Prefeituras e câmaras recebem centenas de contribuições em consultas e audiências públicas, e ler tudo com cuidado consome semanas. O governo do Reino Unido testou uma resposta com IA em consultas públicas: o Consult, ferramenta que identifica os temas centrais das respostas e distribui cada contribuição nesses temas. O Departamento de Ciência, Inovação e Tecnologia (DSIT) apresentou a primeira aplicação em 14 de maio de 2025 e divulgou novos resultados em 16 de outubro de 2025.
O que é o Consult e como funciona
O Consult faz parte do Humphrey, conjunto de ferramentas de IA desenvolvido para servidores britânicos. Na primeira aplicação real, analisou as respostas a uma consulta do governo da Escócia sobre procedimentos estéticos não cirúrgicos. A ferramenta identifica os temas de cada pergunta aberta e organiza as respostas dentro deles; os servidores acompanham tudo em um painel que permite filtrar e pesquisar.
O ponto central do desenho é que o humano continua no circuito: especialistas revisam e refinam os temas propostos pela IA. Na avaliação publicada, os pontos a melhorar incluíam o processo de aprovação dos temas, a detecção de temas que ficaram de fora e a confiança dos revisores.
O que os resultados mostram
- Teste na Escócia: mais de 2.000 respostas. Especialistas escoceses revisaram todas manualmente para comparar. O alinhamento medido (F1) foi de 0,76, e as diferenças tiveram efeito desprezível na ordem dos temas. O tempo mediano de revisão foi de 23 segundos por resposta.
- Comissão Independente da Água (outubro de 2025): mais de 50 mil respostas analisadas em cerca de duas horas, a um custo de 240 libras, seguidas de 22 horas de checagem por especialistas. O governo informa que a concordância com ao menos um dos grupos de revisores humanos foi de cerca de 83%, enquanto os dois grupos humanos concordaram entre si em 55% das vezes.
- Projeção: com cerca de 500 consultas por ano, o governo estima poupar 75 mil dias de trabalho, equivalentes a 20 milhões de libras em pessoal.
Cuidados ao ler os números
Os dados vêm do próprio governo. A comunicação oficial afirma que a ferramenta igualou a “precisão” humana, mas o estudo mede alinhamento com revisores, e não acerto contra um gabarito verificado, porque classificar respostas em temas é uma tarefa subjetiva. As economias são estimativas, e, em maio de 2025, o governo informava que a ferramenta ainda estava em teste, com mais avaliações antes de decidir sobre o uso amplo.
O que dá para trazer ao Brasil, com cuidados de LGPD
A ideia serve a ouvidorias, audiências de plano diretor, PPA participativo e consultas sobre regulamentos. Mas as contribuições de cidadãos podem conter dados pessoais. A LGPD (Lei 13.709/2018) exige, no art. 6º, que o tratamento tenha finalidade específica e se limite ao mínimo necessário; isso vale também para enviar textos a ferramentas de IA, que precisam ter contrato, segurança e local de armazenamento claros.
Como aplicar no seu município
- Comece por uma consulta de baixo risco, com dados já anonimizados ou sem identificação.
- Defina antes quem revisa os temas e como serão resolvidos os desacordos.
- Amostre: compare a classificação da IA com a de servidores em parte das respostas e registre o resultado.
- Publique o método, para que a sociedade saiba como suas contribuições foram lidas.
- Nunca use a IA como única leitora: ela organiza, o servidor decide.



