Há famílias que cumprem os critérios de um benefício e mesmo assim não o solicitam. O estigma em programas sociais, a vergonha ou o receio de ser julgado ao pedir ajuda, é uma das explicações mais citadas e menos medidas. Um working paper da Harvard Kennedy School (HKS) tenta quantificar o efeito.
A ideia em resumo
O estudo Stigma and the Social Safety Net (RWP26-001, janeiro de 2026), de Jessica Lasky-Fink, Elizabeth Linos e Heidi Wallace, pergunta se o estigma é uma barreira relevante à adesão a programas sociais e se pode ser alterado. Ele examina os efeitos sobre o comportamento dos beneficiários e sobre o desenho dos programas.
O que a pesquisa mostrou
O trabalho reúne quatro estudos com amostras nacionalmente representativas dos Estados Unidos (11.164 pessoas) e cria uma escala nova de quatro dimensões, validada, para medir o estigma. Os principais achados do resumo:
- um aumento de um desvio-padrão no estigma se associa a uma redução de 9 a 19 pontos percentuais na disposição de pessoas de baixa renda de solicitar benefícios;
- o mesmo aumento se associa a um crescimento de 0,08 a 0,40 desvio-padrão no apoio do público a políticas e características de desenho que reduzem o acesso;
- o estigma explica mais da variação nas preferências por políticas do que qualquer característica individual do respondente, incluindo ideologia política;
- o desenho do programa afeta o estigma de maneiras opostas: critérios de elegibilidade mais amplos o reduzem, enquanto formatos de implementação que simplificam o acesso o aumentam.
A conclusão é que o estigma é uma barreira ao mesmo tempo individual e estrutural, que molda o desenho das políticas e é moldado por ele.
Como aplicar no Brasil
A lição para o gestor brasileiro é tratar o acesso como parte do resultado do programa, e não só a regra de elegibilidade. Em CRAS, na saúde, na educação e em programas locais, algumas medidas ajudam:
- Revise a linguagem. Formulários, cartazes e falas de atendimento devem informar sem constranger. A Lei 13.460/2017, art. 5º, prevê urbanidade, respeito e presunção de boa-fé do usuário (incisos I e II) e linguagem simples, sem siglas e jargões (inciso XIV).
- Cuide do espaço físico. Atendimento reservado, sem filas visíveis de “beneficiários”, sinalização neutra.
- Evite rótulos. Falar em “direito” e “serviço” e não em “carentes” ou “casos” muda o clima.
- Ouça quem não pediu. Entrevistas curtas com pessoas elegíveis que não solicitaram revelam as barreiras reais.
- Teste mudanças pequenas. Duas versões de um convite ou de um formulário, em grupos parecidos, mostram qual reduz desistências.
- Observe o efeito colateral das simplificações. Pelo que o resumo relata, desenhos que facilitam o acesso podem aumentar o estigma; por isso, ao simplificar (por exemplo, com cadastro automático), comunique de modo a preservar a dignidade e acompanhe a resposta das pessoas.
Um teste simples para fazer em 60 dias
Para sair da teoria, escolha um serviço com baixa procura entre elegíveis, como a inscrição em um programa de tarifa social ou o agendamento de uma consulta preventiva. Reescreva a mensagem de convite em duas versões (uma neutra e direta, outra que destaca o direito e a facilidade) e envie cada uma a metade da lista, sorteada. Compare, depois de 30 dias, quantas pessoas procuraram o serviço. Registre também o que os atendentes ouviram. O teste é sugestão da Evoluta, inspirada na lógica de medir o estigma e testar o desenho; o estudo de Harvard não propõe esse experimento específico. Verifique a base legal para o contato com as pessoas e a proteção dos dados.
Cuidados e limites
As amostras são americanas, e o conceito de estigma muda com a cultura e com a política social de cada país. O resumo não detalha como o desenho do programa foi testado causalmente nem quais formatos de implementação aumentam o estigma; a leitura prática exige cautela. Os percentuais descrevem associações em levantamentos, não efeitos garantidos de uma campanha. Avisos, mensagens e cadastros em programas sociais devem respeitar a LGPD e as normas de cada política. Este texto é uma leitura própria da Evoluta, sem vínculo da empresa com a HKS.



