Parques, praças e áreas verdes aparecem na lei orçamentária como despesa, raramente como patrimônio com valor. A professora Linda Bilmes, da Harvard Kennedy School (HKS), especialista em orçamento e financiamento, discutiu em setembro de 2026 o valor econômico de parques públicos em uma conversa publicada pela HKS com Will Shafroth, ex-presidente de uma fundação ligada ao serviço de parques nacionais dos EUA. Ela retoma um estudo de 2016, de Michelle Haefele, John Loomis e Bilmes, que estimou o valor econômico total do Serviço de Parques Nacionais (NPS). A conversa tem muitos temas de política americana; esta matéria fica nos que servem à gestão de parques municipais.
A ideia em resumo
Bens públicos que a sociedade valoriza, mas que não geram receita direta, tendem a ser subfinanciados. A pesquisa tenta dar a esses bens um número: quanto as pessoas pagariam para mantê-los, mesmo sem visitá-los. Bilmes defende que a forma de orçamentar importa tanto quanto o valor total.
O que a pesquisa e a conversa mostraram
- Valoração. Os estudos de Bilmes e Loomis foram levantamentos de disposição a pagar, e não pesquisas de opinião. Segundo a conversa, os entrevistados pagariam cerca de US$ 92 bilhões (US$ 122 bilhões em valores atuais) para não perder os parques e seus programas, algo como 30 vezes o orçamento federal anual do serviço, de cerca de US$ 3 bilhões.
- Valor sem visita. Mais de 95% afirmaram valorizar o serviço de parques, mesmo sem visitá-los, e mais de 81% disseram que pagariam impostos mais altos para apoiá-los.
- Modelo de financiamento. Para Bilmes, o problema é estrutural: a maior parte do dinheiro vem de dotação anual aprovada pelo Congresso, o que combina mal com uma missão de proteção permanente. Não há um orçamento de capital de verdade, o que acumulou um passivo de manutenção diferida de bilhões de dólares. Ela defendeu, no Congresso, ao menos um orçamento de dois anos.
- Tendência. Segundo Bilmes, o orçamento de 2026 do serviço é 16% menor que o de dez anos antes, com quedas quase todos os anos em valores corrigidos, enquanto visitantes e propriedades aumentaram.
- Pessoas e moradia. O texto cita redução de 20% a 25% da equipe e o problema de moradia acessível para trabalhadores dos parques; em um parque, para 275 servidores, cerca de 3 mil pessoas trabalham diariamente como guias e intérpretes.
- Filantropia. Doações e grupos de amigos ajudam a preencher lacunas, mas, segundo Bilmes, não substituem o financiamento público. Segundo Shafroth, cerca de 80% das taxas de entrada ficam no próprio parque, e 20% vão para o sistema.
Como aplicar no Brasil
Parques naturais municipais são unidades de conservação criadas pelos municípios; a Lei do SNUC (Lei 9.985/2000, art. 11, § 4º) prevê a denominação “Parque Natural Municipal” para o parque criado por município, com visitação sujeita ao plano de manejo e às normas do órgão gestor (§ 2º). Além deles, praças e áreas verdes têm custo contínuo de manutenção. As ideias do estudo podem ser adaptadas assim:
- Dê um valor ao patrimônio. Faça um inventário de parques e praças com estado de conservação, uso e custo anual de manutenção, e estime o passivo de manutenção atrasada.
- Pesquise a disposição a pagar com método. Um levantamento simples com moradores, inclusive os que não frequentam, mostra o valor percebido e pode ajudar a justificar a despesa na audiência da LOA.
- Planeje manutenção em ciclos plurianuais. Inclua no PPA e na LDO metas de manutenção e reforma, e não apenas obras novas. A despesa com conservação é continuada e precisa de estudo de impacto orçamentário.
- Separe custeio de investimento no orçamento e mantenha uma reserva ou fundo de conservação, com regras claras.
- Combine fontes, com cuidado: taxas de uso, quando a lei local permitir, compensações ambientais, convênios, parcerias com organizações da sociedade civil e concessões ou permissões de serviços, como lanchonetes e atividades de lazer, sempre por licitação ou chamamento.
- Cuide das pessoas que trabalham no parque: equipe de zeladoria, guarda ambiental e educadores, com capacitação e condições de trabalho.
Cuidados e limites
Os números são de pesquisas feitas com americanos sobre um sistema de parques nacionais de escala muito diferente da de um município brasileiro, e o estudo de 2016 usa preços e hábitos da época; a página do estudo não detalha a técnica de valoração. Valores de disposição a pagar são declarados, não pagos, e não equivalem a receita. Cobrança de ingresso ou concessão exige autorização legal, estudos de viabilidade e respeito à função social do espaço público, evitando excluir quem não pode pagar. A conversa trata ainda de decisões políticas do governo americano que esta matéria não discute. Este texto é uma leitura própria da Evoluta, feita por profissionais com formação pela Harvard Kennedy School, sem vínculo da empresa com a HKS.



