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Boa política pública: três testes que Harvard propõe

Em resumo

Douglas Elmendorf, então reitor da Harvard Kennedy School, afirma que uma boa política pública precisa passar por três testes: ser tecnicamente correta, administrativamente viável e politicamente sustentável. Evidência é necessária, mas não basta; sem execução e sem honestidade com o eleitor, a confiança no governo se perde.

O que faz uma boa política pública? Para Douglas Elmendorf, que foi reitor da Harvard Kennedy School (HKS) por quase nove anos, não basta ter razão técnica. No episódio Public policy, values, and politics: Why so much depends on getting them right, do PolicyCast da escola, publicado em 25 de abril de 2024, com apresentação de Ralph Ranalli, ele apresenta um roteiro de exigências que serve a qualquer gestor, em qualquer nível de governo.

A ideia em resumo

Elmendorf parte da premissa de que políticas públicas afetam profundamente a vida das pessoas: boas melhoram, ruins causam danos sérios. Acertar exige evidência, especialistas humildes, execução viável, legitimidade política e líderes honestos com os eleitores. O núcleo são três critérios que, segundo ele, a HKS ensina há muitos anos. Uma política precisa ser:

  • tecnicamente sólida, ou seja, baseada em evidência sobre se a ação A leva ao resultado B;
  • administrativamente viável, isto é, executável pelos órgãos que existem, com as pessoas e os recursos que existem;
  • politicamente sustentável, com apoio suficiente para durar e legitimidade para ser aceita.

Ele acrescenta que a evidência, sozinha, não decide o que fazer: valores informam toda escolha. Políticos eleitos escolhem entre valores, e os especialistas esclarecem as consequências de cada opção. Na prática, isso exige que os especialistas expliquem em linguagem simples e admitam que a evidência costuma indicar probabilidades, e não certezas.

O que o episódio mostra

O convidado defende que parte da desconfiança do público é fundada: muitas pessoas sentem que os ganhos econômicos foram mal distribuídos, e uma parte da culpa atribuída aos especialistas é justa, enquanto outra é equivocada, já que ninguém resolve todos os problemas. Ele também destaca a execução: a escola passou a dar mais ênfase à gestão pública, com um curso básico sobre fazer as coisas acontecerem no setor público, porque a má implementação corrói a confiança na democracia. O apresentador lembra a saída dos Estados Unidos do Afeganistão, uma decisão amplamente apoiada, mas mal executada, e Elmendorf responde falando da importância da execução. É uma conversa, e não uma análise sistemática.

Elmendorf fala ainda de uma habilidade que a escola busca ensinar, a de discordar de forma franca e construtiva, com uma máxima que ele cita, “tough on the issues and easy on the people”, ou seja, firme com os temas e gentil com as pessoas. Escutar quem pensa diferente, diz ele, melhora o respeito e a qualidade do próprio raciocínio.

Como aplicar no Brasil

Os três testes cabem como filtro antes de enviar um projeto à Câmara, lançar um programa ou assinar um decreto. A Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro (art. 20) reforça a lógica: nas esferas administrativa, controladora e judicial, não se decide com base em valores jurídicos abstratos sem considerar as consequências práticas da decisão, e a motivação deve demonstrar a necessidade e a adequação da medida, inclusive em face das alternativas. Um roteiro:

  1. Escreva o problema e a hipótese em duas frases. "Se fizermos X, esperamos Y, porque Z." Se não houver Z, busque evidência: estudos, experiência de outros municípios, dados próprios.
  2. Teste técnico. Que dados sustentam a medida? O que ainda não se sabe? Diga o grau de incerteza em vez de prometer certeza.
  3. Teste administrativo. Quem executa? Há equipe, sistema, orçamento e prazo? Faça o estudo de impacto orçamentário e financeiro quando exigido e ouça quem fará o trabalho na ponta.
  4. Teste político. Quem apoia, quem perde e como se comunica? Prefeito e vereadores precisam de uma explicação simples, não de um parecer técnico.
  5. Planeje a execução desde o início. Responsável nominal, cronograma, indicadores e revisão a cada trimestre.
  6. Pratique a escuta. Antes de decidir, ouça os contrários e registre as objeções e como foram tratadas.

Um bom hábito é pedir que cada projeto importante chegue ao gabinete com uma página sobre os três testes, em que cada um recebe uma nota de "passa", "passa com ressalvas" ou "não passa".

Cuidados e limites

É uma conversa em que o dirigente fala em nome de sua escola, num contexto promocional, e as afirmações são de caráter geral, com poucos estudos formais por trás. O episódio não traz recomendações específicas para os temas que cita, e o exemplo do Afeganistão foi trazido pelo apresentador. Os três testes são um filtro, não uma fórmula: uma política pode passar em dois e falhar em um, e cabe ao decisor ponderar. No Brasil, é preciso ainda observar competências, a LRF e o controle externo. Este texto é uma leitura própria da Evoluta, feita por profissionais com formação pela Harvard Kennedy School, sem vínculo da empresa com a HKS.

Para estruturar o ciclo da política, do diagnóstico à execução, conheça o curso de planejamento de políticas públicas, o de liderança e gestão estratégica no setor público e o serviço de estudo de impacto orçamentário e financeiro (LRF).

Conteúdo independente da Evoluta, inspirado em publicações da Harvard Kennedy School of Government, a escola de governo da Universidade Harvard que inspira a Escola de Governo da Evoluta. Publicação original indicada nas fontes; a Evoluta não tem vínculo institucional com a Universidade Harvard.

Fontes

  1. Public policy, values, and politics: Why so much depends on getting them right (PolicyCast com Douglas Elmendorf) — Harvard Kennedy School PolicyCast, 25/04/2024
  2. Decreto-Lei nº 4.657/1942 (LINDB), art. 20 — Planalto, 04/09/1942
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