A ideia de que o morador deveria encontrar perto de casa o que precisa no dia a dia, a pé ou de bicicleta, ganhou o nome de cidade de 15 minutos e entrou em planos diretores do mundo todo. Mas quase nunca se mede se as pessoas, de fato, usam o que está por perto. Em fevereiro de 2024, a revista Nature Human Behaviour publicou um estudo, listado no acervo da Harvard Kennedy School (HKS), de Timur Abbiasov, Cate Heine, Sadegh Sabouri, Arianna Salazar-Miranda, Paolo Santi, Edward Glaeser e Carlo Ratti, que propõe uma forma de medir esse uso.
A ideia em resumo
Até aqui, a maior parte das análises contava quantos comércios, escolas e serviços existem a até 15 minutos de caminhada de cada endereço. Isso mede oferta, e não comportamento. Os autores propõem um indicador diferente: o uso em 15 minutos, isto é, a parcela das viagens de consumo que o morador faz dentro dessa distância a partir de casa. Para calculá-lo, usaram dados de localização de celulares, sem identificar pessoas, e compararam bairros e cidades.
O que a pesquisa mostrou
O resumo publicado na página da HKS traz os principais achados, e é neles que este texto se apoia. A base reúne dados de cerca de 40 milhões de aparelhos nos Estados Unidos. O morador mediano faz apenas 14% de suas viagens de consumo diárias perto de casa, o que mostra que a vida de bairro, mesmo nas cidades que a promovem, é menos presente do que o discurso sugere.
O acesso a equipamentos explica boa parte das diferenças: 84% da variação do uso local entre áreas urbanas e 74% dentro delas. Os autores também analisaram o histórico de regras de zoneamento de Nova York e concluem que o acesso influencia o uso, e não apenas o contrário. Há, porém, um alerta: onde o uso local é maior, os moradores de baixa renda tendem a ter maior segregação vivida, isto é, convivem menos com pessoas de outros grupos de renda nas viagens do dia a dia. Os autores tratam isso como um desafio socioeconômico do modelo.
Como aplicar no Brasil
O estudo é americano, e a distância de 15 minutos a pé não vale igual em cidades de relevo, calor e calçadas muito diferentes. Mas a lógica de medir uso, e não só oferta, serve a qualquer prefeitura que revise o plano diretor ou os critérios de zoneamento, nos termos do Estatuto da Cidade (Lei 10.257/2001). Passos práticos:
- Mapeie a oferta por bairro. Use o cadastro de alvarás, a base do IPTU e as bases de saúde e educação para localizar mercados, farmácias, escolas, unidades de saúde e praças em cada região.
- Cruze com dados de uso que o município já tem. Dados de bilhetagem do transporte, de atendimento nas unidades de saúde e de matrícula escolar mostram de onde as pessoas vêm. Dados de celular de terceiros exigem cuidado com a Lei Geral de Proteção de Dados (Lei 13.709/2018): prefira bases agregadas e anonimizadas.
- Escolha poucos indicadores e um ponto de partida. Por exemplo, a parcela de moradores a até 15 minutos a pé de uma unidade básica de saúde, ou o número de bairros sem nenhum comércio de alimentos básicos. Registre a medição inicial para comparar daqui a dois anos.
- Revise regras que travam o comércio de bairro. Zoneamento que separa rigidamente uso residencial e comercial costuma ser o primeiro obstáculo. Teste, em um bairro-piloto, a flexibilização de usos de baixo impacto.
- Acompanhe quem fica de fora. Como o estudo apontou risco de segregação, observe se a melhora de acesso chega à periferia e se o aumento do comércio não expulsa moradores por valorização.
Cuidados e limites
O material lido é a página de resumo do artigo, e não o texto completo: os métodos e as limitações detalhadas ficam no periódico. Os números se referem a cidades dos Estados Unidos, com forte uso do carro, e não podem ser transpostos para o Brasil sem medição local. Dados de celular cobrem quem tem aparelho e aplicativos de localização, e isso pode deixar de fora justamente os mais pobres. Este texto é uma leitura própria da Evoluta, feita por profissionais com formação pela Harvard Kennedy School, sem vínculo da empresa com a HKS.
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