhado com 40 governos e disponibiliza ferramentas gratuitas para servidores. Quem quiser aprender, portanto, tem material aberto à disposição.

Por que isso importa: o imposto de tempo

Um relatório do IBM Center for The Business of Government, publicado sobre design centrado no ser humano como infraestrutura da entrega de serviços, descreve o problema com a expressão time tax (imposto de tempo): formulários, portais e verificações de elegibilidade exigem tempo para entender o programa, esforço para cumprir exigências e estresse com processos opacos, e esse custo pesa mais sobre quem tem menos margem para absorvê-lo. No Brasil, o conceito conversa com um princípio da Lei 14.129/2021 (Lei do Governo Digital): o art. 3º, inciso X, fala em simplificar os procedimentos de solicitação, oferta e acompanhamento dos serviços, com foco no autosserviço, e o inciso XI manda eliminar formalidades e exigências cujo custo econômico ou social seja superior ao risco envolvido. Atenção: essa lei vale diretamente para a União; estados e municípios só ficam obrigados a seus comandos se os adotarem por ato normativo próprio (art. 2º, III). No município, ela serve de referência e pode ser adotada por lei ou decreto local.

Limites que o gestor deve conhecer

Design thinking não é garantia de resultado. Os materiais que consultamos descrevem o método e seus usos, mas não apresentam avaliação independente de impacto em prefeituras, e vale desconfiar de oficinas que produzem post-its e nenhuma mudança no serviço. O risco mais comum é a superficialidade: fazer a oficina e voltar ao processo antigo. A diferença está em prototipar de verdade, testar com usuários e levar o resultado para a norma e para o sistema.

Como aplicar no seu município

Escolha um serviço de alto volume e alta reclamação, como alvará, matrícula escolar, agendamento de saúde, segunda via de tributos ou protocolo de requerimentos. Depois:

  1. Observe. Acompanhe o serviço do ponto de vista do cidadão: sente-se no atendimento, tente abrir o processo no portal pelo celular, ouça quem atende no balcão e quem já desistiu.
  2. Mapeie a jornada. Liste cada passo, cada documento pedido, cada deslocamento e cada espera. Marque os pontos de abandono e de retrabalho.
  3. Defina o problema em uma frase, em termos do cidadão: “pessoas não conseguem saber quais documentos levar” é melhor do que “falta padronização”.
  4. Prototipe barato. Uma folha de orientação refeita, um fluxo de atendimento ensaiado, um formulário em papel com metade dos campos. Teste com poucas pessoas reais.
  5. Corrija e repita antes de mudar sistema, lei ou contrato. Só institucionalize o que funcionou.
  6. Documente no catálogo de serviços do município: o que se pede, em quanto tempo, com que documentos.

Envolva quem atende. O servidor de linha de frente conhece os gargalos melhor do que qualquer consultor e é quem sustentará a mudança depois.

Fontes

  1. Design Thinking Bootcamp (programa executivo) — Stanford d.school
  2. The Prerequisite: Human-Centered Design as Infrastructure for Government Service Delivery — IBM Center for The Business of Government
  3. About OPSI (Observatory of Public Sector Innovation) — OECD OPSI
  4. Tools and insights for governments — Nesta
  5. Lei nº 14.129, de 29 de março de 2021 (Lei do Governo Digital), art. 3º — Planalto, 29/03/2021
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