Equipes públicas lidam com problemas difíceis, que exigem confiança para admitir erros, pedir ajuda e testar ideias. Será que gestos pequenos e deliberados de gentileza entre colegas ajudam a criar esse ambiente? Matt Andrews, senior lecturer da Harvard Kennedy School (HKS) conhecido pela abordagem PDIA (adaptação iterativa orientada a problemas), e Salimah Samji publicaram em julho de 2026 o working paper “Kindness as a Relational Capability in Collaborative Work”. A análise a seguir se baseia no resumo da publicação, porque o texto completo não pôde ser aberto.
A ideia em resumo
Os autores propõem enxergar a gentileza como uma capacidade relacional da equipe, e não só como virtude individual. Ou seja: um modo de se relacionar que ajuda times a colaborar, aprender e resolver problemas. Para testar a ideia, fizeram um experimento de campo dentro de um programa de aprendizagem de três meses, no qual 18 pessoas trabalharam em equipes sobre problemas públicos reais.
O que a pesquisa mostrou
Cada participante recebeu um colega e praticou atos intencionais de gentileza com ele. Depois, todos refletiram sobre os atos que deram e receberam. Segundo o resumo, os achados sugerem que:
- atos relativamente pequenos produziram efeitos relacionais substanciais;
- os participantes relataram mais reconhecimento, apoio, incentivo e sensação de pertencimento;
- os efeitos mais fortes vieram de gestos que mostravam atenção, memória e compreensão do outro, ou seja, os que mostravam que alguém tinha prestado atenção de verdade;
- a repetição dos atos contribuiu para segurança psicológica e para normas de apoio mútuo.
Os autores sugerem que pequenos atos podem influenciar as normas do time e a capacidade de colaborar, e não apenas o bem-estar de cada pessoa. O resumo não informa quais atos foram feitos, como os efeitos foram medidos nem se houve comparação com um grupo que não fez a prática. Por isso, os resultados devem ser lidos como relatos de participantes em um estudo exploratório.
Como aplicar no Brasil
As sugestões abaixo são adaptação da Evoluta, não do estudo. A prática é de baixo custo e não depende de lei. Pode ser testada em equipes de prefeitura, câmara ou autarquia, especialmente aquelas que passam por reorganização, projetos novos ou rotinas de muita pressão.
- Escolha uma equipe e um período curto, como quatro a seis semanas, e explique o propósito: fortalecer a colaboração, não “ser simpático”. A participação deve ser voluntária.
- Forme duplas (sorteadas ou escolhidas pelo grupo) e peça um gesto intencional por semana: lembrar de algo que o colega disse, oferecer ajuda numa tarefa que ele mencionou, reconhecer um trabalho que passou despercebido, avisar de uma informação útil.
- Priorize gestos de atenção. O estudo indica que o que pesa mais é mostrar que se prestou atenção ao outro. Elogios genéricos, que o estudo não testou, podem pesar menos.
- Reserve dez minutos de reflexão ao fim da semana, em dupla ou em roda: o que dei, o que recebi, o que mudou na forma de trabalhar.
- Ligue a prática a um problema real do time, como um fluxo de atendimento ou um prazo de prestação de contas, para que a confiança ajude a trabalhar melhor, não só a conviver melhor.
- Observe resultados simples: clima, participação em reuniões, rapidez na troca de informação, e uma pergunta curta sobre se as pessoas se sentem à vontade para dizer que não sabem algo.
- O gestor entra no exercício, sem usá-lo para avaliar pessoas. A gentileza é combinada, voluntária e fora de qualquer nota de desempenho.
Cuidados e limites
É um estudo pequeno (18 pessoas), dentro de um programa de aprendizagem que já reúne gente motivada, e as informações públicas são só o resumo. Gentileza não substitui condições dignas, carga de trabalho razoável, gestão justa e canais de denúncia de assédio; usada como substituto desses itens, vira cosmética. Atos que parecem artificiais ou obrigatórios podem ter efeito contrário, e o ambiente precisa permitir que alguém diga “hoje não quero participar”. Em caso de conflito grave ou assédio, a resposta é apuração, não dinâmica de grupo. Este texto é uma leitura própria da Evoluta, feita por profissionais com formação pela Harvard Kennedy School, sem vínculo da empresa com a HKS.



