A governança de inteligência artificial deixou de ser assunto de laboratório e passou a ser tarefa de quem administra serviços públicos. A Harvard Kennedy School (HKS) publicou, em 5 de outubro de 2026, uma entrevista com Stephen Casper, professor assistente de políticas públicas que chegou à escola neste ano para pesquisar salvaguardas e governança de IA: "There is no textbook, and there are no old-timers" when it comes to AI. Casper é cientista da computação e conta que já pensou a segurança de IA como problema técnico.
A ideia em resumo
Para o pesquisador, os maiores desafios da IA são sociais e institucionais, e nunca ficam totalmente resolvidos. Ele aponta três lacunas entre o que a técnica oferece e o que a sociedade precisa: entre ferramentas técnicas e impacto real, entre o interesse das empresas e o da sociedade, e entre o comportamento corporativo e resultados bons para todos. A frase que dá título à entrevista resume um ponto de ânimo: “There is no textbook, and there are no old-timers”. Ou seja, o campo é novo o bastante para que não especialistas possam participar com proveito.
Casper lista quatro requisitos de longo prazo para uma governança saudável:
- Transparência sobre os sistemas e sobre as decisões dentro das empresas de ponta;
- Responsabilização de empresas e de governos por danos amplos ou graves;
- Capacidade em escala macro para ajustar o ritmo do desenvolvimento, o que pode exigir medidas duras e coordenação internacional;
- Resiliência, isto é, preparo para falhas diversas.
O que a entrevista mostra
O pesquisador defende que o objetivo não pode ser uma IA que nunca cause dano. Para ele, a sociedade deve esperar que sistemas às vezes escapem do controle e causem problemas, e precisa construir capacidade para lidar com crises à medida que surgem. Ele compara os anos 2030 para a IA ao que foram os anos 1960 para a tecnologia nuclear, um período de aprendizado "do jeito difícil".
Aos formandos da HKS, Casper recomenda ir além de apoiar bons projetos de lei: preparar-se para mudanças no que é politicamente aceitável e para eventos possíveis, como um conflito geopolítico envolvendo IA ou sua cadeia de suprimentos, um incidente grave com uso de IA ou uma crise econômica provocada por ela. Para quem quer se informar, sugere ler artigos científicos e projetos de lei, fazer anotações e seguir especialistas e organizações de pesquisa, já que o campo muda tanto que ninguém tem grande vantagem inicial.
Como aplicar no Brasil
A entrevista trata sobretudo de IA de ponta e de política nacional, mas a lógica de preparo vale para o gestor municipal que contrata ou usa ferramentas de IA. Um roteiro mínimo para uma prefeitura ou câmara:
- Faça um inventário de usos. Liste onde servidores já usam IA (redação, atendimento, análise de documentos, triagem), com ou sem autorização formal.
- Edite uma política de uso de uma ou duas páginas. Defina o que pode e o que não pode, quais dados nunca entram em ferramenta externa e quem responde por revisar o resultado.
- Exija transparência do fornecedor. No edital e no contrato, peça informação sobre o funcionamento do sistema, os dados usados, os registros de operação e as condições de auditoria.
- Preserve a decisão humana. A LGPD (Lei 13.709/2018), art. 20, garante ao titular o direito de pedir revisão de decisões tomadas unicamente com base em tratamento automatizado de dados pessoais que afetem seus interesses. A lei não exige que essa revisão seja feita por uma pessoa, mas, como boa prática, atos que afetem direitos do cidadão devem ter um servidor responsável identificado.
- Planeje a falha. Defina antes o que fazer se a ferramenta errar, vazar dados ou ficar indisponível: quem decide, como avisar o cidadão e como voltar ao processo manual.
- Treine as equipes e revise a política a cada semestre. O campo muda rápido, e a regra de hoje pode estar velha em seis meses.
Cuidados e limites
É uma entrevista, e não um estudo empírico; as afirmações são pontos de vista do pesquisador, que evita previsões detalhadas e condiciona parte das recomendações a cenários de alto risco. As hipóteses de crise são exercícios de planejamento, não previsões. Os temas de capacidade global e de controle sobre empresas de fronteira estão longe da realidade de um município; o que cabe ao gestor local é a parte do uso responsável. Em questões de privacidade e responsabilidade, consulte a procuradoria e o encarregado de dados do órgão. Este texto é uma leitura própria da Evoluta, feita por profissionais com formação pela Harvard Kennedy School, sem vínculo da empresa com a HKS.
Para colocar essas regras em prática, veja o curso de inteligência artificial na administração pública, o de LGPD no setor público e a solução de assistente de IA para atendimento ao munícipe.



