Frota de ônibus, ambulâncias e caminhões está entre as compras mais caras das prefeituras, e pequenas diferenças de preço se multiplicam em dezenas de veículos. Em artigo de setembro de 2025 publicado pela Brookings e reproduzido na página da Harvard Kennedy School (HKS), o economista Edward Glaeser e David Wessel resumem cinco ideias para melhorar o gasto americano em transporte. Uma delas ajuda a pensar a compra de ônibus pela prefeitura, embora tenha sido pensada para os Estados Unidos. O texto completo está no site da Brookings.
A ideia em resumo
Segundo os autores, as cinco ideias saíram de um projeto conjunto do American Enterprise Institute e do Hutchins Center, que encomendou propostas de política e não pesquisas novas. O ponto de partida é o custo: o artigo cita que, nos EUA, o custo médio por milha de projetos de transporte coletivo é mais de três vezes a média mundial, e que o preço dos ônibus a diesel quase não mudou em cerca de quarenta anos. As propostas cobrem licenciamento ambiental de obras, uma lista de projetos prioritários, privatização de aeroportos, preço de ônibus e dados em tempo real de carregadores de carros elétricos.
O que a pesquisa mostrou
Sobre ônibus, os autores comparam preços. Um ônibus elétrico de 36 pés pode ser comprado no exterior, segundo o texto, por cerca de US$ 350 mil, enquanto a mediana paga por agências americanas em 2024, numa base montada por autores do estudo sobre ônibus (entre eles Glaeser), foi de US$ 1,1 milhão. A proposta vem de um texto de Lea Bou Sleiman, Glaeser, Julia Shephard e Samantha Silverberg, resumido no artigo. A proposta tem três partes:
- Incentivo para conter custos. Limitar o apoio federal por ônibus ao percentil 25 do preço de veículos semelhantes, como no programa federal de ônibus escolares limpos. A agência pode pagar mais, mas sem apoio para o excedente.
- Padronização. Estimular agências pequenas a comprar modelos padronizados junto com as grandes e criar uma lista de modelos padrão com preços que caem com o tempo.
- Flexibilizar a exigência de conteúdo nacional, para dar a novos fabricantes locais um caminho gradual ao mercado. O artigo não discute os custos dessa flexibilização.
Os autores lembram que os textos do projeto não trazem pesquisa nova e que as cinco ideias não são as únicas possíveis, mas merecem consideração. Não há resultados de aplicação dessas propostas.
Como aplicar no Brasil
A lógica de comparar preço, padronizar e comprar em escala serve a prefeituras e consórcios que renovam frota:
- Monte um banco de preços de referência. Reúna valores pagos por outros órgãos para veículos semelhantes. A Lei 14.133/2021 exige que o valor estimado seja compatível com os preços de mercado e lista parâmetros como o painel de preços do PNCP e contratações similares de outros órgãos no último ano (art. 23, caput e § 1º).
- Padronize especificações. A mesma lei manda o planejamento de compras atender ao princípio da padronização, considerada a compatibilidade de especificações técnicas e de desempenho (art. 40, V, a), o que também facilita manutenção, peças e treinamento.
- Compre em conjunto. O art. 181 determina que os entes federativos instituam centrais de compras para aquisições em grande escala e, nos municípios com até 10 mil habitantes, indica preferencialmente consórcios públicos. O registro de preços, com a intenção de registro aberta a outros órgãos (art. 86), é outro caminho para pequenos municípios entrarem em compras maiores.
- Limite o apoio ao preço de referência. Se o município repassa verba a terceiros ou concede subsídio para aquisição, pode condicionar o valor ao preço de referência, com amparo jurídico próprio.
- Olhe o custo de vida útil, não só o preço de compra: consumo, manutenção, bateria e prazo de garantia.
Para o gestor municipal, o ponto mais transferível não é a regra federal, mas o raciocínio: saber quanto os outros pagam, limitar o que se aceita pagar acima desse patamar e reduzir a variedade de modelos para ganhar escala. A comparação de preços entre órgãos e a documentação da decisão ajudam também no controle externo.
Cuidados e limites
As propostas se referem ao sistema federal americano de apoio a transporte, com regras como o Buy America, que não têm equivalente direto no Brasil. Os números de preço vêm de bases dos próprios autores e podem não incluir equipamentos, garantia e infraestrutura de recarga. Padronização excessiva pode reduzir a concorrência; por isso, a descrição dos modelos precisa seguir critérios técnicos justificados e abrir espaço a mais de um fornecedor. A preferência por produção nacional só cabe nos termos da legislação brasileira, como a margem de preferência do art. 26 da Lei 14.133/2021. Este texto é uma leitura própria da Evoluta, feita por profissionais com formação pela Harvard Kennedy School, sem vínculo da empresa com a HKS.



