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Capacidade de dados na prefeitura: o elo que falta, segundo Harvard

Em resumo

Estudo de pesquisadores da Harvard Kennedy School aponta um elo que falta na governança baseada em dados: não bastam sistemas nem servidores qualificados, é preciso a capacidade coletiva das equipes que coletam, tratam, compartilham e usam dados para resolver problemas públicos.

Muitas prefeituras já têm sistemas, planilhas e painéis. Mesmo assim, as decisões continuam sendo tomadas pelo faro. Um artigo recente de pesquisadores ligados à Harvard Kennedy School (HKS) sugere o motivo: falta uma capacidade coletiva de dados nas equipes que lidam com problemas públicos.

A ideia em resumo

O estudo The “missing link” in data-informed governance, de Fernando Fernandez-Monge, Quinton Mayne e Jorrit de Jong, saiu na revista Data & Policy (volume 8, artigo e52, 29 de setembro de 2026). A tese é que a pesquisa sobre governos orientados por dados segue duas trilhas que não se encontram: uma olha a organização (estruturas e recursos), a outra olha o indivíduo (competências e comportamento diante dos dados). Entre as duas está o elo ausente: a capacidade de grupos que, de forma coordenada, coletam, processam, compartilham e usam dados para enfrentar um problema.

O resumo lembra por que isso importa: dados podem gerar serviços mais eficazes, uso mais eficiente de recursos, benefícios mais equitativos e mais transparência e prestação de contas.

O que a pesquisa mostrou

Os autores fizeram um estudo de casos comparado e exploratório com equipes que usam dados para lidar com imóveis degradados e abandonados em três cidades americanas. O objetivo foi identificar os componentes dessas capacidades, os fatores que as favorecem e seus efeitos. O resumo público diz que o trabalho traz achados sobre os três pontos, mas não os detalha, e não informa números. A conclusão é que o conceito proposto é mais fácil de operacionalizar e pode aproximar as duas linhas de pesquisa.

Um segundo texto do GPL, Measuring What Matters (junho de 2026), mostra o problema na prática, em outro setor. Gestores de programas de resposta alternativa a chamadas de emergência não conseguem responder a perguntas simples de prefeitos e vereadores porque os dados estão em sistemas diferentes, são definidos de modos distintos ou nem são registrados. A saída proposta é um dicionário de dados e um guia de cálculo de indicadores compartilhado.

Como aplicar no Brasil

A leitura para o gestor brasileiro é que investir em painel sem investir em equipe e em rotina costuma frustrar. Um caminho para começar:

  1. Parta de um problema, não de uma ferramenta. Imóveis com IPTU em atraso, filas na atenção básica, buracos reincidentes, absenteísmo escolar. Um problema concreto reúne as áreas certas.
  2. Forme uma pequena equipe mista. Alguém de cada área que detém os dados (tributos, obras, saúde, educação), mais quem decide. Defina um responsável e um encontro regular.
  3. Mapeie quem coleta, quem trata, quem compartilha e quem usa. É onde a informação costuma travar: planilhas locais, sistemas que não conversam, ninguém que “assina” o dado.
  4. Padronize as definições. Antes de calcular um indicador, escreva o que entra na conta, de qual sistema vem e quem atualiza. Esse dicionário curto evita discussões improdutivas na reunião.
  5. Decida com o dado e registre. A cada ciclo, a equipe diz qual decisão tomou por causa do número. Se nenhuma, o indicador está sobrando.
  6. Respeite a proteção de dados pessoais. Cruzar bases de saúde, assistência e cadastros exige base legal, finalidade clara e controle de acesso conforme a LGPD.

Um paralelo brasileiro: o imóvel abandonado

O tema estudado, imóveis degradados e abandonados, tem equivalente conhecido no Brasil: terreno sujo, casa fechada com IPTU em atraso, foco de dengue, risco de ocupação irregular. Resolver exige tributos, fiscalização, obras, saúde e assistência social olhando o mesmo endereço, e nenhuma dessas áreas sozinha tem o quadro completo. O que o estudo sugere é que o ganho vem de uma equipe conjunta que saiba coletar, tratar, compartilhar e usar as informações sobre o mesmo imóvel. O paralelo é ilustração da Evoluta; o resumo da pesquisa não descreve os casos em detalhe.

Cuidados e limites

O estudo trata de três cidades dos Estados Unidos e de um tema específico, e o resumo disponível não descreve os componentes encontrados; é preciso ler o artigo completo antes de transformar qualquer conclusão em regra. A lógica do elo coletivo é plausível e converge com a experiência de gestão, mas a aplicação ao Brasil é uma adaptação da Evoluta, e não resultado do estudo. Jorrit de Jong, o autor ligado à HKS, dirige o Bloomberg Center for Cities da escola. Este texto é uma leitura própria da Evoluta, sem vínculo da empresa com a instituição.

Conteúdo independente da Evoluta, inspirado em publicações da Harvard Kennedy School of Government, a escola de governo da Universidade Harvard que inspira a Escola de Governo da Evoluta. Publicação original indicada nas fontes; a Evoluta não tem vínculo institucional com a Universidade Harvard.

Fontes

  1. The “missing link” in data-informed governance: An exploratory study of data-related capabilities (Fernandez-Monge, Mayne, de Jong) — Harvard Kennedy School; Data & Policy, v. 8, e52, 29/09/2026
  2. Measuring What Matters: Alternative Response Programs — Harvard Kennedy School Government Performance Lab, 01/06/2026
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