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O que moradores de quatro bairros de Boston dizem sobre comunidades que prosperam

Em resumo

Pesquisadores da Harvard Kennedy School ouviram, em grupos focais, jovens, pais, idosos e pessoas que já foram presas em quatro bairros de Boston. Para eles, comunidades prósperas dependem de coesão com eficácia coletiva e de liberdade de danos e violência, além de moradia, escola, saúde e espaços de qualidade.

Ao desenhar uma política de segurança ou de desenvolvimento de bairro, o gestor costuma partir de indicadores e de planos técnicos. O estudo This Is What Thriving Communities Look Like: Insights from Residents of Four Boston Neighborhoods, de Amisha Kambath, Noor Toraif e Sandra Susan Smith, da Harvard Kennedy School (HKS), propõe o caminho inverso: perguntar aos moradores o que, para eles, faz uma das comunidades que prosperam. O relatório, de agosto de 2024, foi produzido no âmbito do programa de justiça criminal da HKS.

A ideia em resumo

Depois do assassinato de George Floyd por policiais em Minneapolis, em 2020, cresceu nos Estados Unidos o debate sobre o papel da polícia e sobre o que as comunidades precisam para se sentir seguras e prosperar. Os pesquisadores levaram essas perguntas a quatro bairros de Boston com histórico difícil com a polícia, mas composições raciais e de classe diferentes (o resumo cita Roxbury e Dorchester, East Boston e South Boston). Em 2022, fizeram grupos focais separados por perfil: jovens e adultos jovens, pais de crianças dependentes, idosos e moradores que já foram presos.

O que a pesquisa mostrou

Segundo o resumo, os achados principais foram:

  • Dois elementos centrais. Para os participantes, comunidades saudáveis, seguras e prósperas exigem coesão comunitária com eficácia coletiva, isto é, vínculos entre vizinhos, expectativas compartilhadas e capacidade de resolver problemas em conjunto, e liberdade de danos e violência.
  • A violência corrói o tecido social. O medo gera desconfiança generalizada e leva as pessoas a se isolarem, o que enfraquece a capacidade de agir em conjunto.
  • Investimento em necessidades básicas. Para prosperar, os moradores citam moradia segura e acessível, educação de qualidade, segurança alimentar, acesso à saúde, oportunidades de ascensão social, programas para jovens, infraestrutura robusta e áreas verdes.
  • Visões distintas sobre a polícia. Alguns a veem como protetora; outros, como falha, mas recuperável com mais e melhor presença; outros, como fonte de violência que deveria ser substituída por atores mais eficazes e cuidadosos, em especial integrantes da própria comunidade.

O valor do trabalho está em lembrar que a visão do morador não é um enfeite do planejamento: ela revela prioridades que indicadores técnicos podem não capturar, como a confiança entre vizinhos e a sensação de segurança no cotidiano. Para quem governa, isso é informação estratégica.

Como aplicar no Brasil

O estudo é qualitativo e americano, mas a metodologia e as perguntas são aproveitáveis. Passos para uma prefeitura:

  1. Ouça por grupo, não só em audiência geral. Rodas separadas com jovens, mães e pais, idosos e pessoas egressas do sistema prisional permitem que cada grupo fale com mais franqueza do que em um auditório misto.
  2. Pergunte o que é prosperar, não só o que está errado. Perguntas sobre o que o bairro tem de bom e o que precisaria ter ajudam a construir uma visão compartilhada.
  3. Traduza em plano. Os temas ouvidos (moradia, escola, saúde, lazer, juventude, áreas verdes) viram metas no PPA e ações setoriais. A Constituição estabelece como objetivo fundamental reduzir desigualdades sociais e regionais (art. 3º, III) e prevê a cooperação das associações representativas no planejamento municipal (art. 29, XII).
  4. Fortaleça o que já une as pessoas. Associações de moradores, escolas, igrejas, grupos esportivos e culturais, conselhos e núcleos de juventude são a base da coesão que os moradores valorizam.
  5. Trate a segurança como política integrada. A Constituição define a segurança pública como dever do Estado, direito e responsabilidade de todos (art. 144). Isso abre espaço para ações municipais de prevenção, articuladas com as polícias estaduais e a guarda municipal, onde existir.
  6. Devolva o que ouviu. Uma devolutiva clara aos participantes constrói a confiança necessária para a próxima conversa.

Cuidados e limites

A matéria baseia-se no resumo do relatório, e o texto completo não foi lido. Grupos focais mostram percepções, não medem a frequência de cada opinião nem comprovam causa e efeito. O estudo cobre quatro bairros de uma cidade, e o contexto de violência, polícia e desigualdade do Brasil é diferente. Ouvir pessoas em situação de vulnerabilidade exige cuidado ético, consentimento e proteção contra retaliação, sobretudo quando se fala de violência e de polícia. Este texto é uma leitura própria da Evoluta, feita por profissionais com formação pela Harvard Kennedy School, sem vínculo da empresa com a HKS.

Para planejar políticas a partir da escuta, veja o curso de planejamento de políticas públicas, o serviço de planejamento governamental (plano de governo, PPA, LDO e LOA) e o de atendimento humanizado e experiência do usuário.

Conteúdo independente da Evoluta, inspirado em publicações da Harvard Kennedy School of Government, a escola de governo da Universidade Harvard que inspira a Escola de Governo da Evoluta. Publicação original indicada nas fontes; a Evoluta não tem vínculo institucional com a Universidade Harvard.

Fontes

  1. This Is What Thriving Communities Look Like: Insights from Residents of Four Boston Neighborhoods — Harvard Kennedy School (Roundtable on Racial Disparities in Massachusetts Criminal Courts, Program in Criminal Justice Policy and Management; Kambath, Toraif e Smith), 01/08/2024
  2. Constituição Federal, arts. 3º, III, 29, XII e 144 — Planalto, 05/10/1988
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