Quantas vagas de creche uma cidade precisa abrir? A resposta costuma vir de metas nacionais, de listas de espera ou da pressão do momento. Em agosto de 2026, Jeffrey Liebman, professor da Harvard Kennedy School (HKS) e diretor do Taubman Center, publicou um documento de trabalho que propõe medir o desejo das famílias por meio de uma pesquisa. A leitura aqui se baseia no resumo da página da HKS; o texto completo e o relatório complementar de custos não foram lidos.
A ideia em resumo
Em janeiro de 2026, 53% das crianças de Massachusetts abaixo da idade do jardim de infância estavam em educação e cuidado formais, como centros, provedores familiares licenciados ou escolas. O estudo pergunta qual meta de matrícula a política pública deveria perseguir, 60%, 70% ou 80%, e qual mistura de tipos de atendimento oferecer. Para isso, o autor foi diretamente às famílias.
O que a pesquisa mostrou
A pesquisa ouviu 1.001 mães de crianças de 0 a 4 anos. Perguntou sobre arranjos atuais, forma de pagamento, satisfação, volta ao trabalho após o parto, preferência entre dinheiro e vaga subsidiada e opiniões gerais. Segundo o resumo:
- Entre famílias que não usam atendimento formal, 78% afirmam que usariam se fosse gratuito; a mediana seria de 25 horas semanais.
- Entre as que já usam, 68% usariam mais horas se fosse gratuito.
- Se o custo não fosse um fator, 53% escolheriam centros, 17% provedores familiares licenciados e 18% escolas.
- No total, 89% usariam ao menos algum atendimento formal, contra 53% hoje. A procura varia pouco com a idade da criança: mesmo entre pais de bebês, 85% usariam algum atendimento.
O resumo não descreve amostragem nem margem de erro. Os resultados partem de cenários hipotéticos, do tipo se fosse gratuito, e o comportamento real pode mudar diante de transporte, horários e vagas. Só mães foram ouvidas, e o trabalho trata de um estado americano.
O valor do exercício, para quem decide, está em separar três perguntas que costumam aparecer misturadas: quantas famílias querem o serviço, que tipo de atendimento preferem e quanto o poder público está disposto a financiar. Cada uma pede um dado diferente e, ao responder uma por vez, a discussão sobre metas fica menos baseada em palpite.
Como aplicar no Brasil
No Brasil, a educação infantil em creche e pré-escola, para crianças de até 5 anos, é dever do Estado (Constituição, art. 208, IV), e os municípios devem atuar prioritariamente no ensino fundamental e na educação infantil (art. 211, § 2º). A fila de espera mostra a demanda manifesta; uma pesquisa mostra a demanda que ainda não apareceu. Passos práticos:
- Junte o que já existe. Cadastro de interessados em vaga, nascimentos por bairro, matrículas, vagas ociosas e capacidade por unidade.
- Faça uma pesquisa curta com famílias de diferentes territórios, ouvindo também pais e outros responsáveis: horário de que precisam, distância aceitável, razões para não usar e preferência por tipo de atendimento.
- Separe demanda e viabilidade. Diferencie quanto as famílias dizem que usariam de quanto seria viável ofertar, em prédios, equipe e custeio.
- Teste cenários de meta com custo estimado por vaga e por ano, e inclua o impacto na folha e no orçamento; quando a ampliação criar despesa obrigatória de caráter continuado, o ato deve trazer a estimativa de impacto orçamentário e financeiro e a origem dos recursos (arts. 16, I, e 17, § 1º, da Lei de Responsabilidade Fiscal).
- Monitore o que pesa na escolha: distância, horário e transporte, que podem explicar a vaga vazia.
- Comunique a pesquisa à comunidade e informe como ela foi usada.
Pesquisa com famílias envolve dados pessoais; colete só o necessário, informe a finalidade e peça apoio ao encarregado (princípios da finalidade e da necessidade, art. 6º, I e III, da LGPD).
Cuidados e limites
As respostas descrevem intenção, não uso efetivo; a demanda real pode ser menor diante de custos de deslocamento e horários. Como o resumo não traz margem de erro nem método de amostragem, os percentuais servem de ilustração, não de parâmetro para outro país. O estudo de Massachusetts também não discute custos, que estão em outro documento. Metas locais devem se apoiar em dados da própria cidade. Este texto é uma leitura própria da Evoluta, feita por profissionais com formação pela Harvard Kennedy School, sem vínculo da empresa com a HKS.



