A formação de prefeitos costuma ser deixada ao acaso: quem assume aprende no cargo, sob pressão. A Harvard Kennedy School (HKS) tem uma resposta organizada para isso, a Bloomberg Harvard City Leadership Initiative, parceria entre a HKS, a Harvard Business School e a Bloomberg Philanthropies. Segundo a reportagem Strengthening leaders and cities (primavera de 2025), a iniciativa oferece, desde 2017, programas de liderança e gestão, pesquisa, oportunidades para estudantes e materiais de aprendizagem para prefeitos e altos dirigentes de cidades.
A ideia em resumo
O modelo combina quatro elementos. Primeiro, formação para quem governa, em cursos de liderança e de gestão. Segundo, casos de ensino construídos sobre decisões reais de prefeitos. Terceiro, estudantes e bolsistas que trabalham dentro das prefeituras em problemas concretos. Quarto, pesquisa publicada sobre o que funciona em governos locais. A reportagem cita, por exemplo, o trabalho de Buffalo, em Nova York, para quebrar silos entre departamentos, que virou objeto de pesquisa revisada por pares da própria iniciativa.
Outra reportagem da escola, Frontline problem solvers, de Susan A. Hughes (20 de novembro de 2025), registra um debate entre uma prefeita e um prefeito de partidos diferentes. Eles defenderam que o governo local se mede por resultado prático, não por rótulo partidário, e que a maioria das cidades não tem os recursos necessários para enfrentar sozinha temas como moradia, segurança e desenvolvimento econômico. O mediador, Jorrit de Jong, resumiu: “Mayors are the frontline problem solvers of the world.”
O que as reportagens mostram
Os exemplos são de cidades de vários países, e quase todos relatados pelo próprio programa:
- Boise (EUA): um bolsista do programa ajudou a reduzir em 67% o tempo para emitir licenças de creches. A página não informa a base de comparação nem o período;
- Riga (Letônia): a cidade usou dados e tecnologia para acompanhar serviços a milhares de refugiados depois da invasão da Ucrânia;
- Salt Lake City: mudanças nos serviços para pessoas em situação de rua melhoraram a coleta de dados e a coordenação entre equipes;
- Bogotá: os "quarteirões do cuidado" atendem cuidadoras não remuneradas, em sua maioria mulheres.
Na conversa de novembro de 2025, a prefeita da Filadélfia disse que trazer especialistas acadêmicos para dentro da prefeitura pode expor ineficiências, como as de compras, e que as pessoas recuperam a confiança no governo quando o veem funcionar no dia a dia. O prefeito de Columbia (Carolina do Sul) relatou usar a rede de colegas para obter, por contato direto, estudos úteis.
Como aplicar no Brasil
Não é preciso trazer o programa para copiar o que ele tem de melhor. Uma prefeitura, uma câmara ou um consórcio pode montar uma versão local:
- Crie uma trilha de formação para o início de mandato. Um programa de poucos dias para prefeito, secretários e assessores cobrindo planejamento, orçamento, contratações, pessoal, comunicação e controle.
- Use casos reais do próprio município. Transforme decisões recentes, como um contrato, uma reforma ou uma crise, em casos para discutir com a equipe.
- Monte projetos de aprendizagem com universidades locais. Estudantes e pesquisadores ajudam a resolver um problema concreto (fila, arrecadação, dados) com orientação técnica. A contratação de instituições de ensino e pesquisa, quando houver pagamento, segue a Lei 14.133/2021, e o art. 75, inciso XV, prevê dispensa de licitação para instituição brasileira que tenha por finalidade estatutária apoiar, captar e executar atividades de ensino, pesquisa, extensão, desenvolvimento institucional, científico e tecnológico e estímulo à inovação, desde que tenha inquestionável reputação ética e profissional e não tenha fins lucrativos; consulte a procuradoria.
- Forme rede entre pares. Consórcios, associações de municípios e as escolas de governo permitem trocar soluções entre prefeitos e secretários de cidades de porte parecido.
- Escolha um projeto-vitrine por semestre e acompanhe o resultado com um indicador, como o tempo de emissão de um alvará.
Cuidados e limites
As duas reportagens são institucionais, escritas pela escola que promove o programa, e o financiamento é da Bloomberg Philanthropies. Quase todos os resultados citados são relatados pelo próprio programa ou por ex-participantes, sem avaliação independente do efeito sobre o desempenho das cidades. O caso de Boise, por exemplo, não traz linha de base. A formação ajuda, mas não substitui equipe técnica, orçamento e continuidade administrativa. Este texto é uma leitura própria da Evoluta, feita por profissionais com formação pela Harvard Kennedy School, sem vínculo da empresa com a HKS ou com a iniciativa.
Para montar um programa de formação na sua prefeitura ou consórcio, veja o curso de liderança e gestão estratégica no setor público, as capacitações in company e programas para consórcios e a plataforma de cursos online da escola de governo.



