Os indicadores de segurança pública mais usados, como homicídios, roubos e prisões, dizem pouco sobre como a pessoa se sente na rua, no ônibus ou na praça. O Government Performance Lab (GPL), da Harvard Kennedy School (HKS), publicou em 17 de abril de 2024 um relato de como a cidade de Saint Paul, em Minnesota, tentou preencher essa lacuna: New Measures of Public Safety: A Youth-Led Vision in Saint Paul, de Gloria Gong, Andrew Bentley, Andrea Barnes e Damonique Sonnier.
A ideia em resumo
O ponto de partida do texto é que gestores chamam a segurança de prioridade máxima, mas dispõem de poucos instrumentos que reflitam o dia a dia dos moradores. A maioria das jurisdições acompanha dados de crime e violência para gerir desempenho e, em separado, faz consultas à comunidade. Os dois fluxos raramente se encontram em decisões em tempo real, e as necessidades das comunidades mais afetadas, em especial as negras e as que sofreram desinvestimento, ficam sub-representadas. A proposta é criar indicadores comunitários de segurança que fechem essa distância.
O que a publicação mostra
O GPL trabalhou com o Escritório de Segurança de Vizinhança de Saint Paul e desenhou, com a organização juvenil local World Youth Connect, um modelo de pesquisa participativa. O foco foi a juventude, por causa do aumento da violência que envolve jovens. As etapas foram:
- Recrutamento de 50 jovens que se identificaram como muito afetados pela violência;
- Entrevistas e grupos de conversa sobre o que os faz sentir inseguros e como mudariam de comportamento se se sentissem mais seguros;
- Hierarquização, por um subgrupo, das atividades que fariam com mais frequência num bairro mais seguro;
- Identificação de temas comuns nas respostas;
- Proposta de indicadores que medem mudanças observáveis no comportamento dos jovens, como brincar ao ar livre e usar o transporte.
Quatro temas emergiram: vigilância constante; exposição ao uso de drogas na linha de transporte METRO Green Line, uma das causas mais citadas de insegurança e que não era foco das ações de segurança; as interações com a polícia; e o uso de redes sociais, que os jovens veem de modo diferente dos líderes comunitários. A conclusão dos autores é direta: “Existing measures of public safety simply do not capture what youth experience in Saint Paul.” A página não descreve como os indicadores foram testados nem se foram adotados pela cidade, e a amostra de 50 pessoas é pequena e pode não representar todos os jovens do município.
Como aplicar no Brasil
O Estatuto da Juventude (Lei 12.852/2013), art. 4º, assegura ao jovem o direito à participação social e política e na formulação, execução e avaliação das políticas públicas de juventude, e define essa participação como inclusão e envolvimento ativo, inclusive nos espaços de decisão. A prefeitura pode transformar isso em método para a segurança. Um roteiro:
- Combine dados de ocorrência com a escuta. Mapeie os registros de crime e violência (guarda municipal, polícia, saúde, escolas) e, em paralelo, planeje conversas com moradores dos territórios mais afetados.
- Parceria com organização local de jovens. Associações, coletivos culturais, grêmios e conselhos de juventude têm confiança que a prefeitura não tem. Remunere a participação quando possível.
- Faça grupos pequenos (cerca de 30 a 50 jovens) com perguntas simples: onde você deixa de ir? O que mudaria no seu dia se se sentisse seguro? Quem ajuda?
- Traduza respostas em comportamentos mensuráveis. Número de jovens que usam a praça à noite, trajetos feitos a pé, frequência a atividades noturnas na escola. Esses sinais complementam as estatísticas oficiais.
- Verifique pontos esquecidos. A pesquisa de Saint Paul achou um local (o transporte público) fora do radar da política de segurança. Pergunte quais lugares seu município ignora.
- Devolva os achados aos jovens e registre o que será feito, quando e por quem.
Tome cuidado com a proteção de dados e de pessoas: dados de crianças e adolescentes devem ser tratados no seu melhor interesse (LGPD, art. 14); para crianças, a lei exige consentimento de pelo menos um dos pais ou do responsável, e com adolescentes a autorização dos responsáveis é a prática recomendada, junto com anonimato e os cuidados do ECA.
Cuidados e limites
É um projeto-piloto relatado pelo próprio laboratório, com amostra pequena, e a própria página não traz seção de limitações. Os jovens têm visões diferentes das de lideranças comunitárias sobre redes sociais, e o texto não resolve qual deve orientar a política. Segurança pública tem repartição de competências entre União, estados e municípios; indicadores comunitários servem para orientar ações municipais (iluminação, transporte, praças, escola), e não substituem os dados oficiais. Este texto é uma leitura própria da Evoluta, feita por profissionais com formação pela Harvard Kennedy School, sem vínculo da empresa com a HKS.
Para construir indicadores e acompanhar políticas com método, veja o serviço de gestão de indicadores e resultados, o sistema de gestão de projetos e metas de governo e o curso de planejamento de políticas públicas.



