Quem atende no CRAS, no Centro POP ou no abrigo costuma ter dados em mãos: cadastros, planilhas, relatórios para o governo federal. Raramente tem tempo ou treino para usar esses números para decidir. O Government Performance Lab (GPL), da Harvard Kennedy School (HKS), testou uma resposta em 2024: um curso de 12 semanas em capacitação em dados para mais de 50 profissionais da rede de atendimento a pessoas em situação de rua de Nova Jersey (EUA). O resultado está no resumo publicado em junho de 2024 e em um relatório de 11 páginas.
A ideia em resumo
Os autores partem de um quadro de equipes sobrecarregadas, mal pagas e com risco de saída, que o próprio texto reconhece não ser resolvido por treinamento. A aposta é que ensinar a coletar, ler, interpretar e comunicar dados, e a pensar o sistema como um todo, é uma forma de apoiar quem trabalha na ponta e melhorar o serviço. O curso foi conduzido pelo GPL com a consultoria Delivery Associates e o escritório estadual de prevenção da falta de moradia, e reuniu colegas de oito redes locais.
O que o relatório mostrou
No início, um teste mostrou que 50% dos participantes interpretavam errado um gráfico básico. O conteúdo incluiu tipos de dados, uso de planilha, leitura de gráficos, definição de indicadores, desagregação de dados e visualização. Cada rede aplicou o que aprendia a um problema real, e os trabalhos finais foram apresentados ao grupo. O relatório dá dois exemplos:
- Abrigo cheio. Uma rede precisava aumentar as saídas de abrigos para moradia permanente. Ao desagregar os dados, viu que quem tinha 55 anos ou mais e quem tinha deficiência ficava mais tempo. Passou a definir indicadores e a usar mais gráficos para dividir a informação.
- Quem chega ao atendimento. Outra rede notou que pessoas brancas, hispânicas e asiáticas apareciam menos na porta de entrada do sistema do que na população atendida em abrigos e abordagem de rua, com diferença de 5 pontos para famílias hispânicas. Decidiu revisar o instrumento de triagem e ouvir usuários e prestadores em grupos focais.
Em pesquisas e entrevistas depois do curso, os participantes relataram melhor compreensão das necessidades locais (uma rede descobriu que muitos egressos de abrigos iam para locais impróprios para moradia e que a maioria tinha alguma deficiência), mais decisões baseadas em evidência, gráficos mais claros para conversar com gestores e financiadores e mais colaboração entre agências. São percepções dos participantes, não uma avaliação de impacto sobre a população atendida.
O relatório extrai três lições: bases simples de dados ajudam todos; é importante construir uma linguagem comum entre equipes, e não só habilidades individuais; e treinar com exemplos do trabalho diário e com tempo protegido facilita o uso. Um participante contou que, ao cruzar dados, a rede percebeu que pessoas com benefício assistencial negado também ficavam sem apoio de moradia.
Como aplicar no Brasil
- Comece por uma pergunta da própria equipe, por exemplo: quem fica mais tempo no serviço de acolhimento? Quem não retorna ao CRAS depois do primeiro atendimento?
- Treine com os dados do município, como Cadastro Único, prontuários e registros do serviço, usando planilhas já conhecidas. Reserve horas protegidas na agenda, como o relatório recomenda.
- Misture perfis: assistência social, saúde, educação, e quem tem experiência de vida de rua ou da pobreza, se houver espaço de controle social. O ganho aparece quando todos olham os mesmos gráficos.
- Desagregue por idade, território e deficiência para achar quem está ficando de fora, sem inventar categorias que o serviço não coleta.
- Ensine a comunicar: um gráfico com uma mensagem e um pedido claro ao gestor ou ao conselho.
- Proteja as pessoas. Os dados são de gente atendida pela política pública; use acesso restrito, dados agregados nas apresentações e finalidade definida, conforme os princípios de finalidade e necessidade da Lei Geral de Proteção de Dados (art. 6º, I e III) e as regras de uso compartilhado pelo poder público (art. 26).
Cuidados e limites
O relatório descreve um piloto único, sem grupo de comparação, e usa depoimentos de quem participou. Também afirma que o treinamento é só uma das peças para enfrentar sobrecarga, baixa remuneração e rotatividade; sem condições de trabalho, o curso não resolve. A estrutura americana de redes locais de atendimento e as exigências do governo federal daquele país não existem no Brasil, mas o desafio de passar do dado de prestação de contas ao dado de gestão é comum. Este texto é uma leitura própria da Evoluta, feita por profissionais com formação pela Harvard Kennedy School, sem vínculo da empresa com a HKS.



