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Estigma e proteção social: por que famílias deixam de pedir ajuda

Em resumo

Estudo de Elizabeth Linos e coautores, da Harvard Kennedy School, mede o estigma em programas sociais: um aumento de um desvio-padrão no estigma se associa a uma queda de 9 a 19 pontos percentuais na disposição de baixa renda de solicitar benefícios. O desenho do programa influencia o estigma, às vezes de modo contraintuitivo.

Há famílias que cumprem os critérios de um benefício e mesmo assim não o solicitam. O estigma em programas sociais, a vergonha ou o receio de ser julgado ao pedir ajuda, é uma das explicações mais citadas e menos medidas. Um working paper da Harvard Kennedy School (HKS) tenta quantificar o efeito.

A ideia em resumo

O estudo Stigma and the Social Safety Net (RWP26-001, janeiro de 2026), de Jessica Lasky-Fink, Elizabeth Linos e Heidi Wallace, pergunta se o estigma é uma barreira relevante à adesão a programas sociais e se pode ser alterado. Ele examina os efeitos sobre o comportamento dos beneficiários e sobre o desenho dos programas.

O que a pesquisa mostrou

O trabalho reúne quatro estudos com amostras nacionalmente representativas dos Estados Unidos (11.164 pessoas) e cria uma escala nova de quatro dimensões, validada, para medir o estigma. Os principais achados do resumo:

  • um aumento de um desvio-padrão no estigma se associa a uma redução de 9 a 19 pontos percentuais na disposição de pessoas de baixa renda de solicitar benefícios;
  • o mesmo aumento se associa a um crescimento de 0,08 a 0,40 desvio-padrão no apoio do público a políticas e características de desenho que reduzem o acesso;
  • o estigma explica mais da variação nas preferências por políticas do que qualquer característica individual do respondente, incluindo ideologia política;
  • o desenho do programa afeta o estigma de maneiras opostas: critérios de elegibilidade mais amplos o reduzem, enquanto formatos de implementação que simplificam o acesso o aumentam.

A conclusão é que o estigma é uma barreira ao mesmo tempo individual e estrutural, que molda o desenho das políticas e é moldado por ele.

Como aplicar no Brasil

A lição para o gestor brasileiro é tratar o acesso como parte do resultado do programa, e não só a regra de elegibilidade. Em CRAS, na saúde, na educação e em programas locais, algumas medidas ajudam:

  1. Revise a linguagem. Formulários, cartazes e falas de atendimento devem informar sem constranger. A Lei 13.460/2017, art. 5º, prevê urbanidade, respeito e presunção de boa-fé do usuário (incisos I e II) e linguagem simples, sem siglas e jargões (inciso XIV).
  2. Cuide do espaço físico. Atendimento reservado, sem filas visíveis de “beneficiários”, sinalização neutra.
  3. Evite rótulos. Falar em “direito” e “serviço” e não em “carentes” ou “casos” muda o clima.
  4. Ouça quem não pediu. Entrevistas curtas com pessoas elegíveis que não solicitaram revelam as barreiras reais.
  5. Teste mudanças pequenas. Duas versões de um convite ou de um formulário, em grupos parecidos, mostram qual reduz desistências.
  6. Observe o efeito colateral das simplificações. Pelo que o resumo relata, desenhos que facilitam o acesso podem aumentar o estigma; por isso, ao simplificar (por exemplo, com cadastro automático), comunique de modo a preservar a dignidade e acompanhe a resposta das pessoas.

Um teste simples para fazer em 60 dias

Para sair da teoria, escolha um serviço com baixa procura entre elegíveis, como a inscrição em um programa de tarifa social ou o agendamento de uma consulta preventiva. Reescreva a mensagem de convite em duas versões (uma neutra e direta, outra que destaca o direito e a facilidade) e envie cada uma a metade da lista, sorteada. Compare, depois de 30 dias, quantas pessoas procuraram o serviço. Registre também o que os atendentes ouviram. O teste é sugestão da Evoluta, inspirada na lógica de medir o estigma e testar o desenho; o estudo de Harvard não propõe esse experimento específico. Verifique a base legal para o contato com as pessoas e a proteção dos dados.

Cuidados e limites

As amostras são americanas, e o conceito de estigma muda com a cultura e com a política social de cada país. O resumo não detalha como o desenho do programa foi testado causalmente nem quais formatos de implementação aumentam o estigma; a leitura prática exige cautela. Os percentuais descrevem associações em levantamentos, não efeitos garantidos de uma campanha. Avisos, mensagens e cadastros em programas sociais devem respeitar a LGPD e as normas de cada política. Este texto é uma leitura própria da Evoluta, sem vínculo da empresa com a HKS.

Conteúdo independente da Evoluta, inspirado em publicações da Harvard Kennedy School of Government, a escola de governo da Universidade Harvard que inspira a Escola de Governo da Evoluta. Publicação original indicada nas fontes; a Evoluta não tem vínculo institucional com a Universidade Harvard.

Fontes

  1. Stigma and the Social Safety Net (Lasky-Fink, Linos, Wallace) — Harvard Kennedy School, Faculty Research Working Paper RWP26-001, 01/01/2026
  2. Lei nº 13.460/2017 (art. 5º) — Planalto, 26/06/2017
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