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Contratação orientada a resultados: o que Harvard propõe

Em resumo

O Government Performance Lab, da Harvard Kennedy School, defende que a contratação pública deixe de ser tarefa de bastidor e vire instrumento de estratégia: definir o resultado esperado, medir, acompanhar o contrato com dados e, quando fizer sentido, ligar parte do pagamento ao desempenho. A Lei 14.133/2021 já traz as peças para isso.

A contratação orientada a resultados é uma das ideias mais práticas que saíram da Harvard Kennedy School (HKS) para quem gere dinheiro público. Ela vem do Government Performance Lab (GPL), laboratório do Taubman Center, e parte de uma constatação simples: a maior parte do orçamento de serviços passa por contratos, e quase todo contrato é tratado como papel a cumprir, não como ferramenta para entregar melhor.

A ideia em resumo

No texto-base Results-Driven Contracting: An Overview (agosto de 2016), o GPL descreve o problema: governos tratam a compra como função administrativa de apoio, escolhem tipos de contrato que não combinam com o objetivo, acompanham o fornecedor pela conformidade e não pelo resultado, e quase não usam o histórico de desempenho nas compras seguintes.

A proposta é uma escala de práticas, que cada governo pode adotar em parte ou por inteiro:

  • Definir metas para a compra estratégica e alinhar o tipo de contrato e as exigências a elas;
  • Medir resultados, impactos ou custo-efetividade do que foi contratado;
  • Gerir o contrato de forma ativa, com dados de desempenho;
  • Criar incentivos, inclusive pagamento condicionado a resultado quando for adequado, e usar o desempenho passado em decisões futuras;
  • Gerir uma carteira das compras mais importantes, para melhorar de forma contínua.

O que a pesquisa mostrou

O GPL trabalhou essa abordagem com cidades americanas de porte médio, em parceria com a iniciativa What Works Cities. Um balanço de 2018, Results-Driven Contracting Solutions, reúne 17 projetos de compra em 13 jurisdições, de serviços para pessoas em situação de rua em Seattle à escolha do operador de bicicletas compartilhadas em Boston. Na apresentação, o diretor do laboratório, Jeffrey Liebman, resume a tese: “Procurement is a powerful tool that enables governments to produce greater value for their constituents”.

A reportagem da revista da HKS, Performance Specialists (verão de 2018), conta o caso de Seattle. Em dez anos, a cidade quase dobrou o orçamento de assistência a quem vive na rua, para 50 milhões de dólares, e o número de pessoas nessa situação continuou subindo cerca de 13% ao ano. Eram 168 contratos com prestadores, e muitos pediam relatórios de atividade (camas ocupadas, banhos oferecidos), que consumiam tempo e diziam pouco sobre o que importa. O GPL separou 26 contratos, somando 8,5 milhões de dólares, para reformulação, com foco em saber se as pessoas chegavam a uma moradia estável. Em 2017 a cidade aplicou o modelo a uma compra de 30 milhões de dólares.

Outro exemplo é Glendale, no Arizona. Segundo o estudo do GPL de março de 2020, a cidade montou um sistema para dar atenção reforçada, a cada ano, às compras de maior prioridade, e decidiu mantê-lo após os primeiros resultados. Uma analista de contratos relatou que o método a ajuda a escrever um escopo mais detalhado, em vez de repetir o texto de editais anteriores. Vale notar que o GPL não publica, nessa página, números de ganho; os resultados são relatados pelo próprio laboratório.

Como aplicar no Brasil

A Lei 14.133/2021 já oferece base para esse caminho. O art. 11, inciso I, coloca como objetivo do processo licitatório a proposta que gere o resultado de contratação mais vantajoso, inclusive quanto ao ciclo de vida do objeto. E o art. 144 permite remuneração variável vinculada ao desempenho do contratado, com base em metas, padrões de qualidade, critérios de sustentabilidade ambiental e prazos de entrega definidos no edital e no contrato, desde que motivada e dentro do limite orçamentário fixado pela Administração.

Um roteiro enxuto para uma prefeitura ou câmara:

  1. Escolha poucos contratos. Três a cinco, por valor e por impacto sobre o cidadão: limpeza urbana, transporte escolar, alimentação escolar, manutenção de vias, vigilância ou serviços de saúde contratados.
  2. Escreva o resultado esperado no estudo técnico preliminar e no termo de referência. Em vez de listar apenas atividades, diga que condição o serviço deve produzir (escola limpa, rua sem buracos acima de certo prazo, entrega no horário).
  3. Ouça o mercado e a ponta antes de publicar o edital. Fornecedores, fiscais e usuários costumam saber onde o contrato anterior falhou. É o oposto de reaproveitar o edital do ano passado.
  4. Defina indicadores simples e uma linha de base. Poucos números, que o fiscal consiga coletar todo mês.
  5. Acompanhe com reunião periódica. Fiscal, gestor e fornecedor olham os mesmos dados e saem com ações. O art. 117 da mesma lei já prevê fiscais designados que registram as ocorrências da execução.
  6. Use remuneração variável com parcimônia. Só onde o resultado for mensurável, controlável pelo contratado e verificável por terceiros, e com parecer jurídico.
  7. Guarde o histórico. O desempenho de cada contrato deve alimentar a próxima contratação.

Cuidados e limites

As evidências citadas são, em geral, estudos de caso do próprio GPL, em cidades americanas, sem avaliação independente nas páginas consultadas. O contexto brasileiro tem outras regras de controle, de pagamento e de sanção, e metas mal desenhadas podem estimular o fornecedor a perseguir o número e esquecer o serviço. Comece pequeno, teste e ajuste. Este texto é uma leitura própria da Evoluta, feita por profissionais com formação pela Harvard Kennedy School; não há vínculo da empresa com a HKS.

Conteúdo independente da Evoluta, inspirado em publicações da Harvard Kennedy School of Government, a escola de governo da Universidade Harvard que inspira a Escola de Governo da Evoluta. Publicação original indicada nas fontes; a Evoluta não tem vínculo institucional com a Universidade Harvard.

Fontes

  1. Results-Driven Contracting: An Overview — Harvard Kennedy School Government Performance Lab, 04/08/2016
  2. Results-Driven Contracting Solutions: How Cities Are Improving the Outcomes of High-Priority Procurements — Harvard Kennedy School Government Performance Lab, 05/03/2018
  3. Performance Specialists: The Government Performance Lab is on a mission to make government work better (Robert O'Neill) — HKS Magazine, Harvard Kennedy School, 13/10/2026
  4. Improving Outcomes of the City's Highest-Priority Contracts in Glendale, Arizona — Harvard Kennedy School Government Performance Lab, 03/03/2020
  5. Lei nº 14.133/2021 (arts. 11, 117 e 144) — Planalto, 01/04/2021
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