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Infraestrutura inteligente: custo de ciclo de vida, segundo Harvard

Em resumo

Stephen Goldsmith, ex-prefeito de Indianápolis e professor da Harvard Kennedy School, defende no PolicyCast que obras públicas sejam pensadas como infraestrutura inteligente: com sensores, usos múltiplos e custo calculado ao longo da vida útil. A Lei 14.133/2021 já trata o ciclo de vida do objeto como critério de vantagem.

Uma rua recapeada sem plano de manutenção volta a esburacar em poucos anos. Uma luminária que só ilumina desperdiça um poste que poderia fazer muito mais. É nessa linha que Stephen Goldsmith, professor da Harvard Kennedy School (HKS) e ex-prefeito de Indianápolis, defende a infraestrutura inteligente no episódio Why smart infrastructure is a smart investment, do PolicyCast da escola, de abril de 2023, com apresentação de Ralph Ranalli. O contexto é a onda de investimentos federais americanos de 2021 e 2022, mas o raciocínio serve a qualquer prefeitura que contrata obras.

A ideia em resumo

Goldsmith diz que os Estados Unidos construíram pouco, construíram o que não deviam, descuidaram da manutenção e não se planejaram para mudanças populacionais e de sustentabilidade. Uma falha central, na sua leitura, é a ausência de cálculo de custo ao longo do ciclo de vida, o que premia a obra barata e rápida em vez do valor de longo prazo. Sua proposta tem quatro frentes:

  • Sensores: equipamentos que avisam sobre problemas antes de reparos caros;
  • Usos múltiplos: um mesmo ativo servindo a várias finalidades;
  • Plataformas digitais: sistemas que administram conjuntos inteiros, como o uso do meio-fio e da mobilidade;
  • Equidade: mapas e ferramentas digitais para mostrar onde o investimento histórico foi desigual e ampliar quem participa das decisões.

O que o episódio mostra

Os exemplos são ilustrativos. Um caminhão de lixo, que passa toda semana pelas mesmas ruas, poderia levar sensores e identificar problemas no pavimento. Em Nova York, estruturas antigas de telefone público foram trocadas por quiosques que dão acesso sem fio à cidade e geram receita de publicidade. Um poste pode ser, ao mesmo tempo, carregador de veículo elétrico, ponto de sensores e de telecomunicações. Goldsmith também propõe redefinir o que se chama de "engenharia de valor": lembra que, quando era prefeito, ao dizer aos engenheiros que só havia 80% do orçamento, eles quase sempre cortavam 20% do escopo, em vez de repensar o projeto com recursos digitais e usos compartilhados.

Sobre equidade, ele cita mapas geográficos que revelam desigualdades passadas em ruas e calçadas, e diz que o departamento de transportes de Oakland já incorpora esses mapas às decisões sobre onde pavimentar. Para participação, aponta mensagens de texto e realidade aumentada como formas de ouvir além de quem vai às audiências.

O convidado não esconde os riscos: cada dispositivo conectado amplia a superfície de ataque, e anonimizar dados é só o começo da discussão sobre privacidade, sobretudo quando empresas enriquecem dados públicos. Há falta de mão de obra para executar o que foi financiado, e licenciamentos lentos atrasam as obras.

Como aplicar no Brasil

A Lei 14.133/2021 dá o ponto de apoio. O art. 11, inciso I, coloca como objetivo da licitação a proposta que gere o resultado de contratação mais vantajoso, inclusive quanto ao ciclo de vida do objeto, e o art. 18, inciso VIII, pede que modalidade, critério de julgamento e modo de disputa sejam escolhidos para esse mesmo fim. Isso autoriza, na fase de planejamento, olhar além do preço de compra. Um caminho para o município:

  1. Calcule o custo de vida útil dos três maiores ativos que você vai contratar (pavimentação, iluminação pública, prédio escolar, por exemplo): compra, operação, manutenção e substituição.
  2. Peça no estudo técnico preliminar uma análise de alternativas que compare opções pelo custo total, e não só pelo menor preço inicial.
  3. Pergunte a cada obra: que outro uso essa estrutura pode ter? Poste com sensor, ponto de conectividade em praça, painel de informação e dados de tráfego.
  4. Use dados para priorizar. Cruze o mapa de reclamações, de acidentes e de investimentos anteriores por bairro para decidir onde pavimentar ou iluminar primeiro.
  5. Preveja segurança e privacidade no edital. Quem acessa os dados, onde ficam guardados e por quanto tempo, em linha com a LGPD.
  6. Escute além das audiências. Pesquisas por celular, consultas em escolas e UBS e plantões nos bairros ampliam a voz de quem não vai à Câmara.

Cuidados e limites

O episódio é uma conversa de opinião, e o próprio Goldsmith, que no episódio também discute o futuro do Partido Republicano, admite falar a partir dos próprios vieses. Muitos dados do contexto americano foram trazidos pelo apresentador e não são conferidos ali, e os exemplos (Oakland, Nova York, demonstração de invasão de veículo) são relatos, sem checagem independente. Tecnologia não substitui manutenção básica: sensores sem equipe para agir viram mais um custo. O contexto fiscal e de capacidade das prefeituras brasileiras é bem diferente; comece com projetos-piloto pequenos e meça o retorno. Este texto é uma leitura própria da Evoluta, feita por profissionais com formação pela Harvard Kennedy School, sem vínculo da empresa com a HKS.

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Conteúdo independente da Evoluta, inspirado em publicações da Harvard Kennedy School of Government, a escola de governo da Universidade Harvard que inspira a Escola de Governo da Evoluta. Publicação original indicada nas fontes; a Evoluta não tem vínculo institucional com a Universidade Harvard.

Fontes

  1. Why smart infrastructure is a smart investment (PolicyCast com Stephen Goldsmith) — Harvard Kennedy School PolicyCast, 18/04/2023
  2. Lei nº 14.133/2021 (arts. 11 e 18) — Planalto, 01/04/2021
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