A falta de medicamentos nas UBS é uma queixa conhecida de qualquer prefeito brasileiro. Um estudo de caso da Harvard Kennedy School (HKS), Fortaleza: Keeping an Electoral Promise, trata exatamente disso. Publicado em 4 de março de 2021 (caso 2210.0), tem autoria de Jorrit de Jong, Rawi Abdelal, Carlos Paiva e Carin-Isabel Knoop, com financiamento da Bloomberg Harvard City Leadership Initiative.
A ideia em resumo
Na campanha de reeleição de 2016, o prefeito de Fortaleza, Roberto Cláudio, ouviu repetidas reclamações de eleitores: os postos não tinham remédios essenciais. A falta frustrava pacientes e profissionais, encarecia o tratamento de doenças crônicas e aumentava o risco de doenças infecciosas. O resumo do caso afirma ainda que a falta colocava a cidade em desacordo com a garantia constitucional de acesso aos medicamentos pelos pacientes do sistema público. Na lei brasileira, a assistência terapêutica integral, inclusive farmacêutica, faz parte do campo de atuação do SUS (Lei 8.080/1990, art. 6º, I, d). No primeiro mandato, a rede tinha reformado a maior parte das unidades e ampliado o acesso a profissionais, mas isso não resolveu o problema dos remédios. Ele virou promessa central e prioridade do segundo mandato.
O que o caso discute
O caso, segundo o resumo público, acompanha como o prefeito atacou um problema persistente, mudou táticas e equipes e buscou as melhorias e inovações necessárias para cumprir a promessa. As perguntas para debate são duas:
- quando uma organização deve insistir em melhorar os sistemas existentes e quando deve investir em algo novo;
- qual o papel da liderança do prefeito para garantir que as metas sejam cumpridas.
Os objetivos de aprendizagem incluem diagnosticar lacunas de desempenho, pesar vantagens e desvantagens de uma abordagem de melhoria contra uma de inovação, e refletir sobre as responsabilidades de prefeitos e equipes. O texto completo do caso (18 páginas) e o epílogo não foram lidos; só o resumo público está acessível sem cadastro de educador.
Por que o caso é útil mesmo sem os números finais
O valor de um estudo de caso está nas perguntas que ele obriga o gestor a fazer. Aqui, uma promessa de campanha concreta e verificável, medicamentos disponíveis nas unidades, serve de teste para a capacidade de execução de uma prefeitura. O primeiro mandato entregou reformas e mais profissionais, mas o problema dos remédios continuou. A lição é que melhorias em frentes visíveis não garantem resultado em frentes que dependem de logística e de coordenação.
O caso também mostra o papel pessoal do prefeito: não como quem opera a farmácia, mas como quem mantém o assunto na agenda, cobra resultados e decide quando uma equipe ou uma tática precisa mudar. Para secretários, o recado é que um problema crônico merece diagnóstico por etapa e responsável por etapa, e não apenas um pedido de “mais empenho”.
Como aplicar no Brasil
Para secretarias de saúde e gabinetes:
- Dê nome e número ao problema. Em vez de “falta de remédio”, meça quais itens, em quais unidades, por quantos dias por mês.
- Siga o medicamento do início ao fim. Mapeie programação, compra, recebimento, armazenagem, distribuição e dispensação, e encontre onde o item se perde.
- Decida entre melhorar e inovar. Se o fluxo atual funciona em parte, ajuste prazos, estoques mínimos e rotinas; se o desenho em si é a causa, avalie mudar o modelo (logística, sistema, contratação).
- Troque o que precisar ser trocado, com critério. O caso fala em mudar táticas e equipes; defina responsabilidades claras por etapa.
- Dê atenção do prefeito. Inclua o tema em reunião periódica do gabinete, com painel simples de itens em falta.
- Informe a população. Divulgue por unidade a disponibilidade dos itens mais usados.
Cuidados e limites
É um estudo de caso didático, escrito para discussão em sala, e não uma avaliação de resultados. Não é possível, a partir do resumo, afirmar quanto a falta de medicamentos caiu em Fortaleza. Compras, assistência farmacêutica e responsabilidades entre União, estados e municípios seguem a legislação do SUS e as pactuações locais, que devem ser verificadas pela equipe jurídica e técnica. Este texto é uma leitura própria da Evoluta, feita por profissionais com formação pela Harvard Kennedy School, sem vínculo da empresa com a HKS.
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