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Mutirão de limpeza e escuta de bairro: o que Buffalo ensina sobre coprodução de segurança

Em resumo

Em Buffalo, o programa Clean Sweeps combina embelezamento rápido de quarteirões e conversa com moradores. Um estudo anterior, citado no artigo coassinado por Jorrit de Jong, da Harvard Kennedy School, encontrou mais denúncias de crimes e de problemas de serviço depois da ação. Entrevistas e grupos focais apontam confiança, resposta rápida e sensação de eficácia como mecanismos prováveis.

Boa parte da segurança e da conservação de uma cidade depende de o morador avisar o poder público que algo está errado. Em bairros carentes, esse aviso falha: quem já não foi atendido deixa de pedir. Um artigo coassinado por Jorrit de Jong, docente da Harvard Kennedy School (HKS) e diretor do Bloomberg Center for Cities at Harvard University, estudou como uma prefeitura americana quebrou esse ciclo. O trabalho é The Impact of City-Led Neighborhood Action on the Coproduction of Neighborhood Quality and Safety in Buffalo, NY, publicado em março de 2025 no International Journal of Environmental Research and Public Health. É uma boa lição sobre coprodução de segurança entre governo e comunidade.

A ideia em resumo

O ponto de partida do resumo é que a segurança pública e a conservação dos espaços públicos dependem, em grande parte, das denúncias dos moradores. Em áreas desfavorecidas, degradação urbana, serviços insuficientes e desvantagem concentrada enfraqueceram essa cooperação, o que pode aumentar a subnotificação de crimes e de demandas de serviço e aprofundar desigualdades.

Em Buffalo, no estado de Nova York, a prefeitura criou o programa Clean Sweeps. A ideia é reduzir disparidades entre bairros com embelezamento rápido e ações de aproximação com a comunidade em quarteirões selecionados, com o objetivo de reduzir crime e degradação e aumentar o engajamento.

O que a pesquisa mostrou

Segundo o resumo, um estudo quantitativo anterior, que analisou 77.955 imóveis pareados, identificou que, nos seis meses seguintes à intervenção, os moradores dos locais tratados denunciaram mais crimes ligados a drogas (pelo 911) e mais problemas de serviço ligados à degradação (pelo 311) do que os de locais não tratados. Mais denúncia, nesse contexto, não significa mais problema: significa que o problema passou a chegar ao poder público.

O artigo agora publicado procura entender o porquê. Os pesquisadores fizeram 21 entrevistas com servidores municipais e quatro grupos focais com moradores. Identificaram três mecanismos principais para o comportamento de denúncia: melhor capacidade de resposta do governo, mais confiança e maior sensação de eficácia por parte dos moradores, isto é, a crença de que denunciar adianta. A conclusão dos autores é que intervenções ambientais relativamente simples, combinadas com aproximação da comunidade, podem ajudar a criar bairros mais seguros e saudáveis.

Como aplicar no Brasil

O Brasil tem canais como o 156, as ouvidorias, os aplicativos de zeladoria e os conselhos de segurança. Um roteiro inspirado no caso:

  1. Mapeie onde o canal não chega. Compare o volume de chamados por bairro com indicadores de vulnerabilidade. Poucos chamados em áreas com muitos problemas podem indicar desconfiança, não ausência de demanda.
  2. Escolha quarteirões ou ruas-piloto. Concentre uma ação rápida e visível de zeladoria (limpeza, poda, iluminação, pintura, retirada de entulho e de veículos abandonados) com a participação de várias secretarias.
  3. Conversem com os moradores antes, durante e depois. Agentes comunitários, assistentes sociais, guarda municipal e equipes de zeladoria podem fazer visitas, rodas de conversa e entregar informações sobre como pedir serviços.
  4. Responda rápido ao que for pedido. O estudo sugere que a capacidade de resposta é um dos mecanismos centrais. Defina prazos para os primeiros chamados do piloto e divulgue o que foi resolvido.
  5. Meça mudanças no registro de demandas. Acompanhe chamados antes e depois, por tipo, e compare com áreas semelhantes que não receberam a ação. Um aumento inicial de chamados deve ser lido como sinal de confiança, e não como piora.
  6. Dê voz ao morador. A Constituição Federal prevê, no art. 37, § 3º, I, que a lei discipline reclamações sobre serviços públicos, com serviços de atendimento ao usuário e avaliação periódica da qualidade, e, no art. 29, XII, a cooperação das associações representativas no planejamento municipal.
  7. Trate os dados com cuidado. Denúncias podem envolver dados pessoais; mantenha anonimato quando possível e finalidade clara.

Cuidados e limites

A página traz o resumo do artigo, e o achado quantitativo citado vem de outro estudo, não deste; o texto completo não foi lido para esta matéria. O desenho do estudo qualitativo (21 entrevistas e quatro grupos focais) mostra mecanismos prováveis, não prova a causa. O efeito foi medido em seis meses e em denúncias, não em redução de crime. Ações de zeladoria sem continuidade podem frustrar quem foi ouvido e gerar o efeito contrário. Segurança pública tem competências distribuídas entre União, estados e municípios, e o papel do município deve respeitar essa divisão. Este texto é uma leitura própria da Evoluta, feita por profissionais com formação pela Harvard Kennedy School, sem vínculo da empresa com a HKS.

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Conteúdo independente da Evoluta, inspirado em publicações da Harvard Kennedy School of Government, a escola de governo da Universidade Harvard que inspira a Escola de Governo da Evoluta. Publicação original indicada nas fontes; a Evoluta não tem vínculo institucional com a Universidade Harvard.

Fontes

  1. The Impact of City-Led Neighborhood Action on the Coproduction of Neighborhood Quality and Safety in Buffalo, NY — Harvard Kennedy School (International Journal of Environmental Research and Public Health; Katharine Robb, Pablo Uribe, Eleanor Dickens, Ashley Marcoux, Jessica Creighton e Jorrit de Jong), 01/03/2025
  2. Constituição Federal, art. 29, XII, e art. 37, § 3º, I — Planalto, 05/10/1988
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