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Gemba walk no setor público: como visitar o local do trabalho

Em resumo

O gemba walk é a visita planejada do gestor ao lugar onde o trabalho acontece, para observar e perguntar antes de decidir. Na prefeitura, ajuda a enxergar esperas, retrabalho e etapas sem valor, desde que seja conduzido com respeito e sem aparência de fiscalização.

O gemba walk no setor público é a visita planejada de um gestor ao lugar onde o trabalho realmente acontece, com um objetivo simples: observar o processo e fazer perguntas antes de propor qualquer mudança. Na prefeitura, esse lugar pode ser o balcão do protocolo, o almoxarifado, a mesa do setor de compras ou a recepção de uma unidade de saúde.

A prática nasceu na indústria japonesa e é descrita por instituições dedicadas ao método, como o Lean Enterprise Institute, em termos que servem a qualquer organização que presta serviços.

O que é gemba e por que a gestão precisa ir até lá

“Gemba” é a palavra japonesa para “lugar real”: o local em que o trabalho que gera valor é feito. Segundo o Lean Enterprise Institute, o gemba muda conforme o setor. Numa fábrica é o chão de produção; num hospital, a sala de cirurgia. Na administração municipal, é cada ponto em que o pedido de um cidadão é recebido, analisado, despachado ou respondido.

O instituto associa o conceito à expressão japonesa genchi gembutsu, “ir e ver”: aprender pela evidência direta, e não por relatos. Ele dá um exemplo claro: o trabalho padronizado de um operador de máquina não se escreve numa mesa de escritório distante da máquina.

A lógica vale para a repartição. O fluxograma desenhado em gabinete mostra como o processo deveria funcionar. Só a observação mostra onde o papel espera, onde a informação volta e onde a equipe improvisa para cumprir o prazo.

Há ainda um motivo institucional. Desde a Emenda Constitucional 19/1998, o art. 37 da Constituição inclui a eficiência entre os princípios da administração pública. Conhecer como o serviço é de fato prestado é um passo natural para dar conteúdo a esse princípio.

Roteiro da visita: observar, perguntar, não corrigir

John Shook, do Lean Enterprise Institute, resume a postura da visita em três verbos: “Go see, ask why, show respect”, ou seja, ver no local, perguntar o porquê e demonstrar respeito. Um roteiro simples para o primeiro gemba walk:

  1. Escolha um processo e avise a equipe. Defina o que será acompanhado, por exemplo o caminho de um requerimento do protocolo até a resposta, e explique o propósito da visita antes que ela aconteça.
  2. Comece onde o pedido entra. Siga o trabalho do início ao fim, atravessando as áreas que participam dele. O instituto recomenda acompanhar um processo de ponta a ponta, mesmo quando ele cruza departamentos.
  3. Observe antes de falar. Veja quem faz o quê, quanto tempo o documento espera e quantas vezes muda de mãos.
  4. Pergunte com curiosidade. Peça que o servidor explique o trabalho como se ensinasse um colega.
  5. Anote fatos, não julgamentos. Registre o que viu e o que ouviu, sem atribuir culpa.
  6. Agradeça e combine o retorno. Diga quando e como as observações voltarão para a equipe.

Shook também adverte que prescrições feitas à distância tendem a dar errado. Por isso a visita serve para entender; a correção vem depois, com quem faz o trabalho.

Perguntas que revelam desperdício

No vocabulário lean, desperdício (muda) é toda atividade que consome recursos sem criar valor para quem recebe o serviço, conforme o glossário do mesmo instituto. No serviço público, quem recebe é o cidadão, a empresa ou outra área do órgão. Perguntas abertas ajudam a enxergá-lo:

  • O que este setor entrega, e para quem?
  • Qual é o primeiro passo desta tarefa e qual é o último?
  • Onde o trabalho fica parado esperando alguém ou alguma informação?
  • O que volta para ser refeito, e por quê?
  • Que informação falta para você concluir sem consultar outra pessoa?
  • Se pudesse mudar uma etapa, qual mudaria?

Shook sugere uma ordem: primeiro “o quê”, depois “por quê”, em seguida “e se” e, por último, “por que não”. A ideia é diagnosticar só depois de observar.

Como registrar, devolver ao time e definir a frequência

Registre no mesmo dia, em uma folha simples: processo acompanhado, o que foi visto, dúvidas e possíveis causas. Observe o fluxo, não o conteúdo dos pedidos, e evite anotar dados pessoais de cidadãos ou de servidores.

Em poucos dias, devolva a leitura à equipe e pergunte se ela confere. Os pontos confirmados viram candidatos a teste em pequena escala. O serviço de Lean e Melhoria Contínua trabalha assim: parte do mapeamento do fluxo de valor e da identificação de desperdícios e segue para o teste de soluções.

Sobre a frequência, o Lean Enterprise Institute defende que os gestores passem tempo substancial no gemba, em vez de gerir apenas da mesa. Uma agenda fixa e curta, com horário combinado, ajuda a transformar a visita em hábito. Quem melhora o processo é a equipe que o executa; o papel do gestor é observar, aprender e remover obstáculos.

Cuidados para a visita não parecer fiscalização

A primeira regra do gemba walk, segundo Shook, é não causar dano. Para o servidor, a presença da chefia pode soar como vigilância. Alguns cuidados reduzem esse risco:

  • Explique antes que o objetivo é melhorar o processo, e não avaliar pessoas.
  • Não aponte erros individuais nem corrija o servidor diante de colegas ou de cidadãos.
  • Evite roteiros de conformidade; a visita não é auditoria, sindicância nem avaliação de desempenho.
  • Devolva os resultados e dê crédito à equipe pelas melhorias.

Cada órgão tem normas próprias de controle interno, corregedoria e avaliação funcional. Se a observação revelar indício de irregularidade, siga o rito previsto na legislação local; o gemba walk não substitui esses procedimentos.

Fontes

  1. Gemba (Lean Lexicon) — Lean Enterprise Institute
  2. How to Go to the Gemba: Go See, Ask Why, Show Respect — Lean Enterprise Institute (The Lean Post), John Shook, 20/01/2023
  3. Muda (Lean Lexicon) — Lean Enterprise Institute
  4. Emenda Constitucional nº 19, de 4 de junho de 1998 — Planalto, 04/06/1998
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