Quando alguém liga para o número de emergência por causa de uma crise de saúde mental ou de uma situação de vulnerabilidade, quem deve ir ao local? Várias cidades americanas passaram a enviar equipes de resposta a crises formadas por profissionais sem arma. O Government Performance Lab (GPL), da Harvard Kennedy School (HKS), publicou um primeiro retrato comparado de nove desses programas, no relatório “Examining Alternative Response”, assinado por Marianna Yamamoto, Ana Obiora e Gabriela Solis Torres, com base em dados de 2024 (o relatório é datado de novembro de 2025 e foi apresentado na página do GPL em março de 2026).
A ideia em resumo
Em vez de mandar sempre a polícia, o município treina equipes civis (profissionais de saúde mental, paramédicos, pares com vivência do tema) para atender chamadas sem risco de violência. O relatório não avalia se isso melhora a vida das pessoas no longo prazo. Ele descreve como os programas se organizam e como se saíram nos indicadores operacionais, para ajudar quem quer copiar, ampliar ou estudar o modelo.
O que a pesquisa mostrou
- Três formas de gerir. As equipes ficam dentro do governo, são contratadas de uma organização externa ou combinam os dois modelos. A escolha depende da experiência do órgão, da capacidade de contratar, do custo e da oferta de prestadores locais.
- Equipes pequenas e variadas. Cada equipe tem de dois a três profissionais. Em sete dos nove programas, há profissionais de saúde comportamental sem exigência de licença clínica; quatro incluem técnicos de emergência médica e quatro, especialistas de apoio entre pares. Profissionais licenciados costumam supervisionar.
- Começo pequeno, depois expansão. Oito dos nove programas tinham mais de um ano de operação, sete atuavam em toda a jurisdição e todos funcionavam sete dias por semana; quatro operavam 24 horas.
- Volume. Em 2024, as equipes atenderam 85.300 ocorrências, 74% vindas da central de emergência. Em 79% dos casos despachados, a equipe atendeu sozinha.
- Tipos de chamada. Cinco categorias (saúde mental, verificação de bem-estar, pessoa indesejada, desentendimento e questão médica) somaram 91% dos atendimentos como resposta principal.
- Resultado no local. Em 95% dos casos despachados como resposta principal, a ocorrência foi encerrada no local. Houve contato com a pessoa em 61%; em 5%, ela recusou o atendimento; em 39%, a equipe chegou e não encontrou ninguém.
- Tempo e reforço. A chegada levou de 14 a 40 minutos e o atendimento durou, em média, 24 minutos. Pediram reforço da polícia em 2% dos casos e do serviço médico em 4%.
- Encaminhamentos. Houve indicação de serviços em 21% dos atendimentos com contato e transporte voluntário em 17%.
Como aplicar no Brasil
O Brasil tem outra arquitetura (números de emergência distintos, SAMU, rede de atenção psicossocial, assistência social, guardas municipais). Mesmo assim, as perguntas do relatório servem a prefeituras e consórcios:
- Mapeie quem atende hoje as ocorrências de crise, bem-estar e abordagem social, e quanto tempo cada serviço gasta nelas. Sem esse retrato, não há como medir ganho.
- Escolha o modelo de gestão pela capacidade local. Compare custo e capacidade de contratar entre equipe própria, parceria com organização da sociedade civil e arranjo híbrido, respeitando o regime jurídico de pessoal e de contratação do município.
- Comece com poucas categorias de chamada, com critérios claros de exclusão (arma, violência, risco médico grave), e revise com dados. Quatro programas do estudo ampliaram o escopo depois do lançamento.
- Defina indicadores desde o início: origem da chamada, tempo de chegada, desfecho, pedido de reforço e encaminhamentos. Combine os registros do atendimento com os da central de despacho.
- Trate dados pessoais com cuidado. Dado referente à saúde é dado pessoal sensível (art. 5º, II, da Lei Geral de Proteção de Dados, Lei 13.709/2018), e seu tratamento só cabe nas hipóteses do art. 11. O compartilhamento entre órgãos públicos deve atender a finalidades específicas de política pública (art. 26) e seguir um protocolo escrito.
Cuidados e limites
A amostra é pequena e não representativa: dez dos 24 programas acompanhados pelo GPL cumpriam os critérios de maturidade, volume e qualidade de dados, e nove puderam compartilhar números. O estudo não mede o que teria acontecido sem a equipe civil, nem custo-efetividade, e os autores relatam dificuldade de comparar dados, porque as centrais classificam as chamadas de maneiras diferentes. Também alertam que essas equipes não são a única resposta possível nem sempre a necessária. Os números descrevem cidades americanas e não devem ser tomados como meta para o Brasil. Este texto é uma leitura própria da Evoluta, feita por profissionais com formação pela Harvard Kennedy School, sem vínculo da empresa com a HKS.



