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Colaboração entre áreas: como começar por um ponto de entrada

Em resumo

Jorrit de Jong, da Harvard Kennedy School, e Amy Edmondson, da Harvard Business School, explicam no PolicyCast por que problemas urbanos complexos exigem colaboração entre órgãos e como começar: achar um ponto de entrada pequeno, relevante e provisório, e tratar as primeiras ações como aprendizado.

Nenhuma secretaria resolve sozinha a situação de rua, o crime organizado ou a falta de moradia. Esses problemas atravessam fronteiras, e a colaboração entre áreas é a única saída, mas é difícil de fazer. O episódio Need to solve an intractable problem? Collaboration is hard but worth it, do PolicyCast da Harvard Kennedy School (HKS), de 9 de novembro de 2023, traz dois especialistas no tema: Jorrit de Jong, diretor do Bloomberg Center for Cities, e Amy Edmondson, professora da Harvard Business School conhecida por seus estudos sobre trabalho em equipe e segurança psicológica. A apresentação é de Ralph Ranalli. De Jong também é copresidente do corpo docente da Bloomberg Harvard City Leadership Initiative, programa que, desde 2017, oferece formação em liderança e gestão a prefeitos e dirigentes municipais.

A ideia em resumo

Segundo os convidados, as fronteiras a atravessar podem ser entre setores, departamentos, profissões ou níveis hierárquicos, e os parceiros típicos são governo, organizações sociais, empresas, universidades e, às vezes, moradores. Eles apontam três barreiras recorrentes: concordar sobre como definir o problema; formar uma equipe com segurança suficiente para trabalhar o que ainda ninguém sabe; e lidar com prestações de contas conflitantes, já que cada participante responde à sua organização de origem.

A saída proposta é começar por um ponto de entrada, avaliado por uma sigla em inglês, MAAP: precisa ser significativo, aceitável para os envolvidos, viável de executar e provisório. Em vez de tentar resolver o problema inteiro, o grupo escolhe uma porta pequena e trata o que fizer ali como experimento. Os dois descrevem o desafio inicial como um dilema de ovo e galinha: as organizações só se comprometem se virem valor, mas o valor só aparece depois de colaborar. Sobre a dificuldade, Edmondson diz: “it’s much, much easier to fail than to succeed in this domain”.

O que o episódio mostra

Dois casos ilustram o método. Em Manchester, no estado americano de New Hampshire, a cidade enfrentava ao mesmo tempo moradores de rua e abuso de opioides, sem dados sobre a sobreposição entre os dois, enquanto comerciantes do centro se preocupavam com a mendicância. O grupo escolheu a mendicância como ponto de entrada: quem fosse retirado da área seria encaminhado a tratamento e abrigo, e a cidade aprenderia com as necessidades dessas pessoas. A coalizão fortaleceu pedidos de recursos e, mais tarde, levou a mudanças na estrutura do governo. O trabalho continua.

Em Breda, na Holanda, as autoridades suspeitavam que o crime organizado usava casas de moradores para cultivo ilegal de maconha. O policiamento tradicional falhava porque os moradores desconfiavam da polícia. Uma equipe formada por concessionária de energia, prefeitura e órgão tributário encontrou a entrada na segurança contra incêndio: servidores passaram a visitar as casas com informações sobre o tema, o que gerou confiança e acesso ao problema.

Os convidados fazem ainda duas recomendações. Para quem autoriza esses grupos (prefeitos, secretários, diretores), de Jong sugere cobrar aprendizado e iteração, não entregas fixas. Edmondson defende recursos iniciais para colaborações exploratórias, pois o dinheiro costuma ir só para o que já se provou. Eles admitem que problemas desse tipo são atenuados, não resolvidos, e que o caso de Manchester ainda está em andamento.

Como aplicar no Brasil

O método não exige norma nova: depende de decisão do prefeito e de condução do gabinete. Um roteiro:

  1. Nomeie o problema complexo que nenhuma pasta resolve sozinha, como população em situação de rua, evasão escolar, dengue, violência contra a mulher ou alagamentos.
  2. Monte um grupo pequeno de pessoas da ponta de três ou quatro áreas, mais um parceiro de fora (universidade, associação, empresa, conselho). Inclua servidores que atendem de fato.
  3. Liste três pontos de entrada e teste com o MAAP. É significativo para o cidadão? Os envolvidos aceitam? Dá para agir em 60 ou 90 dias? É provisório, ou seja, pode mudar se não funcionar?
  4. Dê autorização clara, por escrito, ao grupo, com poder para testar ações pequenas e com acesso ao prefeito ou ao secretário-executivo.
  5. Combine um linguajar comum. Siglas e termos técnicos de cada secretaria atrapalham; vale ter um glossário de uma página e deixar espaço para dizer "não sei".
  6. Peça aprendizado, não relatório de atividades. A cada 30 dias, o grupo apresenta o que tentou, o que funcionou e o que mudará.
  7. Formalize o que deu certo em decreto, protocolo ou plano de trabalho, só depois de testado.

Cuidados e limites

É uma conversa de podcast, com evidências baseadas em estudos de caso de cidades, e os próprios convidados dizem que oferecem ideias, não respostas definitivas. A aplicação a problemas nacionais ou internacionais é, segundo eles, uma hipótese ainda não pesquisada. Nenhum caso aqui é uma promessa de resultado: depende de liderança, de confiança e de tempo. No Brasil, compartilhar dados e recursos entre pastas pode exigir amparo legal e cuidados com a LGPD. Este texto é uma leitura própria da Evoluta, feita por profissionais com formação pela Harvard Kennedy School, sem vínculo da empresa com a HKS.

Para destravar a articulação entre áreas na sua prefeitura, conheça o serviço de integração de processos entre áreas, o de estruturação de projetos estratégicos e o curso de liderança adaptativa na gestão pública.

Conteúdo independente da Evoluta, inspirado em publicações da Harvard Kennedy School of Government, a escola de governo da Universidade Harvard que inspira a Escola de Governo da Evoluta. Publicação original indicada nas fontes; a Evoluta não tem vínculo institucional com a Universidade Harvard.

Fontes

  1. Need to solve an intractable problem? Collaboration is hard but worth it (PolicyCast) — Harvard Kennedy School PolicyCast, 09/11/2023
  2. Strengthening leaders and cities — Harvard Kennedy School (Bloomberg Harvard City Leadership Initiative), 01/03/2025
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