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Liderança adaptativa: problemas técnicos e adaptativos

Em resumo

A liderança adaptativa, criada por Ronald Heifetz na Harvard Kennedy School, separa problemas técnicos, que têm solução conhecida, de desafios adaptativos, que exigem que as pessoas aprendam algo novo. Para o gestor público, a diferença muda como se convoca uma equipe, como se comunica e quando se resiste a agir às pressas.

A liderança adaptativa é um modelo desenvolvido pelo professor Ronald Heifetz, da Harvard Kennedy School (HKS), e usado no mundo todo, segundo a revista da escola. Ela parte de uma distinção simples e útil: nem todo problema pede um especialista com a resposta pronta. Alguns pedem que as pessoas mudem de hábito, de valor ou de expectativa. A reportagem da HKS Magazine HKS faculty teach leaders how to make better decisions amid uncertainty, de Nora Delaney (verão de 2020), reúne como vários professores da escola aplicaram o conceito à pandemia.

A ideia em resumo

Segundo a reportagem, Heifetz define dois tipos de problema. Os técnicos têm solução conhecida, que se segue passo a passo. Os adaptativos são novos e imprevisíveis e exigem que as pessoas desenvolvam novas capacidades. A armadilha, diz ele, é que quem está no poder sente pressão para tratar um desafio adaptativo como técnico, e isso gera falta de liderança. Em um artigo de 2009 na Business Week Online, Making Decisions Outside Your Repertoire, ele resume o conselho assim: “the most important thing to do when confronted with these challenges is to resist leaping into action.”

Outras ideias do conceito, citadas na reportagem: a liderança deve vir de muitas pessoas, e não só da autoridade formal; a confiança precisa ser conquistada, renovada e reparada o tempo todo; e quem lidera deve reconhecer perdas e falar com empatia, humildade e transparência. O livro The Practice of Adaptive Leadership, de Heifetz, Marty Linsky e Alexander Grashow (2009), é descrito como um guia prático, com ferramentas, diagramas e exemplos, para conduzir pessoas por mudanças difíceis, inclusive saindo da zona de conforto.

O que a reportagem mostra

A matéria junta recomendações de professores a líderes em um momento de incerteza. Matt Andrews, do programa de capacidade estatal, orienta a mobilizar e autorizar as pessoas, agir cedo, ser honesto, compartilhar fatos e manter disposição para mudar de rumo; para ele, estruturas rígidas de comando e controle tendem a ruir depois de uma ou duas semanas. Julia Minson, que estuda desacordos, lembra que muitos problemas de liderança são de comunicação, que mudar de posição quando as evidências mudam é aceitável e que reconhecer o ponto de vista do outro ajuda mais do que despejar argumentos. Já as lições divulgadas pela Bloomberg Harvard City Leadership Initiative, com base no programa de liderança em crises da escola, indicam três tarefas: avaliar em que fase da crise se está, criar um processo de resolução de problemas para ameaças novas e administrar a dinâmica política.

É um conteúdo de entrevistas e observações dos professores, não de pesquisa sistemática, e a própria revista da escola é parte interessada.

Como aplicar no Brasil

A distinção ajuda a decidir como conduzir cada demanda do mandato. Um roteiro para o gabinete:

  1. Classifique os problemas. Liste os dez maiores temas do município e marque cada um: técnico (existe solução conhecida, falta executar) ou adaptativo (exige que servidores, parceiros e população mudem comportamento). Reforma de carreira, mudança de cultura de atendimento e dengue costumam ter partes dos dois tipos.
  2. Nos técnicos, delegue e cobre prazo. Licitar, regularizar, pagar: há método e responsável.
  3. Nos adaptativos, não se apresse. Antes de anunciar a solução, reúna quem é afetado, ouça as perdas que a mudança impõe (horário, poder, rotina) e defina o que cada lado terá de abrir mão.
  4. Distribua a liderança. Dê voz e autoridade a quem está na ponta, como agentes comunitários, professores e fiscais, em vez de concentrar tudo no gabinete.
  5. Comunique com honestidade. Diga o que se sabe e o que não se sabe, o que será testado e quando o plano pode mudar.
  6. Revise o rumo por ciclos curtos. Teste, aprenda e ajuste, em vez de um grande plano fechado.

Em reformas administrativas, a resistência costuma ser o sinal de que o problema é adaptativo: tratá-la como falta de informação raramente funciona.

Cuidados e limites

A distinção entre técnico e adaptativo é um modelo para pensar, e não um teste exato; boa parte dos problemas reais mistura os dois. Em um texto de discussão de março de 2026, The Moral Architecture of Adaptive Leadership, Mathias Risse, diretor do Carr-Ryan Center, observa que o conceito valoriza honestidade sobre a realidade e processos participativos, mas não define por si só o que a justiça exige nem quais metas valem a pena; liderar bem exige habilidade adaptativa e também discernimento ético próprio. Esperar demais é igualmente um risco: o conselho de não agir às pressas não vale para emergências, em que a ação imediata é necessária. Este texto é uma leitura própria da Evoluta, feita por profissionais com formação pela Harvard Kennedy School, sem vínculo da empresa com a HKS.

Para levar a ideia à sua equipe, conheça o curso de liderança adaptativa na gestão pública, o de liderança e gestão estratégica no setor público e o serviço de implantação de melhorias e gestão da mudança.

Conteúdo independente da Evoluta, inspirado em publicações da Harvard Kennedy School of Government, a escola de governo da Universidade Harvard que inspira a Escola de Governo da Evoluta. Publicação original indicada nas fontes; a Evoluta não tem vínculo institucional com a Universidade Harvard.

Fontes

  1. HKS faculty teach leaders how to make better decisions amid uncertainty (Nora Delaney) — HKS Magazine, Harvard Kennedy School, 01/07/2020
  2. Making Decisions Outside Your Repertoire (Ronald Heifetz) — Business Week Online, listado na Harvard Kennedy School, 18/06/2009
  3. The Moral Architecture of Adaptive Leadership (Mathias Risse) — Carr-Ryan Center, Harvard Kennedy School (Discussion Paper), 17/03/2026
  4. The Practice of Adaptive Leadership (Heifetz, Linsky, Grashow) — Harvard Kennedy School / Harvard Business Press, 01/01/2009
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