Contato

Mortalidade materna na Índia: capacidade vale mais que receita

Em resumo

Matt Andrews, da Harvard Kennedy School, analisou a redução da mortalidade materna na Índia desde os anos 1980 e concluiu que o avanço veio de expansões sucessivas da capacidade do sistema, e não da aplicação de uma única solução. A leitura convida gestores brasileiros de saúde a investir em capacidade local, além de protocolos.

Quando um município quer reduzir a mortalidade materna, a primeira reação é buscar a “melhor prática”: um protocolo, um programa, uma tecnologia. Matt Andrews, senior lecturer em desenvolvimento internacional da Harvard Kennedy School (HKS), defende em um working paper de abril de 2026 que isso não basta. No texto “Beyond Solutions: Capability, Development Frontiers, and the Process of Good Change”, ele usa a redução da mortalidade materna na Índia como caso para sustentar que a capacidade do sistema de saúde e de seus atores pesa mais do que a escolha da política correta. A análise a seguir se baseia no resumo, não no texto completo.

A ideia em resumo

O autor define desenvolvimento como “boa mudança”: melhorias duradouras, obtidas por meio de resolução adaptativa de problemas em contextos sociais específicos. Resultados desse tipo dependem mais de construir capacidade (a habilidade, com poder para agir, de indivíduos, organizações e sociedades) do que de adotar as políticas “certas”. Pelo resumo, o paper se apoia em economia do desenvolvimento, teoria das organizações e economia política e propõe que o desenvolvimento avança por “fronteiras de capacidade” sucessivas, nas quais o progresso depende cada vez mais de aprendizado e coordenação construídos localmente.

O que o estudo mostrou

A evidência vem de um rastreamento de processo da queda da mortalidade materna na Índia, das décadas de 1980 até o presente. Segundo o resumo, as melhorias sustentadas resultaram de expansões sucessivas da capacidade do sistema, e não da implementação de uma única solução. A conclusão do autor é que a prática de cooperação internacional deveria priorizar o fortalecimento de capacidades em vez da transferência de intervenções técnicas.

O resumo não detalha quais capacidades foram ampliadas em cada etapa, nem apresenta números. Por isso esta matéria não afirma, por exemplo, que determinada política teve ou não efeito na Índia. O que ela retém é o argumento central, que conversa com a literatura sobre PDIA (adaptação iterativa orientada a problemas), também de Andrews: problemas complexos pedem ciclos de tentativa, aprendizado e ajuste, e não uma receita pronta.

Como aplicar no Brasil

O Brasil já tem protocolos, indicadores e redes de atenção à gestante. O desafio municipal costuma ser outro: fazer o que já se sabe funcionar de forma consistente. A leitura do paper sugere perguntas práticas para secretarias de saúde.

  • Separe o que falta: solução ou capacidade? Se o protocolo existe, mas a equipe não o aplica, o problema é capacidade, não falta de política.
  • Mapeie os gargalos do percurso da gestante, do pré-natal ao parto e ao puerpério: vagas, transporte, exames, contrarreferência, registro. Procure o elo mais fraco, não só a média.
  • Use as ocorrências como aprendizado. Casos graves e óbitos, quando investigados em comitês e equipes com método e sigilo, ajudam a identificar falhas do sistema, e não culpados.
  • Organize ciclos curtos de melhoria com a equipe da ponta: escolher um problema, testar uma mudança por algumas semanas, medir e ajustar, em vez de lançar um grande programa.
  • Dê autonomia e apoio a quem opera. Equipes de atenção primária precisam de poder para resolver pequenos entraves e de quem as escute na gestão.
  • Construa capacidade em etapas. Defina para cada ano a próxima “fronteira”: por exemplo, primeiro o cadastro e a busca ativa de gestantes, depois a classificação de risco, depois a integração com o hospital de referência.

Cuidados e limites

É um paper conceitual, e só o resumo foi lido. Ele analisa um país muito diferente do Brasil, em um período de décadas, e o resumo não informa dados, nem limitações. A conclusão de que capacidade importa mais que “soluções” é uma tese do autor, em debate na área. Em saúde, protocolos baseados em evidência continuam sendo essenciais: a ideia não é abrir mão deles, mas garantir que a equipe e o sistema consigam aplicá-los. Metas para a mortalidade materna dependem de dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade e dos serviços de saúde locais, que devem ser consultados com a vigilância epidemiológica. Este texto é uma leitura própria da Evoluta, feita por profissionais com formação pela Harvard Kennedy School, sem vínculo da empresa com a HKS.

Conteúdo independente da Evoluta, inspirado em publicações da Harvard Kennedy School of Government, a escola de governo da Universidade Harvard que inspira a Escola de Governo da Evoluta. Publicação original indicada nas fontes; a Evoluta não tem vínculo institucional com a Universidade Harvard.

Fontes

  1. Beyond Solutions: Capability, Development Frontiers, and the Process of Good Change — Harvard Kennedy School, BSC Working Paper Series (Matthew Andrews), 01/04/2026
  2. Beyond Solutions (repositório DASH, Harvard) — Harvard University, DASH, 01/04/2026
Fale no WhatsApp