Decidir com dados é a base das cidades orientadas por dados, e o programa What Works Cities (WWC), da Bloomberg Philanthropies, é hoje uma das referências mais conhecidas para medir o quanto uma prefeitura faz isso na prática. Em 2 de fevereiro de 2026, a Filadélfia, nos Estados Unidos, anunciou ter subido ao nível Ouro da certificação do programa, conduzido pela organização Results for America. O comunicado da cidade informa que mais de cem cidades já conquistaram a certificação desde o lançamento, em 2017.
O que a certificação avalia
Segundo o comunicado da Filadélfia, a certificação mede como a cidade usa dados para orientar políticas, alocar recursos, melhorar serviços, avaliar programas e envolver moradores. A avaliação se baseia em 43 critérios, e a pontuação define o nível: Prata para quem alcança de 51% a 67%, Ouro de 68% a 84% e Platina a partir de 85%. A leitura é útil mesmo para quem nunca se candidatará: os critérios descrevem, na prática, o que significa ter gestão por dados, e não apenas painéis bonitos.
O caso da Filadélfia
O exemplo citado pela cidade está ligado à iniciativa H.O.M.E., que busca construir, preservar e recuperar 30 mil unidades habitacionais. A prefeitura analisou o processo de recursos junto ao Conselho de Ajuste de Zoneamento, definiu metas de melhoria e criou uma rotina de gestão de desempenho entre secretarias. Em sete meses, o prazo de decisão dos recursos caiu de um máximo de 78 dias para um mínimo de 12. Vale notar que se trata de dado divulgado pelo próprio governo municipal, no contexto de um anúncio de premiação, e que o comunicado não detalha a metodologia da medição.
O que isso diz ao gestor brasileiro
O caso mostra um padrão replicável: escolher um processo que impacta uma prioridade do governo, medir o prazo atual, fixar meta, reunir as áreas envolvidas em rotina periódica e acompanhar o indicador. Não é uma questão de tecnologia sofisticada. A própria Lei 14.129/2021 (Lei do Governo Digital) coloca entre os princípios e diretrizes, no art. 3º, a transparência na execução dos serviços públicos e o monitoramento da qualidade desses serviços (inciso IV). A lei vale diretamente para a União; estados e municípios só ficam obrigados a seus comandos se os adotarem por ato normativo próprio (art. 2º, III), mas ela é uma boa referência para quem quer institucionalizar esse acompanhamento. Para todos os entes, a Lei 13.460/2017 já exige avaliar os serviços e publicar o resultado (art. 23).
Dados não são só tecnologia
Os critérios de certificação do programa cobrem o uso dos dados em decisões de política, orçamento, serviços, avaliação de programas e relação com os moradores. Isso tem uma implicação prática: o desafio não é comprar um sistema de painéis, mas criar o hábito de perguntar “o que os números dizem?” antes de decidir. Muitas prefeituras já têm dados em planilhas, sistemas de protocolo, folha e arrecadação. O primeiro passo costuma ser organizá-los, definir quem é o dono de cada informação e garantir que ela chegue a quem decide em prazo útil. Também é preciso cuidar da qualidade: um indicador calculado de formas diferentes por cada secretaria perde credibilidade e acaba abandonado.
Como aplicar no seu município
- Escolha uma prioridade, não vinte. Alvarás, filas de exames, tempo de resposta a protocolos, arrecadação de dívida ativa: um tema que o prefeito acompanhe de perto.
- Defina o indicador e a fonte. Prazo médio, volume em estoque, taxa de conclusão. Registre quem produz o número, de qual sistema e com que periodicidade.
- Meça o início. Sem linha de base não há resultado a mostrar. Se os dados não existirem, a primeira meta é criar o registro.
- Crie a rotina de acompanhamento. Uma reunião curta, mensal ou quinzenal, com as áreas envolvidas e o responsável político. O número deve ser olhado pelo mesmo grupo, sempre na mesma data.
- Corrija o processo, não o número. Quando o indicador não melhora, investigue as causas (filas, retrabalho, falta de informação) e teste mudanças.
- Divulgue. Publique o painel em linguagem simples. Transparência sustenta a continuidade quando a equipe muda.
Cuidado com dois erros comuns: criar dezenas de indicadores que ninguém lê e usar o número para punir servidores, o que incentiva escondê-lo. Dados orientam a conversa; não substituem o julgamento do gestor.



