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Nudges no serviço público: o modelo EAST aplicado ao Brasil

Em resumo

O Behavioural Insights Team resumiu em quatro letras, EAST, o que torna um comportamento mais provável: fácil, atrativo, social e no momento certo. Mudanças pequenas em cartas, formulários e lembretes já produziram ganhos mensuráveis em outros países, e prefeituras brasileiras podem testá-las com baixo custo.

Os nudges no serviço público são ajustes pequenos na forma como o governo pede, informa e lembra o cidadão, sem proibir nada e sem aumentar custo. O Behavioural Insights Team (BIT), organização nascida no governo do Reino Unido, reuniu essa prática no modelo EAST, publicado em 2014 e reeditado em versão revisada: para que alguém faça algo, o comportamento precisa ser fácil (easy), atrativo (attractive), social (social) e oportuno (timely). Para o gestor municipal, a ideia é útil porque muita perda de arrecadação, de adesão e de eficiência nasce de cartas confusas, formulários longos e avisos que chegam tarde.

O que é o modelo EAST

O guia do BIT apresenta quatro alavancas. Fácil: reduzir esforço, passos e complexidade. Atrativo: chamar a atenção para o que importa e tornar a mensagem relevante. Social: mostrar o que as outras pessoas já fazem e usar a força das redes e dos compromissos. Oportuno: falar com o cidadão no momento em que ele está mais disposto a agir.

Na edição revisada, o próprio BIT conta que cresceu de uma equipe de 14 pessoas para uma organização com 250, com escritórios em oito países, e que centenas de unidades de insights comportamentais surgiram no mundo. A equipe também avisa que alguns estudos citados na primeira edição não resistiram a novas verificações, e os retirou ou sinalizou. É um bom lembrete: nudge se testa, não se presume.

O que os testes já mostraram

O capítulo sobre simplificar mensagens traz números que ajudam a dimensionar o potencial. Segundo o BIT, tornar um pedido mais fácil de entender costuma elevar em torno de 5% as respostas a formulários, e-mails, mensagens e cartas, embora o resultado varie conforme o contexto. Outros exemplos citados no guia:

  • Em Nova York, redesenhar o formulário de intimação judicial, destacando data, local e consequências da ausência, reduziu em 13% o número de pessoas que deixaram de comparecer, o que evita cerca de 17 mil mandados de prisão por ano.
  • Na Bélgica, cartas mais curtas e simples para devedores de impostos aumentaram em até 23% o pagamento em relação ao lembrete padrão, e lembretes mais simples para declarar o imposto elevaram em 8% a entrega das declarações.
  • Um resumo simplificado de termos e condições aumentou em 36% a compreensão em um projeto do BIT.

Esses resultados vêm de contextos estrangeiros. Eles indicam o tipo de ganho possível, não o que acontecerá em uma prefeitura brasileira, e é por isso que o teste local importa.

Um método de apoio: o toolkit BASIC da OCDE

O Observatório de Inovação no Setor Público da OCDE (OPSI) mantém uma coleção de recursos de insights comportamentais, que inclui o toolkit BASIC, um arcabouço em cinco etapas para aplicar a abordagem em todo o ciclo da política pública, com glossário e diagnóstico interativo. A coleção também lista guias como o do governo australiano e ferramentas de teste A/B. Para uma secretaria sem equipe própria de pesquisa, esses materiais ajudam a estruturar o trabalho sem começar do zero.

Como aplicar no seu município

Escolha um ponto em que o cidadão precisa agir e muitos não agem. Candidatos comuns: pagamento de IPTU e taxas, atualização cadastral, comparecimento a consultas e atendimentos agendados, renovação de benefícios, resposta a convocações.

  1. Meça o ponto de partida. Quantas pessoas agem hoje? Sem esse número não há como saber se algo funcionou.
  2. Ache o atrito. Leia a carta ou o formulário como se fosse o cidadão. Onde ele trava: linguagem, número de passos, prazo escondido, falta de lembrete?
  3. Escolha uma mudança por vez em cada lente do EAST: simplificar o texto, destacar a data, informar que a maioria já regularizou (só se for verdade e verificável), enviar o aviso perto do vencimento.
  4. Teste em duas versões. Divida a lista de destinatários em dois grupos e compare. Uma versão atual e uma nova bastam.
  5. Cuide da ética. A mensagem não pode enganar, pressionar indevidamente nem expor dados pessoais. A comunicação deve respeitar a LGPD e ser transparente quanto ao que o órgão pede.
  6. Padronize o que funcionou e registre, para que o ganho sobreviva à troca de equipe.

Nudges não substituem política pública nem corrigem serviço ruim. Se o cidadão não consegue agendar porque o sistema fica fora do ar, a solução é técnica, não comportamental. Mas, onde o serviço já funciona e falta adesão, a mensagem certa no momento certo costuma ser o investimento mais barato disponível.

Fontes

  1. EAST: Four simple ways to apply behavioural insights (edição revisada) — Behavioural Insights Team, 01/12/2024
  2. Behavioural insights (coleção de recursos, inclusive o toolkit BASIC) — OECD Observatory of Public Sector Innovation (OPSI)
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