Quando uma criança é afastada dos pais, o melhor lugar para ela, sempre que possível, costuma ser com parentes. Mas a decisão de colocá-la com avós, tios ou outros familiares é só o começo. É por isso que o apoio à família extensa ganhou espaço nas discussões sobre proteção à infância. O Government Performance Lab (GPL), da Harvard Kennedy School (HKS), publicou em 30 de junho de 2026 o guia Kin Caregiver Check-in Calls: A Strategy to Support Placement Stability, de Emma Cregg, Lynda Blancato, Megan Toohey e Nada Shalash.
A ideia em resumo
O GPL observa que órgãos de proteção colocam cada vez mais crianças com parentes, e não com estranhos, o que favorece estabilidade, vínculo familiar e identidade cultural. A página resume o problema numa frase: “placement is only the first step”, isto é, a colocação é só o primeiro passo. Os cuidadores familiares, como avós, tias e tios, muitas vezes assumem o papel com pouco aviso, recebem menos apoio que famílias acolhedoras tradicionais e precisam enfrentar uma grande mudança em casa e um sistema complexo.
A proposta é simples: ligações breves e estruturadas, feitas de forma proativa, para apoiar esses cuidadores e dar mais estabilidade ao acolhimento. Segundo a página, a prática funciona assim:
- Integrar as ligações ao acompanhamento de casos que já existe, e não criar um processo separado;
- Usar um roteiro de ligação para estruturar cada conversa;
- Registrar as ligações e fazer o acompanhamento numa planilha de controle.
O que a publicação mostra
O GPL trabalhou com líderes de Michigan e do condado de Los Angeles para desenvolver a abordagem e as ferramentas. O mapa do processo e o passo a passo completo estão no PDF do guia, que a página só menciona. A página não traz dados de ligações realizadas nem de rupturas evitadas: apresenta a prática como promissora, não como comprovada, e chama as ferramentas de ponto de partida que precisam ser adaptadas à prática local.
Como aplicar no Brasil
O Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8.069/1990) garante, no art. 19, o direito de a criança ser criada no seio de sua família e, excepcionalmente, em família substituta, com convivência familiar e comunitária. O parágrafo único do art. 25 define a família extensa ou ampliada como a que se estende para além de pais e filhos, formada por parentes próximos com os quais a criança convive e mantém vínculos de afinidade e afetividade. A ideia do GPL é uma ferramenta de rotina para essa realidade. Um caminho para a rede municipal:
- Combine com a equipe técnica e com o Judiciário quem fará as ligações: assistente social ou psicólogo do serviço de acompanhamento, sem criar função nova.
- Escreva um roteiro de uma página. Como está a criança? Como está a rotina da casa? O que a família precisa (alimentação, transporte, escola, saúde, benefícios)? Algum problema de relacionamento com a mãe ou o pai? Quem pode ajudar?
- Defina o ritmo. Por exemplo, ligações nas primeiras semanas, e depois em intervalos regulares, adequados ao caso. Procure ajustar à realidade da equipe.
- Registre cada contato e as providências em planilha ou no sistema de prontuário, com data, tema e responsável pelo encaminhamento.
- Conecte as respostas à rede. Se a família disser que falta algo, a ligação deve gerar encaminhamento ao CRAS, à UBS, à escola ou ao programa de transferência de renda, com retorno depois.
- Acompanhe poucos indicadores: proporção dos cuidadores contatados no prazo e número de pedidos de apoio atendidos.
Cuidados e limites
O material é do próprio laboratório e não traz avaliação de resultado; o contexto do sistema americano de proteção à infância difere do brasileiro, que envolve Judiciário, Ministério Público, conselhos tutelares e rede socioassistencial. Os dados de crianças e de famílias em acompanhamento são sigilosos e protegidos pelo ECA e pela LGPD; o roteiro e o registro devem ser aprovados pelo órgão gestor. A ligação não substitui visita, escuta qualificada nem decisão judicial. Este texto é uma leitura própria da Evoluta, feita por profissionais com formação pela Harvard Kennedy School, sem vínculo da empresa com a HKS.
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