Uma crise hídrica não é só problema de engenharia: é também problema de comunicação, de confiança e de coordenação. O caso No Trust in Miracles: Leading Through a Water Crisis in Cape Town, da Harvard Kennedy School (HKS), mostra isso na África do Sul. Publicado em 25 de junho de 2021 (caso 2227.0, 19 páginas), é de Fernando Monge, Kimberlyn Leary e Jorrit de Jong, com recursos da Bloomberg Harvard City Leadership Initiative.
A ideia em resumo
Depois de vários anos de pouca chuva, Cidade do Cabo começou a se preparar, no início de 2017, para uma seca possivelmente sem precedentes. As chuvas seguintes foram insuficientes, o que tornou o evento, nos termos do resumo, um fenômeno de uma vez em 300 anos, para o qual o sistema de água não estava preparado.
O governo seguiu duas estratégias: ampliar as fontes de água e reduzir o consumo. Quando ficou claro que a nova oferta não chegaria a tempo, a prefeita executiva, Patricia De Lille, teve de decidir se pressionaria os cidadãos a economizar ainda mais.
O que o caso examina
De acordo com o resumo público:
- o desacordo interno na prefeitura sobre quando e como reagir gerou mensagens confusas, que corroeram a confiança da comunidade;
- a crise expôs desigualdades profundas no acesso à água e a fraca coordenação entre esferas de governo com responsabilidades diferentes sobre o sistema;
- a posição política e o estilo de liderança da prefeita também influenciaram o desenrolar;
- o caso analisa os padrões de governança, economia e sociedade por trás da crise, as habilidades de liderança para uma resposta coletiva baseada em confiança e os dilemas de anunciar uma data específica, o “Dia Zero”, em que a água da cidade acabaria.
O epílogo e o guia do praticante não foram lidos, e esta matéria não descreve como a crise terminou.
Por que isso importa para o gestor
O Brasil conhece bem crises de água, no semiárido, em regiões metropolitanas e em cidades de captação frágil. O caso toca em três decisões difíceis para qualquer gestor. A primeira é a comunicação: quando alertar, com que franqueza e com que números. A segunda é a unidade da mensagem: se o governo fala com várias vozes, o cidadão não sabe o que fazer. A terceira é a equidade: medidas de restrição de consumo atingem de forma diferente quem tem caixa d’água, poço ou rede precária.
A questão da data de colapso é um exemplo de dilema entre transparência e risco de pânico, que o caso trata como escolha com perdas de ambos os lados. Não há resposta única, mas há método: decidir com dados, alinhar a equipe e explicar a decisão.
O título do caso, que fala em não confiar em milagres, resume um aprendizado: em crise, promessas de solução rápida corroem a credibilidade, e o que sustenta a cooperação da população é a transparência sobre limites e riscos. É uma ideia que vale tanto para a seca quanto para qualquer emergência de serviço público.
Como aplicar no Brasil
- Tenha um plano de contingência hídrica por escrito, com gatilhos (nível de reservatório, vazão, dias de reserva) e ações para cada nível.
- Fale com uma só voz. Defina porta-voz e rotina de reunião diária de crise entre as áreas, e alinhe os dados antes de qualquer entrevista.
- Explique números em linguagem simples. Informe quanto de água resta, em quantos dias e o que cada morador pode fazer.
- Olhe a desigualdade. Mapeie bairros sem rede, sem caixa d’água ou dependentes de carro-pipa e garanta atendimento prioritário.
- Coordene os níveis de governo. Formalize reuniões com a companhia de saneamento, o estado, a defesa civil e consórcios, com responsáveis nomeados.
- Prepare a decisão difícil antes. Defina critérios e simule o debate interno sobre restrições e anúncios, para não improvisar sob pressão.
Cuidados e limites
O caso é de uma metrópole sul-africana, com outro arranjo institucional para o saneamento. Competências sobre abastecimento, concessões e regulação no Brasil dependem de normas federais, estaduais e contratos locais, e devem ser verificadas com a procuradoria e a agência reguladora. As regras gerais do saneamento estão na Lei 11.445/2007. Este texto é uma leitura própria da Evoluta, feita por profissionais com formação pela Harvard Kennedy School, sem vínculo da empresa com a HKS.
Para preparar a comunicação e a coordenação da prefeitura, veja o serviço de assessoria de comunicação em situações de crise, o de preparação para coletivas e porta-voz institucional e o curso de gestão de crises de imagem na administração pública.



