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Universidade e prefeitura: laboratório de campo, a ideia de Harvard

Em resumo

A Harvard Kennedy School trabalha com cidades por três vias que se reforçam: ensino, pesquisa e apoio direto. Estudantes resolvem problemas reais, prefeituras ganham análise técnica e professores constroem pesquisa a partir do campo. A parceria entre universidade e prefeitura pode ser replicada no Brasil em escala local.

A parceria entre universidade e prefeitura pode ser barata e muito produtiva: a prefeitura traz problemas reais e dados, a universidade traz método e mão de obra qualificada. A Harvard Kennedy School (HKS) descreve como faz isso na reportagem Smarter Cities, de Susan A. Hughes e James F. Smith (inverno de 2022). A tese é que ensino, pesquisa e apoio direto às cidades formam um ciclo: estudantes ganham prática, gestores recebem análise e professores desenvolvem pesquisa a partir do trabalho de campo.

A ideia em resumo

O modelo mais antigo é o Greater Boston Applied Field Lab, criado em 2005 com a cidade de Somerville, em Massachusetts. Na primeira turma, 67 dos 97 alunos se voluntariaram para projetos da prefeitura, e desde então mais de 500 estudantes atuaram em projetos na região de Boston. Há também o programa Transition Term, que desde 2018 colocou 59 estudantes em 20 governos estaduais e locais. Em paralelo, a escola mantém o Bloomberg Center for Cities, ferramentas de dados como o Metroverse, do Growth Lab (que analisa vantagens competitivas de mais de mil cidades em 79 países), e o Government Performance Lab, que, segundo a reportagem, já trabalhou com mais de cem jurisdições em 38 estados americanos.

O que a reportagem mostra

Alguns exemplos citados:

  • Manchester (New Hampshire): estudantes descobriram que, dos 35 milhões de dólares gastos com a situação de rua, só 4 milhões estavam sob controle do governo, e o restante era gerido por organizações sociais, o que levou a um esforço de financiamento coordenado;
  • Chelsea (Massachusetts): num teste de renda básica garantida, mais de 70% dos repasses mensais foram gastos com alimentação;
  • Calgary (Canadá): o trabalho apoiado pela iniciativa ajudou a produzir um plano comunitário de saúde mental e dependência, que, segundo a reportagem, está sendo replicado em outras partes do país.

O ex-prefeito de Calgary, Naheed Nenshi, resume o espírito: “This is not about dry research. This is about stuff that makes a change in the cities that participate.” A reportagem observa que o trabalho é financiado em grande parte pela Bloomberg Philanthropies.

Como aplicar no Brasil

Dá para montar uma versão local com universidades públicas, privadas e institutos federais da região. Um passo a passo:

  1. Liste de cinco a dez problemas com dados disponíveis. Por exemplo: por que o IPTU não cresce, onde estão as maiores filas da saúde, como reduzir o tempo de emissão de alvarás, onde pavimentar primeiro. Perguntas bem delimitadas rendem mais do que temas amplos.
  2. Procure cursos de administração, economia, engenharia, direito e ciência de dados com disciplinas práticas ou estágio supervisionado, e proponha que turmas trabalhem nesses problemas ao longo de um semestre.
  3. Designe um responsável na prefeitura que dê acesso aos dados, receba os alunos e use o resultado. Sem alguém do outro lado, o trabalho vira relatório de gaveta.
  4. Formalize a relação. Dependendo do caso, será convênio, acordo de cooperação técnica ou termo de estágio; consulte a procuradoria. Quando houver pagamento a uma instituição de ensino e pesquisa, o art. 75, inciso XV, da Lei 14.133/2021 trata da dispensa de licitação, nas condições previstas.
  5. Proteja dados pessoais. Entregue bases agregadas ou anonimizadas e defina por escrito o uso permitido.
  6. Devolva os resultados em reunião aberta e registre o que a prefeitura fez com as recomendações.

Cuidados e limites

É uma reportagem institucional da própria escola, com tom elogioso e poucos resultados medidos: muitas conquistas são descritas de forma qualitativa. Em um exemplo, o prefeito de Boston recusou um aumento de imposto depois de uma pesquisa de estudantes, mas o texto não mostra que a pesquisa causou a decisão. O resultado do teste de renda básica de Chelsea aparece só em parte, e o piloto de resposta a emergências em Harris County é descrito sem números. Trabalho de estudante não substitui equipe técnica permanente, e o prazo acadêmico nem sempre combina com o prazo da gestão. Este texto é uma leitura própria da Evoluta, feita por profissionais com formação pela Harvard Kennedy School, sem vínculo da empresa com a HKS.

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Conteúdo independente da Evoluta, inspirado em publicações da Harvard Kennedy School of Government, a escola de governo da Universidade Harvard que inspira a Escola de Governo da Evoluta. Publicação original indicada nas fontes; a Evoluta não tem vínculo institucional com a Universidade Harvard.

Fontes

  1. Smarter Cities (Susan A. Hughes e James F. Smith) — Harvard Kennedy School, 01/01/2022
  2. Lei nº 14.133/2021 (art. 75, XV) — Planalto, 01/04/2021
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