Ir para a cidade ajuda o trabalhador pobre a subir de renda? A resposta, para o Brasil, é: depende da cidade. O estudo Cities as Engines of Opportunities: Evidence from Brazil, de Radu Barza, Edward Glaeser, César Hidalgo e Martina Viarengo, divulgado pela Harvard Kennedy School (HKS) como texto de trabalho do NBER em maio de 2024, trata da mobilidade de renda nas cidades brasileiras. Por usar dados do nosso país, é uma leitura especialmente útil ao gestor local.
A ideia em resumo
Os autores perguntam se as cidades de países em desenvolvimento funcionam como motores de oportunidade para trabalhadores de baixa renda. Para responder, acompanharam durante 13 anos uma coorte de jovens trabalhadores de baixa renda no Brasil e analisaram como fatores como a estrutura industrial e a segregação por habilidades influenciam a mobilidade ascendente de renda.
O que a pesquisa mostrou
Segundo o resumo, os principais achados são:
- As cidades do sul do Brasil são mais eficazes como motores de mobilidade ascendente do que as do norte.
- As diferenças parecem estar ligadas principalmente à exposição de trabalhadores não qualificados a colegas qualificados, o que reflete a composição e a complexidade da indústria local.
- Os resultados sugerem que os efeitos positivos da urbanização dependem da convivência e da colaboração entre trabalhadores qualificados e não qualificados, uma integração mais comum nas cidades do sul.
- A segregação entre esses grupos pode diminuir com a especialização e a divisão do trabalho, e sua persistência pode limitar a capacidade das cidades do norte de oferecer mais oportunidades para superar a pobreza.
Em linguagem simples, e sempre dentro do que o resumo permite afirmar: não basta atrair trabalhadores para a cidade. O que faz a diferença é o ambiente de trabalho em que o jovem de baixa renda aprende ao lado de gente mais qualificada, em empresas e setores mais complexos.
Para o município, a implicação é incômoda e útil ao mesmo tempo: a política de emprego e renda não se resume a gerar vagas. Importa em que tipo de empresa, com que colegas e com que chance de aprender o jovem pobre vai trabalhar, e isso depende da estrutura produtiva e da forma como a cidade se organiza no território.
Como aplicar no Brasil
O resumo não traz recomendações de política, e as sugestões abaixo são leituras da Evoluta a partir dos achados, para serem testadas localmente:
- Mapeie onde o jovem de baixa renda trabalha. Use dados públicos de emprego formal e do Cadastro Único para ver em que setores e empresas ele entra e se há convivência com trabalhadores qualificados ou isolamento em atividades de baixa complexidade.
- Atraia e retenha atividades mais complexas. Planos de desenvolvimento local, distritos de serviços e tecnologia, polos agroindustriais com cadeias mais sofisticadas e parcerias com institutos técnicos e universidades podem abrir espaço para aprendizado no trabalho.
- Use as compras públicas com base legal. A Lei 14.133/2021 obriga o contratado a cumprir, durante todo o contrato, a reserva legal de vagas para aprendizes, pessoas com deficiência e reabilitados (art. 116), e permite que o edital exija percentual mínimo de mão de obra de mulheres vítimas de violência doméstica e de egressos do sistema prisional (art. 25, § 9º). Exigências além dessas, como contratação local, precisam de base legal e não podem restringir a competição.
- Integre qualificação e emprego. Cursos técnicos desenhados com as empresas da região, estágios e aprendizagem profissional conectam o morador de bairros distantes a vagas com perspectiva de carreira.
- Reduza a segregação física. Transporte coletivo e habitação perto de empregos diminuem a distância entre bairros pobres e polos de trabalho. O plano diretor é o instrumento básico da política de desenvolvimento urbano (Constituição Federal, art. 182, § 1º), e a redução das desigualdades regionais é objetivo fundamental da República (art. 3º, III).
- Acompanhe a trajetória, não só o emprego. Meça renda, tempo no emprego e promoções de jovens atendidos por programas de qualificação, e não apenas o número de vagas preenchidas.
Cuidados e limites
A matéria baseia-se no resumo, sem acesso a detalhes metodológicos (tamanho da amostra, fontes e definições), e o texto completo não foi lido. O estudo mostra associações entre cidades do sul e do norte, não prova que um fator isolado cause a diferença. Diferenças entre regiões brasileiras envolvem história, estrutura produtiva, clima, infraestrutura e políticas públicas, e nenhuma recomendação deve ser aplicada sem diagnóstico local. As sugestões da seção anterior são adaptações da Evoluta, e não conclusões dos autores. Este texto é uma leitura própria da Evoluta, feita por profissionais com formação pela Harvard Kennedy School, sem vínculo da empresa com a HKS.
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