O que é alienação de bens públicos
A alienação de bens públicos é a transferência onerosa de bens do patrimônio do ente: venda de imóveis, de veículos, de equipamentos e de outros ativos. É o momento em que patrimônio vira dinheiro. Do ponto de vista contábil, a Lei 4.320/1964 classifica a alienação de bens como receita de capital (art. 11, §4º), e não como receita corrente. A distinção importa, porque ela define para que o recurso pode ser usado.
A lógica da regra é simples: vender patrimônio é vender algo que não se renova. Se o dinheiro fosse usado para pagar despesas do dia a dia, o município estaria consumindo seu patrimônio para manter o custeio, o que fragiliza as contas no futuro.
Para que serve a regra
A Lei de Responsabilidade Fiscal protege o patrimônio público ao vedar a aplicação da receita de capital derivada da alienação de bens e direitos do patrimônio público para o financiamento de despesa corrente, salvo se destinada por lei aos regimes de previdência social, geral e próprio dos servidores (LC 101/2000, art. 44). Na prática, o dinheiro da venda deve ser usado para investimentos, quitação de dívidas ou reforço do patrimônio, e não para folha e custeio.
Como funciona na prática
- O município identifica o bem que não é mais necessário ao serviço público, com apoio do inventário patrimonial.
- A alienação de imóveis depende de lei autorizativa, de avaliação prévia e de licitação, conforme a legislação de licitações e a lei local.
- Concluída a venda, a receita é registrada como receita de capital, em fonte de recursos que identifique sua origem.
- A contabilidade baixa o bem do ativo e apura o resultado da operação.
- A destinação do recurso é controlada: investimentos, amortização de dívida ou, se a lei assim determinar, previdência.
Imagine uma prefeitura de pequeno porte que decide vender um terreno sem uso. Após lei autorizativa e licitação, recebe o valor. A tentação de usar o dinheiro para cobrir um aumento da folha é grande, mas a LRF veda esse uso, a não ser que a lei destine o recurso à previdência. O caminho seguro é aplicar a receita em obras, equipamentos ou na redução de dívidas.
Obrigações de transparência
- A LDO traz, no Anexo de Metas Fiscais, a evolução do patrimônio líquido, com a origem e aplicação dos recursos obtidos com a alienação de ativos (art. 4º, §2º, III).
- O último Relatório Resumido da Execução Orçamentária do exercício demonstra a variação patrimonial, com a alienação de ativos e a aplicação dos recursos dela decorrentes (art. 53, §1º, III).
- O Tribunal de Contas fiscaliza o cumprimento das normas da LRF, inclusive a destinação dos recursos obtidos com a alienação de ativos (art. 59, V).
Cessão de direitos creditórios e dívida ativa
A Lei 4.320 trata de forma específica a cessão onerosa de direitos creditórios, inclusive de dívida ativa. Ela é considerada operação de venda definitiva de patrimônio público, e, pelo menos 50% da receita deve ser destinada a despesas previdenciárias, com o restante aplicado em investimentos (art. 39-A, §§4º e 6º). Antes de cogitar uma operação desse tipo, o município deve consultar a procuradoria e a legislação vigente.
Base legal
- Lei 4.320/1964: art. 11, §4º (alienação de bens como receita de capital) e art. 39-A (cessão de direitos creditórios).
- LC 101/2000 (LRF): art. 44 (vedação de aplicar receita de capital da alienação em despesa corrente), art. 4º, §2º, III, art. 53, §1º, III e art. 59, V (transparência e fiscalização).
Diferença entre alienação e outras formas de uso do bem
Alienar é transferir a propriedade mediante pagamento. Já a cessão de uso, a concessão e a permissão mantêm o bem no patrimônio público e geram, no máximo, receita patrimonial recorrente. A distinção importa porque a vedação do art. 44 recai sobre a receita de capital da venda. Se a prefeitura apenas aluga um imóvel, a receita é corrente e pode ser usada de forma ordinária, observadas as vinculações.
Cuidados antes de decidir pela venda
Antes de levar um projeto de alienação à Câmara, vale responder a algumas perguntas: o bem realmente não tem uso previsto pela administração? O valor de avaliação é compatível com o mercado? A venda é a melhor alternativa, ou uma concessão ou cessão de uso resolveria sem perder o patrimônio? E, principalmente, qual será o destino do dinheiro? Deixar a resposta registrada na própria lei autorizativa ou na justificativa do projeto facilita o controle e protege o gestor de questionamentos posteriores.
Erros comuns
- Vender imóvel sem lei autorizativa, sem avaliação ou sem licitação.
- Usar o dinheiro da venda para pagar despesa corrente, contrariando a LRF.
- Não registrar a receita em fonte de recursos específica, perdendo o controle da destinação.
- Deixar o inventário desatualizado e vender bem de valor desconhecido.
- Esquecer de baixar o bem do patrimônio na contabilidade após a venda.


