Quase toda prefeitura tem uma frase de missão, visão e valores em algum lugar. Poucas servem para decidir algo. A diferença está em escrever de forma honesta, concreta e ligada à rotina. Este guia apresenta a origem de um dos modelos mais citados sobre o tema, explica as diferenças entre os conceitos e traz um roteiro de construção com a equipe.
O que são missão, visão e valores
Uma referência clássica é o artigo "Building Your Company’s Vision", de Jim Collins e Jerry Porras, publicado na Harvard Business Review na edição de setembro-outubro de 1996. O texto defende que organizações duradouras equilibram a preservação de seu núcleo com o estímulo ao progresso. Os autores dividem a visão em duas partes:
- Ideologia central: a identidade duradoura, formada por valores essenciais e propósito.
- Futuro desejado: o que a organização aspira se tornar, com uma meta ousada de longo prazo e uma descrição vívida de como seria alcançá-la.
Na prática de gestão, os termos são usados de forma mais simples: a missão diz por que o órgão existe e o que entrega, a visão descreve o futuro desejado e os valores mostram os princípios que orientam o comportamento. Esta matéria não tem vínculo com a HBR nem com os autores.
Por que importam no setor público
O órgão público já tem missões definidas em lei: a prefeitura existe para atender às competências do município, e a câmara para legislar e fiscalizar. A missão institucional, portanto, não se inventa. O que se escreve é a forma como o órgão entende essas competências e quer exercê-las. Valores como legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência aparecem na Constituição e servem de base. Os valores do órgão devem ir além do texto constitucional e dizer o que será praticado no cotidiano.
Uma boa declaração tem usos concretos: orienta prioridades quando o dinheiro é escasso, ajuda na seleção e formação de equipes, inspira a comunicação com a população e dá um parâmetro para avaliar decisões. Ressalva: declaração bonita sem prática gera descrença. Se o valor escrito é "transparência", mas os dados não são publicados, a equipe percebe a contradição.
Como construir na prefeitura, passo a passo
- Parta do que a lei e o plano já dizem. Reúna competências do município, plano de governo e plano plurianual.
- Escute a equipe e o cidadão. Pergunte por que o órgão existe, o que o cidadão espera e do que a equipe se orgulha.
- Escreva a missão em uma frase. Deve dizer o que entregamos, para quem e com que efeito. Evite jargão.
- Escolha poucos valores. De três a cinco. Para cada valor, descreva dois comportamentos observáveis.
- Escreva a visão para um horizonte definido. Descreva como o município estará ao final do período, com um objetivo ambicioso e verificável.
- Teste com decisões reais. Pegue três decisões recentes e pergunte: a missão e os valores teriam orientado de outra forma?
- Divulgue com exemplos. Mostre como os valores aparecem nas rotinas, nos treinamentos e na avaliação. Revise a cada ciclo.
Modelo para preencher
Adapte à legislação e à realidade do seu órgão.
| Elemento | Pergunta-guia | Texto proposto | Como vamos praticar ou medir |
|---|---|---|---|
| Missão | Por que existimos e o que entregamos? | ||
| Visão | Como queremos estar ao final do ciclo? | ||
| Valor 1 | Que princípio e que comportamento? | ||
| Valor 2 | Que princípio e que comportamento? | ||
| Valor 3 | Que princípio e que comportamento? |
Exemplo prático
Exemplo hipotético, para ilustrar. Uma câmara municipal revisa sua declaração institucional.
- Missão (rascunho): "Legislar e fiscalizar com clareza, para que o cidadão entenda e acompanhe o que a Casa decide."
- Visão (rascunho): uma Casa reconhecida pela transparência e pela proximidade com a população ao final do período.
- Valor: transparência. Comportamento: publicar pautas e votações em linguagem simples antes das sessões.
- Valor: responsabilidade. Comportamento: justificar por escrito os pareceres e decisões da Mesa.
Ao testar com decisões recentes, a equipe nota que a divulgação das pautas ainda é feita de forma técnica e tardia, e inclui uma melhoria no plano de trabalho da Casa.
Erros comuns
- Frases genéricas. "Ser excelência em gestão" serve a qualquer órgão e orienta nenhum.
- Valores demais. Dez valores não se lembram nem se praticam.
- Escrever só no gabinete. A equipe que não participou não adota.
- Valores sem comportamento. Sem exemplo observável, não há como cobrar ou reconhecer.
- Não revisar. Troca de gestão e mudança de contexto pedem releitura. Atenção, porém, para não transformar a declaração em peça de promoção pessoal ou partidária.
Quando usar e quando não usar
Revisar missão, visão e valores faz sentido no início de um ciclo de governo, em uma reorganização ou quando a equipe percebe que as decisões do dia a dia não seguem o que está escrito. Se a prioridade é resolver um problema operacional urgente, deixe a revisão para depois. Para uma declaração viver, ela precisa aparecer em prática: na seleção de equipes, nos treinamentos, nas reuniões de decisão e na forma de atender o cidadão.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre missão e visão?
A missão diz por que o órgão existe e o que faz. A visão descreve o futuro que se deseja alcançar.
Missão e visão são obrigatórias?
Não há norma geral que obrigue a escrevê-las. Ajudam, porém, na organização do planejamento e da comunicação.
Os valores podem ser os da Constituição?
Servem de base, mas o órgão deve dizer como pratica os princípios no dia a dia.
Serve para câmaras?
Serve. A câmara pode explicitar como entende suas funções e que princípios orientam sua atuação.



