O GovTech Maturity Index (GTMI), do Banco Mundial, mede o grau de transformação digital do setor público em países de todo o mundo. A atualização de 2025 cobre 197 economias, das quais 158 responderam à pesquisa por conta própria e 39 foram avaliadas com dados públicos. O Banco Mundial apresenta o índice como um panorama, não como um ranking. O conjunto de dados foi atualizado no catálogo de dados do Banco Mundial em 18 de dezembro de 2025. Mesmo sendo um índice nacional, ele oferece um roteiro útil para quem gere uma prefeitura.
O que o índice mede
O GTMI usa 48 indicadores organizados em quatro áreas: sistemas centrais de governo (17 indicadores), prestação de serviços públicos (9), engajamento digital do cidadão (6) e facilitadores de GovTech (16), que incluem estratégia, instituições, habilidades e inovação. A edição 2025 manteve a metodologia e os pesos de 2022 e acrescentou três indicadores: políticas de IA ética, tecnologia verde e uso de identidade digital em serviços on-line.
O que a atualização revela
- O progresso desde 2022 é positivo, mas desigual: a distância entre economias de alta e de baixa maturidade aumentou.
- Nuvem de governo, arquitetura corporativa, interoperabilidade e barramento de serviços ganharam adoção.
- Mais de 75% das economias oferecem portais de serviços tributários, declaração eletrônica de tributos e aduana, pagamento eletrônico, janela única de comércio exterior e portais de emprego, e 59% usam identidade digital para identificação e serviços on-line.
- O engajamento do cidadão (civic tech) segue como a área mais atrasada, e os portais de dados abertos enfrentam desafios, embora as plataformas de retorno do cidadão tenham melhorado.
- Há um vazio persistente no monitoramento do uso real dos serviços digitais: muitos governos lançam, poucos medem se as pessoas usam.
O texto lido não faz referência ao Brasil, e esta matéria não atribui nota ao país.
Como ler o índice sem se enganar
Três cuidados ajudam. Primeiro, a maior parte dos dados é autodeclarada: 158 economias responderam à pesquisa, o que significa que o índice mede o que os governos informam, não o que o cidadão sente. Segundo, o GTMI trata de governos nacionais, e a realidade de um município é outra, com equipes menores e menos orçamento; por isso, a melhor forma de usá-lo é como roteiro de perguntas, não como régua. Terceiro, maturidade digital não é sinônimo de número de sistemas: a própria atualização aponta que o monitoramento do uso efetivo dos serviços é uma lacuna importante. Um município com poucos serviços, bem integrados e muito usados, pode estar mais maduro do que outro com muitos sistemas isolados.
Lições para o município
O diagnóstico do Banco Mundial coincide com o que os municípios brasileiros costumam enfrentar: lançar um serviço digital é a parte mais fácil; torná-lo usado, integrado e medido é a mais difícil. A Lei 14.129/2021 (Lei do Governo Digital) dá o rumo no art. 3º: serviços digitais acessíveis inclusive por celular (inciso I), possibilidade de demandar serviços sem solicitação presencial (inciso III), simplificação com foco no autosserviço (inciso X) e atuação integrada entre órgãos, com compartilhamento de dados em ambiente seguro quando indispensável, nos termos da LGPD (inciso IX). Atenção: essa lei vale diretamente para a União; estados e municípios só ficam obrigados a seus comandos se os adotarem por ato normativo próprio (art. 2º, III). No município, ela serve de referência e pode ser adotada por lei ou decreto local.
Como aplicar no seu município
Use as quatro áreas do GTMI como lista de verificação, em escala local:
- Sistemas centrais. O protocolo, a tramitação de processos, o orçamento e a folha conversam entre si, ou cada secretaria tem uma planilha? Liste os sistemas, os responsáveis e os dados duplicados.
- Serviços ao cidadão. Quais serviços de maior volume podem ser pedidos sem ir ao balcão? Comece por três: segunda via de tributo, protocolo de requerimento e consulta ao andamento de processo.
- Participação. Existe canal para o cidadão avaliar o serviço e acompanhar o pedido? A avaliação precisa chegar a quem pode mudar o processo.
- Facilitadores. Há estratégia digital, responsável designado, capacitação dos servidores e regras de uso e proteção de dados?
- Meça o uso. Para cada serviço digital, acompanhe quantos pedidos entram pelo canal digital em relação ao presencial. É o ponto que o próprio Banco Mundial aponta como lacuna.
Priorize integração e uso antes de novas ferramentas. Um sistema novo sobre um processo ruim apenas digitaliza o problema.



