Em municípios pequenos, a pessoa em crise de saúde mental costuma acabar onde há porta aberta: pronto-socorro, viatura ou delegacia. Foi o que o Government Performance Lab (GPL), da Harvard Kennedy School (HKS), encontrou no condado de Gregg, no Texas, e registrou no policy brief “Creating Diversion Pathways to Strengthen Behavioral Health Support in Rural Jurisdictions”, de outubro de 2021. O texto descreve como o condado montou um caminho de desvio para cuidar da crise em saúde mental no interior, com poucos recursos.
A ideia em resumo
O condado tem cerca de 125 mil habitantes. A procura por atendimento psiquiátrico (6,4 por mil habitantes) superava as médias do estado (4,5) e do país (4,8), e cadeia e pronto-socorro funcionavam como unidade de estabilização. Em três meses de 2019, houve cerca de 17 idas ao pronto-socorro e aproximadamente 300 horas de policiais gastas em transporte ou espera. A resposta foi um centro de avaliação comunitário, aberto em 2019, para onde as pessoas são levadas depois de triagem à distância.
O que a experiência mostrou
- Triagem remota. Policiais, bombeiros e socorristas usam um aplicativo para falar com um profissional de saúde mental, que decide se a pessoa é adequada ao desvio. Aprovada, ela é levada ao centro, e o agente pode voltar logo ao patrulhamento. Antes, um policial podia esperar até 21 horas no pronto-socorro.
- Critérios construídos com a linha de frente. Policiais indicaram os tipos de chamada mais comuns, e a equipe de saúde treinou os agentes sobre os serviços do centro. Isso permitiu criar perfis típicos e critérios de elegibilidade.
- Estrutura reaproveitada. O centro funciona em uma clínica já existente, perto de dois hospitais, com farmácia. Equipe com formação em saúde mental e primeiros socorros em saúde mental resolve várias necessidades no mesmo lugar.
- Triagem imediata. Uma enfermeira faz a avaliação de crise, os primeiros cuidados e a checagem física, e define o caminho: tratamento em regime de internação ou ambulatorial, ou volta para casa com acompanhamento. Quem precisa de cuidado intensivo de curto prazo não passa antes pelo hospital.
- Acompanhamento. Depois do atendimento, a pessoa é convidada ao acompanhamento por gestor de caso e a apoios de longo prazo, como aconselhamento sobre drogas, terapia e moradia.
- Dimensão do problema e primeiros números. Policiais, bombeiros e socorristas gastavam mais de 104 dias por ano no transporte de pessoas em crise. No primeiro ano, o centro atendeu mais de 50 pessoas diferentes, apesar da pandemia.
Como aplicar no Brasil
- Calcule o custo da crise sem rede. Some horas de guarda municipal, SAMU, viaturas e pronto-socorro gastas com ocorrências de saúde mental. O número ajuda a justificar o investimento.
- Parta da rede existente. Verifique com a secretaria de saúde se um serviço já instalado (unidade básica, centro de atenção psicossocial, pronto atendimento) pode ser o ponto de entrada, com equipe treinada para acolhimento imediato.
- Use a telessaúde ou um canal direto para que o agente de campo converse com um profissional antes de decidir o destino, observando a regulamentação de saúde e a proteção de dados.
- Construa critérios com os agentes de campo (guarda, SAMU, bombeiros, polícia) e treine todos sobre o que o serviço oferece.
- Preveja o seguimento. A crise passa, a necessidade fica: combine gestão de caso, apoio de assistência social e moradia.
- Em consórcio ou região de saúde, considere um serviço compartilhado entre municípios pequenos.
Cuidados e limites
O brief se baseia em entrevistas com atores locais, e os números iniciais (50 pessoas atendidas no primeiro ano) são pequenos e descritivos; não mostram redução de custo, de reinternações ou de prisões. O modelo depende de a pessoa aceitar o tratamento e de haver profissionais disponíveis, justamente o que falta em áreas rurais. No Brasil, o atendimento à crise de saúde mental segue a organização do SUS, e a internação psiquiátrica só pode ser feita mediante laudo médico circunstanciado (art. 6º da Lei 10.216/2001). Decidir para onde levar a pessoa cabe a profissionais de saúde, não ao agente de campo. Este texto é uma leitura própria da Evoluta, feita por profissionais com formação pela Harvard Kennedy School, sem vínculo da empresa com a HKS.



