Quando um programa chega a um bairro, os números de ocorrências sobem ou caem? E isso significa que o problema aumentou ou que os moradores passaram a confiar mais no poder público? O artigo The Effects of a Place-Based Intervention on Resident Reporting of Crime and Service Needs, publicado em 18 de setembro de 2025 na revista Justice Quarterly, enfrenta a questão. Os autores são Eleanor Dickens, Noah Greifer, Katharine Robb, Ashley Marcoux, Jessica Creighton, Charles Allegar e Jorrit de Jong, diretor do Bloomberg Center for Cities, de Harvard, e docente da Harvard Kennedy School (HKS).
A ideia em resumo
Em muitas cidades americanas, a população denuncia pouco: crimes e problemas de serviço ficam sem registro. Isso importa porque a gestão pública usa chamados e ocorrências para decidir onde agir. Se o registro é baixo, o mapa do problema é enganoso. O estudo pergunta se um programa baseado em território, ou seja, que atua de forma concentrada em certos endereços, muda o hábito de denunciar.
O que a pesquisa mostrou
A análise usou dados observacionais de um grande repositório público e avaliou uma intervenção em Buffalo, no estado de Nova York, com uma amostra de 77.955 domicílios. Como não houve sorteio de quem recebeu o programa, os autores usaram uma técnica de pareamento (matching) para comparar domicílios atendidos com outros parecidos. Os resultados, de acordo com o resumo:
- domicílios atendidos tiveram mais probabilidade de relatar crimes ligados a drogas e problemas de degradação urbana (blight), como imóveis abandonados;
- não houve evidência de diferença nos relatos de outros tipos de crime nem de outras demandas de serviço.
A página não informa o nome do programa, o período, a magnitude dos efeitos nem o repositório de dados usado.
Por que ler os dados de chamados com cautela
Quase toda prefeitura usa a quantidade de chamados como termômetro: se subiu, algo piorou; se caiu, a ação deu certo. O estudo mostra que essa leitura pode enganar. Num bairro onde o poder público passa a estar presente, os moradores tendem a registrar mais, justamente porque confiam que alguém vai responder. Um aumento de relatos pode ser um sinal de vínculo, e não de piora.
Isso vale para saúde (notificações), assistência social (busca ativa), zeladoria e segurança. Para quem prepara relatórios de gestão, a recomendação prática é apresentar sempre o número de registros ao lado de outras medidas, como pesquisa de percepção, inspeções em campo e dados de outras secretarias, e explicar ao leitor o que pode ter mudado no hábito de registrar.
Como aplicar no Brasil
A principal lição é metodológica: antes de concluir que um bairro piorou ou melhorou, é preciso saber se mudou o registro ou mudou o fato. Para prefeituras com ouvidoria, canais de zeladoria ou central 156:
- Separe fato e registro. Ao lançar um programa territorial (limpeza, iluminação, agentes de proximidade, assistência social), avise a equipe de que o número de chamados pode subir no início.
- Defina áreas de comparação. Escolha, desde o começo, bairros parecidos onde o programa ainda não chegou, para ter um ponto de referência.
- Meça antes. Registre a situação anterior ao programa, por tipo de demanda e por setor.
- Abra os canais certos. Se a denúncia de determinado problema é baixa, simplifique o canal: aplicativo, WhatsApp institucional, atendimento presencial no território.
- Explique ao morador. Mostre o que foi feito com cada chamado, porque a confiança é o que mantém o registro funcionando.
- Cruze fontes. Compare chamados com dados da guarda, da saúde e da assistência social, em vez de depender de uma única base.
Cuidados e limites
É um estudo observacional de um programa em uma cidade americana: indica associação plausível, mas não resolve todas as dúvidas de causalidade. Dados de segurança e de endereços de famílias são sensíveis e exigem proteção, conforme a LGPD e as normas locais. O achado também não deve ser usado para concluir que programas territoriais aumentam o crime; o que subiu foi o relato. Este texto é uma leitura própria da Evoluta, feita por profissionais com formação pela Harvard Kennedy School, sem vínculo da empresa com a HKS.
Para medir resultados de programas, veja o serviço de gestão de indicadores e resultados, o de atendimento humanizado e experiência do usuário e o sistema de ouvidoria, e-SIC e atendimento ao cidadão.



