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Cidades e capacidade estatal: por que governos locais aprendem mais uns com os outros, segundo Glaeser

Em resumo

O economista Edward Glaeser argumenta que a densidade urbana e a capacidade do Estado se complementam. Governos urbanos têm restrições que empresas não têm, mas uma vantagem: não escondem segredos e podem aprender com outras cidades. O aprendizado entre cidades seria especialmente importante para a adaptação climática.

Prefeituras costumam acreditar que seus problemas são únicos. O economista Edward Glaeser, professor da Universidade Harvard, sustenta o contrário: as cidades fazem coisas muito parecidas pelo mundo e isso é uma oportunidade de aprendizado entre cidades. A tese aparece em dois textos divulgados pela Harvard Kennedy School (HKS): o texto de trabalho do NBER The Complementarity Between Cities and State Capacity, de dezembro de 2024, e a palestra publicada na Asian Development Review, ADB Distinguished Speaker Lecture: The Complementarity Between Cities and State Capacity, de fevereiro de 2025. Os dois trazem o mesmo resumo.

A ideia em resumo

O argumento central é que há complementaridade entre densidade urbana e capacidade pública. Nas cidades existem muitas externalidades, e a escala urbana permite compartilhar infraestruturas que precisam ser gerenciadas. Quanto mais gente vive junta, mais o poder público é necessário, e mais importante é que funcione bem.

O que a pesquisa mostrou

Segundo o resumo, o texto destaca contrastes entre governos urbanos e empresas.

  • Restrições maiores. Governos urbanos enfrentam limitações que empresas privadas não têm. Em frase do autor, “uma cidade não pode simplesmente deixar de fazer policiamento porque conclui que o faz mal” (tradução livre de “A city cannot just stop policing if it decides it is bad at policing.”). Além disso, a remuneração e a política de pessoal costumam ser fortemente reguladas por lei ou por contratos sindicais.
  • Uma vantagem grande. Governos municipais podem aprender mais com seus pares. Cidades do mundo inteiro fazem coisas semelhantes, enquanto as empresas tendem a se especializar.
  • Sem segredo comercial. Empresas têm incentivo para esconder o que as torna mais produtivas, e as cidades não.
  • Falta de incentivo. Mesmo assim, uma cidade individual não tem motivo para facilitar que outras aprendam com ela. Por isso, organismos multilaterais, como o Banco Asiático de Desenvolvimento e o Banco Mundial, poderiam viabilizar esse aprendizado.
  • Clima. Como crises climáticas são relativamente raras para cada cidade, o aprendizado entre cidades parece especialmente importante para a adaptação.

Para o gestor, a mensagem prática é que a busca por boas soluções não precisa começar do zero: o conhecimento já existe, espalhado em milhares de prefeituras, e o desafio é organizar a troca.

Como aplicar no Brasil

O resumo não discute o caso brasileiro. As sugestões abaixo são adaptações da Evoluta para tirar o argumento do plano teórico:

  1. Identifique cidades parecidas e que já resolveram o seu problema. Use dados públicos para achar municípios de porte, receita e perfil semelhantes com melhor resultado em um indicador específico (por exemplo, tempo de alvará, cobertura vacinal ou arrecadação própria).
  2. Visite, converse e peça os documentos. Como as cidades não têm segredo comercial, a maior parte do que funciona está em decretos, editais, fluxos e planilhas que podem ser compartilhados.
  3. Organize redes entre gestores. Consórcios intermunicipais, associações de municípios e escolas de governo são canais naturais para reunir secretários de áreas semelhantes e comparar práticas.
  4. Registre e devolva. Publique o que você aprendeu e o que mudou. Se cada cidade só recebe, o sistema não se sustenta; o texto de Glaeser aponta justamente a falta de incentivo para compartilhar.
  5. Priorize os riscos raros. Defesa civil, enchentes, estiagem e calor extremo são eventos que cada município vê poucas vezes. Busque planos e protocolos de municípios que já enfrentaram o problema.
  6. Respeite as restrições. Regras de pessoal, de contratação e de orçamento limitam o que se pode copiar. A Lei 14.133/2021, por exemplo, tem regras próprias para a fase de planejamento da contratação (art. 18); adapte o modelo ao seu quadro legal e ao regulamento do município.

Cuidados e limites

Esta matéria baseia-se apenas no resumo publicado nas duas páginas; os textos completos não foram lidos. Trata-se de um argumento conceitual de um economista, e o resumo não apresenta testes empíricos nem exemplos de cidades. “Aprender com os pares” não equivale a copiar: contextos institucionais, tamanho e capacidade fiscal mudam o que funciona. Também é preciso evitar o aprendizado superficial, que adota a forma sem entender a causa. Este texto é uma leitura própria da Evoluta, feita por profissionais com formação pela Harvard Kennedy School, sem vínculo da empresa com a HKS.

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Conteúdo independente da Evoluta, inspirado em publicações da Harvard Kennedy School of Government, a escola de governo da Universidade Harvard que inspira a Escola de Governo da Evoluta. Publicação original indicada nas fontes; a Evoluta não tem vínculo institucional com a Universidade Harvard.

Fontes

  1. ADB Distinguished Speaker Lecture: The Complementarity Between Cities and State Capacity — Harvard Kennedy School (Asian Development Review; Edward L. Glaeser), 11/02/2025
  2. The Complementarity Between Cities and State Capacity — Harvard Kennedy School (NBER Working Paper; Edward L. Glaeser), 01/12/2024
  3. Lei nº 14.133/2021 (art. 18) — Planalto, 01/04/2021
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