Quantas prefeituras já adotaram um sistema, um decreto ou um plano “modelo” e viram o dia a dia continuar igual? O PDIA (sigla em inglês para adaptação iterativa orientada a problemas) nasceu para explicar essa frustração e oferecer uma alternativa. Seus autores são Matt Andrews, Lant Pritchett e Michael Woolcock, ligados à Harvard Kennedy School (HKS), e a abordagem vem sendo aplicada e estudada há anos.
A ideia em resumo
No artigo-base Escaping Capability Traps through Problem-Driven Iterative Adaptation (PDIA) (agosto de 2012, working paper RWP12-036), os autores descrevem o que chamam de armadilha de capacidade. Governos adotam a aparência da reforma, como novas políticas ou formas de organização, sem mudar o que realmente fazem (o chamado mimetismo isomórfico). Como os recursos e a legitimidade continuam chegando mesmo sem resultado medido, falta pressão para construir capacidade real. O desempenho do Estado fica estagnado, às vezes piora, enquanto o discurso segue desenvolvimentista.
A alternativa, o PDIA, se apoia em quatro princípios:
- Resolver problemas definidos localmente, em vez de importar soluções pré-embaladas;
- Permitir desvios e experimentação, em vez de exigir a execução exata de um desenho;
- Aprender em ciclos curtos de feedback, em vez de esperar avaliações lentas e retrospectivas;
- Envolver grupos amplos de interessados, para que a reforma seja viável, crível e sustentável.
O que a pesquisa mostrou
O artigo de 2012 é uma proposta conceitual. Mais de uma década depois, em julho de 2026, Matt Andrews e Salimah Samji publicaram Can Outsiders Help Build State Capability? Lessons from Ted Lasso, que reflete sobre quase duas décadas de experiência com o PDIA. Eles definem capacidade como a habilidade empoderada dos agentes do Estado de transformar capacidade formal em desempenho, e argumentam que ela se desenvolve em repetidos ciclos de ação, reflexão, experimentação e adaptação. O papel de quem vem de fora, como consultores e financiadores, seria criar condições para que os próprios servidores aprendam e descubram suas capacidades, e não entregar produtos, planos ou conselhos técnicos prontos. O texto não é um estudo empírico, e a página não traz números.
Como aplicar no Brasil
O PDIA é, na prática, um modo de conduzir projetos difíceis, justamente os que travam em prefeituras: implantação de sistema, reestruturação de carreira, mudança de fluxo, reforma administrativa. Um roteiro adaptado pela Evoluta:
- Escreva o problema em uma frase e em termos de desempenho, não de solução: “o alvará leva 60 dias” é problema; “falta um sistema de alvarás” não é.
- Forme uma equipe pequena e mista, com quem vive o problema na ponta e quem pode autorizar mudanças.
- Combine a autorização para tentar. O prefeito ou o secretário dão o aval por escrito para testar, dentro da lei, em escala pequena.
- Divida o trabalho em ciclos curtos, de duas a seis semanas, com uma entrega visível ao fim de cada um.
- Reúna-se ao final de cada ciclo para decidir: manter, ajustar ou abandonar.
- Documente o aprendizado e amplie só o que funcionou, trazendo mais interessados (servidores, conselhos, fornecedores, usuários).
Para projetos sem solução conhecida, isso costuma render mais do que um plano de dois anos que ninguém consegue executar.
Um exemplo: o alvará que demora
Suponha que o problema seja “o alvará de funcionamento leva 60 dias”. Em vez de comprar um sistema, a equipe reúne quem recebe o pedido, quem analisa, quem fiscaliza e um empreendedor que já passou pelo processo. No primeiro ciclo de duas semanas, mapeiam onde o pedido espera parado e testam uma mudança pequena, como uma checagem prévia de documentos. No segundo ciclo, medem o efeito e ajustam. Se funcionar, ampliam; se não, descartam e tentam outra hipótese. O exemplo é nosso e ilustra os quatro princípios: problema local, liberdade para testar, aprendizado rápido e participação de quem vive o processo.
Cuidados e limites
Experimentar no setor público tem de ser compatível com a legalidade, a licitação, o controle interno e a responsabilidade fiscal. O PDIA não autoriza improviso, e sim testes documentados e supervisionados. Os textos consultados são conceituais, sem comparação de resultados com outros métodos. Este texto é uma leitura própria da Evoluta, feita por profissionais com formação pela HKS, sem vínculo da empresa com a escola.
Para pôr o método em prática, veja o serviço de diagnóstico e retomada de projetos paralisados, o de implantação de melhorias e gestão da mudança e o curso de gestão de projetos e escritório de projetos municipal.



