A matriz de Ansoff responde a uma pergunta simples: por onde crescer? Criada para empresas, ela cruza produtos e mercados e mostra quatro caminhos com riscos diferentes. Adaptada ao setor público, serve para decidir como ampliar, reorganizar ou renovar serviços sem apostar tudo no escuro. Veja a origem, os cuidados e um roteiro de uso na prefeitura.
O que é a matriz de Ansoff
O modelo é atribuído ao matemático e administrador Igor Ansoff, que o apresentou no artigo "Strategies for Diversification", publicado na Harvard Business Review em 1957. Ele cruza produtos (atuais ou novos) com mercados (atuais ou novos) e resulta em quatro estratégias:
- Penetração de mercado: produto atual, mercado atual. Crescer onde já se atua. É o caminho de menor risco.
- Desenvolvimento de mercado: produto atual, mercado novo. Levar o que já existe a novos públicos ou regiões.
- Desenvolvimento de produto: produto novo, mercado atual. Criar ofertas novas para quem já é atendido.
- Diversificação: produto novo, mercado novo. É o caminho mais arriscado, porque exige as duas mudanças.
As limitações são conhecidas. Usada sozinha, a matriz ignora a reação de concorrentes, e a fronteira entre produto novo e mercado novo nem sempre é nítida. Esta matéria não tem vínculo com a Harvard Business Review; a menção serve só para informar a origem.
Por que ajuda no setor público
A prefeitura raramente pensa em "crescimento", mas decide todos os dias se vai ampliar um programa, estendê-lo a outro bairro, atender outro grupo ou criar um serviço novo. A matriz dá nome e ordem a essas escolhas e lembra o risco de cada uma. Ampliar um serviço que já funciona costuma ser mais seguro do que lançar algo completamente novo para um público que a equipe não conhece.
No setor público, os termos mudam. Produto é o serviço ou programa. Mercado é o público atendido, incluindo território, faixa etária e perfil. Em lugar de lucro, o ganho é a cobertura e a qualidade do atendimento. A ressalva: ampliar cobertura exige orçamento, pessoal e respaldo legal. A matriz organiza a conversa, e o estudo de impacto orçamentário e as análises jurídicas continuam necessários.
Como aplicar na prefeitura, passo a passo
- Escolha o serviço de partida. Algo que já funciona e que a gestão quer fazer crescer.
- Descreva o público atual. Quem é atendido hoje, onde mora, que necessidade tem.
- Descreva quem fica de fora. Grupos, bairros ou comunidades que poderiam usar e não usam.
- Preencha os quatro caminhos. Penetração: como atender mais do público atual? Desenvolvimento de público: como levar o serviço a quem hoje fica de fora? Desenvolvimento de serviço: que novo serviço o público atual precisa? Diversificação: que novo serviço para um novo público?
- Estime esforço e risco. Pense em orçamento, pessoal, regras legais e curva de aprendizado.
- Escolha a ordem. Na maioria dos casos, começar pelos caminhos de menor risco e ampliar depois dá mais segurança.
- Monitore. Defina um indicador de cobertura e outro de qualidade.
Modelo para preencher
Adapte à legislação e à realidade do seu órgão.
| Caminho | Ideia concreta | Esforço (baixo, médio, alto) | Risco | Condição legal e orçamentária |
|---|---|---|---|---|
| Atender mais do público atual | ||||
| Levar o serviço a novos públicos | ||||
| Criar serviço novo para o público atual | ||||
| Criar serviço novo para novo público |
Exemplo prático
Exemplo hipotético, para ilustrar. Uma prefeitura tem um serviço de orientação para microempreendedores que funciona na sede e é bem avaliado.
- Atender mais do público atual: divulgar o serviço para empreendedores já cadastrados que ainda não o procuraram. Esforço baixo.
- Novo público: levar a orientação aos distritos mais distantes, com agenda mensal. Esforço médio.
- Serviço novo para o público atual: oferecer um curso curto de gestão financeira para quem já é atendido. Esforço médio.
- Serviço novo para novo público: criar uma incubadora para jovens que ainda não têm negócio. Esforço alto e risco maior.
A equipe decide começar pela divulgação e pelo atendimento itinerante, avalia os resultados em seis meses e só então discute o curso e a incubadora.
Erros comuns
- Começar pela ideia mais ambiciosa. Os caminhos de menor risco ensinam e preparam os maiores.
- Ignorar a capacidade. Mais público exige mais equipe, espaço e orçamento.
- Esquecer a base legal. Ampliar o público de um programa pode exigir alteração de norma.
- Não medir. Sem indicador, não se sabe se o novo caminho funcionou.
- Confundir crescimento com qualidade. Atender mais pessoas mal não é avanço.
Quando usar e quando não usar
A matriz funciona bem quando a gestão já tem um serviço consolidado e discute como ampliá-lo. Ela é menos útil quando o problema é a qualidade do serviço atual: nesse caso, o primeiro passo é corrigir o que existe. Lembre também que ampliar o público atendido muda a demanda sobre filas, equipes e orçamento, e que esses efeitos precisam ser estimados antes da decisão, e não depois.
Perguntas frequentes
A matriz de Ansoff serve para câmaras?
Serve. A câmara pode ampliar canais de participação, levar sessões a novos públicos ou criar produtos de comunicação novos.
Diversificar é sempre ruim?
Não. É mais arriscado, e por isso pede piloto, avaliação e apoio técnico.
Como definir mercado no setor público?
Como o grupo de pessoas que o serviço atende ou deveria atender, por território, perfil ou necessidade.
Preciso de consultoria?
Não necessariamente. Para decisões que mexem com orçamento, pessoal e regras, vale apoio especializado.



