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Treinamento sobre vieses: como desenhar para mudar contratações

Em resumo

Artigo na revista Science, com coautoria de Iris Bohnet, da Harvard Kennedy School, mostra em experimento de campo que um treinamento desenhado com ciência comportamental e aplicado perto da hora da decisão aumentou a seleção de candidatos de grupos sub-representados. A ideia vale para gestão de pessoas no setor público.

Muitos órgãos públicos oferecem palestras sobre igualdade e vieses, mas pouco se sabe se elas mudam as decisões de contratação, de promoção e de designação para funções de confiança. Em janeiro de 2025, a revista Science publicou o artigo Behaviorally designed training leads to more diverse hiring, de Cansin Arslan, Edward Chang, Siri Chilazi, Iris Bohnet e Oliver Hauser, catalogado pela Harvard Kennedy School (HKS), que relata um teste controlado com resultado concreto.

A ideia em resumo

O ponto de partida do artigo é crítico: organizações gastam muito dinheiro e horas de trabalho em treinamentos de diversidade, mas há pouca evidência de que eles tornem as equipes mais diversas. Os autores sugerem que o problema está no momento e no desenho. O treinamento costuma ocorrer muito antes das decisões reais e é genérico demais para atingir comportamentos específicos, como a seleção de candidatos. A proposta é o oposto: treinar perto da decisão e focado na ação que se quer mudar.

O que a pesquisa mostrou

O resumo descreve um grande experimento de campo em uma empresa global de telecomunicações e engenharia. O treinamento com desenho comportamental aumentou a inclusão de mulheres e de candidatos de outras nacionalidades nas listas finais de candidatos (shortlists) e aumentou a contratação de candidatos de outras nacionalidades, em comparação com a prática usual. Os autores apresentam o resultado como prova de que outra abordagem de treinamento pode gerar efeitos mensuráveis. O resumo não informa o tamanho dos efeitos nem o número de participantes, de modo que não é possível avaliar a magnitude.

Como aplicar no Brasil

No setor público brasileiro, a regra geral para cargos efetivos é o concurso, previsto no art. 37, II, da Constituição Federal, e o edital deve seguir as regras de acesso, reserva de vagas e critérios objetivos. Por isso, a aplicação da ideia deve respeitar o que a lei permite. Há espaços reais para usar o conceito:

  • Treine as bancas e comissões perto da decisão. Antes de uma entrevista, de uma prova prática ou de uma avaliação de títulos, reúna a comissão para uma sessão curta e prática sobre os erros de julgamento mais comuns e sobre como aplicar os critérios do edital sem desvios.
  • Estruture a avaliação. Use roteiros de entrevista iguais para todos os candidatos, critérios escritos com pesos definidos e notas dadas por avaliador de forma independente antes de qualquer discussão em grupo.
  • Revise designações para funções de confiança e comissão. Nesses casos, onde há maior discricionariedade, faça um quadro de critérios públicos de perfil e registre a justificativa de cada escolha. Isso favorece a transparência e a defesa diante dos órgãos de controle.
  • Acompanhe os números. Registre, de forma agregada, quem se inscreve, quem avança e quem é escolhido, por sexo e por outros recortes que a lei permita coletar, para identificar onde o processo afunila.
  • Teste e compare. Aplique o treinamento a uma comissão e mantenha outra como referência, comparando resultados antes de ampliar.

Uma comissão de seleção de estagiários, por exemplo, poderia receber um lembrete curto, no dia da avaliação, com os critérios definidos e com as armadilhas mais comuns, como preferir quem lembra o avaliador ou dar peso excessivo à primeira impressão. É uma medida de custo baixo, que reforça a imparcialidade já exigida do serviço público e que pode ser documentada no processo. O artigo sugere que esse tipo de intervenção, perto da decisão, tem mais chance de fazer diferença do que cursos genéricos, mas cada órgão precisa testar a própria versão e medir o efeito.

Cuidados e limites

O texto lido é o resumo, e não o artigo completo, de modo que os detalhes do experimento e do conteúdo do treinamento não foram avaliados. O estudo foi feito em uma empresa privada global, com processos de seleção muito diferentes do concurso público brasileiro, no qual os critérios de classificação são fixados em edital e não podem ser alterados por quem avalia. Medidas para ampliar a diversidade devem se apoiar em lei e em edital, e o tratamento de dados sobre raça, gênero ou deficiência deve seguir a legislação e a LGPD. Este texto é uma leitura própria da Evoluta, feita por profissionais com formação pela Harvard Kennedy School, sem vínculo da empresa com a HKS.

Para melhorar processos de seleção e perfis de cargo, veja o curso de concurso público, quadro de pessoal e edital, o de descrição de cargos e perfil de competências e o de cargos em comissão e funções de confiança.

Conteúdo independente da Evoluta, inspirado em publicações da Harvard Kennedy School of Government, a escola de governo da Universidade Harvard que inspira a Escola de Governo da Evoluta. Publicação original indicada nas fontes; a Evoluta não tem vínculo institucional com a Universidade Harvard.

Fontes

  1. Behaviorally Designed Training Leads to More Diverse Hiring — Harvard Kennedy School (publicação em Science, vol. 387, n. 6732), 24/01/2025
  2. Constituição da República Federativa do Brasil, art. 37, II — Planalto, 05/10/1988
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