Prefeituras costumam dizer que poucas empresas participam das licitações, mas raramente perguntam às empresas por quê. O Government Performance Lab (GPL), da Harvard Kennedy School (HKS), publicou em 2022 um guia prático para pesquisar a comunidade de fornecedores, de autoria de Elena Hoffnagle, Charley Kargman e Laura Merryfield. O foco é ouvir empresas, em especial pequenas e locais, para achar os pontos de atrito no processo de compras. É um método útil para qualquer órgão que queira mais competição em licitações.
A ideia em resumo
O argumento do guia é direto: quando o processo é eficiente, convidativo e inclusivo, mais empresas querem participar, e mais propostas ajudam o governo a negociar melhor solução e preço. Uma boa relação com o fornecedor durante o contrato também favorece a colaboração para resolver problemas. A pesquisa é uma forma de baixo custo de reunir muitas opiniões, comparar tipos de empresa (pequenas, frequentes, por setor) e repetir a coleta ao longo do tempo, seja em uma consulta anual ampla, seja em uma micropesquisa dirigida a quem respondeu a um edital específico.
O que o guia traz
O documento lista as características de uma boa pesquisa. Ela deve ser acionável: cada pergunta precisa revelar algo novo e levar a uma mudança possível. Deve ser específica, coletando dados de porte, localização e histórico (fornecedor atual, quem já perdeu, quem nunca participou). Deve ser direcionada, com ramificações, de modo que quem nunca disputou veja só perguntas sobre os motivos. Precisa ser acessível, com linguagem simples, mistura de perguntas de sim ou não, escala de cinco pontos e resposta livre. Precisa ser considerada com o tempo de quem responde, com pelo menos duas semanas abertas e lembretes. E rápida, em no máximo 15 minutos.
Uma tabela mostra perguntas fracas e como melhorá-las. Em vez de perguntar o que está errado com o processo, escolha um aspecto e ofereça uma afirmação para concordar ou discordar, sobre a clareza do que era preciso entregar na proposta. Evite siglas, perguntas de faturamento por unidade e perguntas que juntam várias ideias. Os grupos focais, com cerca de cinco a oito pessoas e foco definido, ajudam a entender o motivo das respostas. Em um caso citado, participantes queriam pré-qualificação para não repetir papelada e receber mais rápido, e a conversa mostrou que simplificar exigências e comunicar melhor também resolveria.
Para a aplicação, o guia aconselha envolver compras, jurídico, desenvolvimento econômico e comunicação, definir de três a cinco grandes perguntas, deixar claro que a participação é anônima, voluntária e sem efeito em disputas futuras, testar com um grupo pequeno e divulgar por todos os canais, inclusive associações empresariais. Em um caso, uma cidade enviou cartões-postais com QR code a empresas licenciadas que nunca haviam contratado. Na análise, o guia pede cuidado com grupos pequenos demais, que poderiam revelar quem respondeu, e recomenda devolver ao público dois ou três pontos fortes, dois ou três a melhorar e as ações planejadas.
Como aplicar no Brasil
- Defina a pergunta de gestão. Por exemplo: por que os pregões de serviços recebem tão poucas propostas? Isso orienta o questionário.
- Monte uma lista de contatos. Use o cadastro de fornecedores do município, empresas que baixaram editais, o sistema de compras e associações comerciais, sindicatos, Sebrae e salas do empreendedor, sempre com respeito à lei de proteção de dados.
- Escreva dez a quinze perguntas. Misture escalas e campos abertos; inclua uma pergunta sobre pagamento em dia, outra sobre clareza do edital e outra sobre exigências de habilitação que dificultam a participação.
- Garanta o sigilo. A LGPD pede que o tratamento observe finalidade e necessidade (art. 6º) e que o poder público informe com clareza suas hipóteses de tratamento (art. 23). Colete o mínimo e guarde contatos separados das respostas.
- Deixe claro que não influencia julgamentos. A Lei 14.133/2021 tem como objetivo o tratamento isonômico e a justa competição (art. 11, II); a pesquisa não pode criar vantagem a quem responde.
- Olhe os pequenos negócios. A Lei Complementar 123/2006 manda dar tratamento diferenciado e simplificado a microempresas e empresas de pequeno porte nas contratações (art. 47). A pesquisa mostra se isso chega à prática.
- Devolva os resultados e repita. Publique uma síntese, comprometa-se com duas ou três ações rápidas e refaça a pesquisa no ano seguinte.
Cuidados e limites
O guia traz boas práticas e exemplos, mas não apresenta resultados quantitativos medidos do uso da pesquisa, e esta matéria não os afirma. Os exemplos de diversidade se referem a grupos definidos na realidade americana; no Brasil, os recortes legalmente seguros partem de porte, território e setor. Pesquisa com baixa resposta deve ser lida como indício, não como retrato do mercado. E nenhuma pergunta pode sugerir benefício em licitações futuras. Este texto é uma leitura própria da Evoluta, feita por profissionais com formação pela Harvard Kennedy School, sem vínculo da empresa com a HKS.
Veja também o serviço de compras públicas e desenvolvimento local, a capacitação de pequenos negócios para vender ao governo e o credenciamento de MEI e pequenos serviços.



