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Planejamento Estratégico Situacional: governar com atores e conflito

Em resumo

O Planejamento Estratégico Situacional (PES) é um método de planejamento governamental desenvolvido a partir dos anos 1970 pelo economista chileno Carlos Matus. Trata governar como ato de quem decide e lidera diante de atores, conflitos e incertezas, e liga planejamento a gestão. Na prefeitura, ajuda a enfrentar problemas complexos.

Nem todo problema público tem solução técnica conhecida. Violência, fila crônica, desigualdade no território e conflitos em torno de uma obra envolvem pessoas, interesses e incertezas. O Planejamento Estratégico Situacional, conhecido pela sigla PES, nasceu na América Latina para lidar com esse tipo de situação. Veja a origem do método, as ideias centrais e como usar uma versão simples na prefeitura.

O que é o Planejamento Estratégico Situacional

O PES foi desenvolvido pelo economista chileno Carlos Matus (1931-1998), que atuou em cargos de governo no Chile e como assessor de organismos internacionais da região. O método ganhou forma a partir dos anos 1970 (Matus foi ministro e presidente do Banco Central no governo de Salvador Allende) e foi desenvolvido nas décadas seguintes, como proposta de planejamento para líderes políticos, tanto de governo quanto de oposição. No Brasil, uma das obras de referência é Política, Planejamento e Governo, edição do Ipea de 1993, em dois volumes.

Estudos brasileiros descrevem algumas ideias centrais:

  • Quem governa, planeja. Planejar não é tarefa de especialistas distantes da decisão. Quem tem poder de decidir e liderar deve participar do planejamento.
  • Planejamento e gestão não se separam. O plano é revisto na ação, não guardado na gaveta.
  • Problemas mal estruturados. O método trata de situações complexas, sem solução previamente conhecida, vistas em várias dimensões: política, econômica, social e cultural.
  • Cenários e planos de contingência. Em vez de uma previsão única, o plano considera surpresas.
  • Situação. A realidade é uma explicação feita por atores a partir de seu lugar. Por isso a ideia de "sala de situação", em que um grupo discute a explicação do problema.

Segundo a literatura brasileira, Matus organiza o trabalho em quatro momentos: explicar o problema, definir o que se quer (normativo), analisar a viabilidade e as estratégias, e agir no dia a dia (tático-operacional). Também usa o chamado triângulo de governo, que liga o projeto de governo, a governabilidade (apoio político) e a capacidade de governo (habilidades técnicas e políticas). Esses detalhes aparecem em fontes secundárias, e quem quiser aplicar o método a fundo deve consultar a obra original.

Por que ajuda no setor público

O PES reconhece o que muitos gestores sentem: a prefeitura não planeja em um laboratório. Há vereadores, servidores, conselhos, órgãos de controle, empresas e comunidade, cada um com interesses. Planos que ignoram esses atores costumam falhar mesmo quando tecnicamente corretos. O método põe o jogo político à mesa, de forma organizada.

Ele também ajuda a trabalhar com a ideia de viabilidade: não basta saber o que seria bom fazer, é preciso avaliar o que é possível, com quais apoios e com que capacidade. Ressalva: o PES não substitui as peças de planejamento previstas em lei, como o plano plurianual e as leis orçamentárias, nem os estudos técnicos e jurídicos. Ele ajuda a decidir que problemas enfrentar e como conduzir o processo.

Como aplicar na prefeitura, passo a passo

  1. Escolha um problema real e concreto. Por exemplo, a demora para liberar alvarás de pequenas obras. Evite temas vagos.
  2. Explique o problema com dados. Quem sofre, onde, desde quando, quais as causas apontadas por diferentes pessoas.
  3. Mapeie os atores. Quem se beneficia, quem perde, quem decide, quem pode bloquear. Anote o que cada um quer e teme.
  4. Defina o resultado desejado. Em termos que possam ser verificados.
  5. Avalie a viabilidade. Há apoio político, orçamento, base legal, equipe e tempo? Marque o que depende de terceiros.
  6. Desenhe a estratégia. Escolha ações e a ordem delas, incluindo negociações, comunicação e formação de apoio.
  7. Prepare as surpresas. Pense no que fazer se um ator mudar de posição ou um prazo atrasar.
  8. Acompanhe e ajuste. Reúna a equipe em intervalos curtos para rever a situação e corrigir o rumo.

Modelo para preencher

Adapte à legislação e à realidade do seu órgão.

Ator O que quer O que teme Pode ajudar ou bloquear? Como vamos dialogar
         
         
         

Complemente com uma segunda ficha, de três linhas: projeto (o que queremos fazer), apoio (quem permite fazer) e capacidade (com que equipe e recursos). Marque em cada uma se é forte, média ou fraca.

Exemplo prático

Exemplo hipotético, para ilustrar. Uma prefeitura quer reorganizar o ordenamento do comércio ambulante em uma área central.

  • Problema: conflito entre comerciantes estabelecidos, ambulantes e pedestres, com reclamações constantes.
  • Atores: ambulantes (querem renda e permanência), lojistas (querem circulação e ordem), vereadores (sensíveis aos dois lados), fiscalização (precisa de regras claras) e moradores.
  • Viabilidade: há apoio parcial. A capacidade de fiscalização é fraca e a norma atual é antiga.
  • Estratégia: começar por escuta organizada com os grupos, propor uma regra clara e testar em uma rua, com acompanhamento e comunicação transparente.

O triângulo mostra que a ideia é boa, mas o apoio e a capacidade ainda são frágeis. A equipe prepara primeiro o diálogo e o treinamento da fiscalização, e só depois lança a regra.

Erros comuns

  • Ignorar os atores. Planos que não olham para quem pode bloquear costumam parar.
  • Tratar o PES como burocracia. O método vive de conversa e acompanhamento, não de formulários.
  • Confundir viabilidade com otimismo. Avalie com franqueza o apoio e a capacidade.
  • Esquecer a lei. Estratégia política não substitui competência, procedimento e transparência.
  • Transformar o mapa de atores em arma. O objetivo é dialogar e construir apoio, não classificar adversários. Trate as informações com cuidado e respeito.

Perguntas frequentes

O PES é de qual país?

É um método latino-americano, criado pelo chileno Carlos Matus e muito estudado no Brasil.

Qual a diferença para o planejamento tradicional?

O planejamento tradicional assume que o problema é bem conhecido e que o plano será seguido. O PES considera atores, conflitos e surpresas.

Serve para câmaras?

Serve para temas que envolvem muitos atores, como processos legislativos complexos ou reformas regimentais.

Preciso aplicar todos os passos?

Não. Uma versão enxuta, com explicação do problema, mapa de atores e avaliação de viabilidade, já ajuda.

Fontes

  1. Planejamento Estratégico Situacional: um instrumento para formação e gestão de políticas públicas — Revista Gestão Pública: Práticas e Desafios (UFPE), 10/05/2017
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