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Evidência que vira decisão: como fechar a lacuna de adoção

Em resumo

Um working paper da Harvard Kennedy School propõe tratar o uso de evidência em políticas públicas como uma sequência de obstáculos comportamentais e organizacionais: a evidência precisa ser útil, utilizável e, enfim, usada. Para prefeituras, a lição é desenhar o caminho entre o estudo e a decisão.

Quase toda prefeitura tem acesso a estudos, relatórios de tribunais de contas, avaliações de programas e dados próprios. Poucas conseguem transformar isso em decisão. Um working paper de julho de 2026, da Harvard Kennedy School (HKS), dá nome ao problema: a lacuna entre produzir e usar evidência, em inglês production-adoption gap.

A ideia em resumo

O texto A Research Agenda for Making Evidence Useful, Usable, and Used (RWP26-003) é assinado por Max Spohn, Amira Boland, Jessica Lasky-Fink, Elizabeth Linos, Weston Merrick, Pedro Rey-Biel e Theodore Svoronos. Os autores observam que o investimento em políticas baseadas em evidências cresceu, mas ainda existe um vão entre a pesquisa relevante para políticas e o seu uso para influenciá-las.

A proposta é olhar a adoção da evidência como uma série de obstáculos comportamentais e organizacionais. Para que ela mude uma decisão, precisa passar por três portas: ser útil, ser utilizável e, por fim, ser usada. Com base em literatura de várias áreas, os autores montam um quadro único, apontam o que ainda não se sabe em cada etapa e sugerem uma agenda de pesquisa com duas perguntas: por que a lacuna persiste e o que funciona para aumentar a adoção.

O que a pesquisa mostrou

O resumo público não descreve os obstáculos de cada etapa, nem traz dados empíricos ou números; trata-se de um trabalho de síntese e de proposta de pesquisa. Ainda assim, o enquadramento é útil para a gestão, porque desloca a conversa: o problema deixa de ser “falta de estudo” e passa a ser “falta de caminho entre o estudo e a decisão”. O trabalho também ajuda a entender o foco do The People Lab, laboratório da HKS que estuda como fortalecer o setor público e que tem como um dos três eixos a reinvenção da formulação de políticas baseada em evidências. A página do Taubman Center lista o artigo entre seus destaques de pesquisa.

Como aplicar no Brasil

Usar evidência na prefeitura não exige um laboratório; exige uma rotina. A partir do enquadramento “útil, utilizável e usada”, a Evoluta sugere este caminho (adaptação nossa, não consta no paper):

  1. Comece pela decisão, não pelo estudo. Antes de procurar dados, liste as decisões que a gestão tomará nos próximos seis meses (reajuste de um serviço, localização de uma unidade, revisão de um programa) e que informação ajudaria cada uma.
  2. Garanta que a evidência seja útil. Ela responde à pergunta que o gestor tem? Se o estudo trata de outra realidade, ele precisa ser traduzido para a do município, com a ressalva do que muda.
  3. Torne a evidência utilizável. Um resumo de uma página, com a pergunta, a resposta, o grau de confiança e a recomendação, tende a ser lido; um relatório de 80 páginas, não.
  4. Cuide do uso. Defina quem decide, em que reunião, com que prazo. Registre a decisão e o motivo, inclusive quando a evidência é ignorada, por uma razão legítima ou política.
  5. Teste em pequena escala. Quando não há evidência local, rode um piloto simples (uma unidade, uma região, um mês) e compare com a situação anterior ou com um grupo parecido, mantendo a ética e a legalidade.
  6. Feche o ciclo. Depois da decisão, meça o efeito e leve o aprendizado ao próximo ciclo de planejamento (PPA, LDO e LOA).

Câmaras municipais também podem seguir o roteiro: comissões que pedem a nota técnica de uma página antes de votar um projeto tendem a decidir com mais clareza.

Um exemplo simples: a mensagem de cobrança

Imagine que a secretaria de finanças queira aumentar o pagamento do IPTU em dia. Em vez de decidir pelo palpite, ela lista a decisão (que texto usar na notificação), procura o que já se sabe sobre mensagens de cobrança, resume em uma página e testa duas versões em grupos parecidos de contribuintes, medindo o pagamento em 30 dias. O resultado alimenta a decisão do ano seguinte. É um exemplo da Evoluta para ilustrar as três etapas, sem relação direta com o paper; a legalidade de qualquer teste com contribuintes deve ser avaliada pela procuradoria.

Cuidados e limites

O paper é uma proposta de agenda, e não uma comprovação de que o enquadramento funciona. Fontes de evidência também têm limites: estudos de outro contexto podem não valer para o seu município, e dados administrativos com falhas produzem conclusões falhas. Evite transformar “baseada em evidências” em argumento de autoridade para encerrar o debate político, que continua sendo legítimo. Este texto é uma leitura própria da Evoluta, feita por profissionais com formação pela HKS, sem vínculo da empresa com a escola.

Conteúdo independente da Evoluta, inspirado em publicações da Harvard Kennedy School of Government, a escola de governo da Universidade Harvard que inspira a Escola de Governo da Evoluta. Publicação original indicada nas fontes; a Evoluta não tem vínculo institucional com a Universidade Harvard.

Fontes

  1. A Research Agenda for Making Evidence Useful, Usable, and Used (Spohn, Boland, Lasky-Fink, Linos, Merrick, Rey-Biel, Svoronos) — Harvard Kennedy School, Faculty Research Working Paper RWP26-003, 01/07/2026
  2. The People Lab — Harvard Kennedy School, 13/10/2026
  3. Taubman Center for State and Local Government — Harvard Kennedy School, 13/10/2026
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